
Revisão publicada em 2024 afirma que a humanidade se aproxima de limites ambientais difíceis de reverter.
Uma revisão científica publicada em 2 de abril de 2024 alerta que a humanidade enfrenta uma crise ambiental global formada pela combinação de mudanças climáticas, destruição de ecossistemas, poluição, doenças e desigualdade socioeconômica. O trabalho, assinado por pesquisadores de universidades dos Estados Unidos, Austrália, Reino Unido e África do Sul, defende uma resposta internacional baseada em descarbonização urgente, justiça social e recuperação da natureza.
O artigo foi publicado na revista PNAS Nexus, ligada à National Academy of Sciences, e reúne evidências sobre a pressão crescente exercida pelas atividades humanas sobre os sistemas que sustentam a vida. Os autores afirmam que o modelo atual de desenvolvimento ultrapassa limites materiais e enfraquece as condições ambientais relativamente estáveis que favoreceram a civilização no Holoceno.
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Segundo os pesquisadores, as emissões globais de gases de efeito estufa cresceram cerca de 1,1% em 2023, depois de três aumentos anuais consecutivos desde a retração provocada pela pandemia de Covid-19. No mesmo ano, o aquecimento global de origem humana chegou a 1,45 °C, com margem de incerteza de 0,12 °C.
Segundo a revisão publicada na PNAS Nexus, o aquecimento antropogênico alcançou 1,45 °C em 2023, enquanto as emissões globais de gases de efeito estufa voltaram a crescer. O estudo relaciona esse cenário a ondas de calor, secas, incêndios, perda de gelo e redução da diversidade biológica.
O artigo cita uma estimativa de que quase um terço da população mundial já esteja exposta a ondas de calor potencialmente fatais. Também menciona um aumento de nove vezes na ocorrência de grandes incêndios florestais na América do Norte, além de secas de escala regional consideradas recordes.

Gelo, oceanos e espécies entram na mesma equação
A perda de gelo na Antártida também aparece entre os sinais destacados. De acordo com os dados reunidos pelos autores, a massa de gelo perdida entre 2011 e 2020 foi quase 75% maior que a registrada na década anterior, entre 2001 e 2010.
O estudo ainda aponta que as extinções de animais e plantas podem aumentar de duas a cinco vezes nas próximas décadas. Algumas projeções citadas estimam que entre 14% e 32% das espécies macroscópicas podem sofrer extinção relacionada ao clima nos próximos 50 anos, mesmo com diferenças importantes entre os cenários analisados.
Os pesquisadores também alertam para a perda de diversidade genética, o enfraquecimento dos ecossistemas e a aproximação de pontos de inflexão em ambientes terrestres e marinhos. Esses pontos representam mudanças que podem desencadear efeitos duradouros ou difíceis de reverter.
Energia fóssil continua no centro do problema
Apesar da expansão dos investimentos em energia limpa, os combustíveis fósseis ainda respondem por mais de 80% do consumo global de energia, segundo o artigo. A demanda por petróleo ultrapassou 100 milhões de barris por dia em 2023, o maior nível registrado até então, conforme a fonte citada na revisão.
Os autores afirmam que, sem medidas climáticas mais fortes, o planeta pode caminhar para um aquecimento de 3 °C ou mais. Nesse cenário, os impactos sobre agricultura, abastecimento de água, saúde pública, migrações e segurança alimentar tendem a se intensificar.

Uma das projeções reunidas no estudo indica que crianças nascidas atualmente poderão enfrentar 7,5 vezes mais ondas de calor, 3,6 vezes mais secas, três vezes mais perdas de safras, 2,8 vezes mais enchentes de rios e duas vezes mais incêndios florestais ao longo da vida, em comparação com pessoas nascidas em 1960.
A conta não é dividida de forma igual
A revisão sustenta que os efeitos da crise recaem de maneira desproporcional sobre populações vulneráveis, embora os benefícios e os lucros associados à exploração de recursos estejam concentrados. Comunidades de baixa renda, povos indígenas e habitantes de áreas mais expostas a secas, inundações e calor extremo enfrentam riscos maiores com menos recursos para adaptação.
Essa desigualdade tem relação direta com a Amazônia. Nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e Mato Grosso, a pressão sobre florestas, rios, territórios tradicionais e cadeias produtivas se conecta a problemas globais de clima e biodiversidade. O artigo não apresenta uma avaliação específica de cada estado brasileiro, mas seu diagnóstico ajuda a interpretar por que a conservação da floresta e a proteção das populações locais têm peso internacional.
Para os autores, não basta substituir fontes de energia. A resposta também exige reduzir subsídios prejudiciais ao ambiente, apoiar países de menor renda, promover desenvolvimento humano mais equilibrado e adotar práticas regenerativas na gestão de água, solo, florestas e oceanos.
Os caminhos defendidos pelos pesquisadores
O texto propõe uma mudança de paradigma econômico. Em vez de priorizar crescimento baseado em extração e acumulação de riqueza, os autores defendem um modelo que coloque no centro a sustentabilidade, a resiliência dos ecossistemas e a justiça.

Entre as medidas indicadas estão a eliminação gradual de incentivos que favorecem atividades destrutivas, o fortalecimento da cooperação internacional e a transferência de recursos financeiros para nações mais pobres. A revisão também destaca a necessidade de reconhecer os limites físicos da Terra e de ampliar formas de relação com a natureza baseadas em reciprocidade e responsabilidade coletiva.
“O imperativo é claro: precisamos nos afastar desse precipício”, afirmam os autores ao defender que o progresso humano não ocorra à custa da integridade ecológica e da equidade social.
A publicação é uma revisão de evidências e uma chamada política e social à ação. Ela não apresenta uma previsão única para o futuro nem elimina as incertezas presentes nas projeções climáticas e ecológicas. Os próprios autores reconhecem que os resultados dependem das decisões tomadas por governos, empresas e sociedades.
O artigo completo, em acesso aberto, pode ser consultado no PDF da revisão publicada na PNAS Nexus. A agenda defendida pelos pesquisadores deverá continuar no centro das negociações climáticas e das políticas de conservação nas próximas décadas.
Respostas rápidas sobre o estudo
Quando a revisão foi publicada?
O trabalho foi publicado em 2 de abril de 2024, no volume 3 da revista PNAS Nexus, com o identificador digital 10.1093/pnasnexus/pgae106.
Quem produziu a análise?
A revisão reúne autores vinculados a instituições como a University of Hawai‘i at Mānoa, a Oregon State University, a University of Sydney, a University of Cape Town, a Stanford University, a University of Cambridge e a Harvard University.
O estudo trata apenas de mudanças climáticas?
Não. O texto analisa a conexão entre aquecimento global, perda de biodiversidade, destruição de ecossistemas, poluição, doenças, insegurança alimentar, acesso à água e desigualdade socioeconômica.
Com informações de PNAS Nexus.
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