
Deslocamentos provocados por tempestades, incêndios e elevação do mar podem romper redes sociais e memórias coletivas.
Quando uma família deixa sua casa por causa de uma enchente, incêndio ou avanço do mar, a perda não termina na mudança de endereço. Igrejas, sinagogas, centros comunitários, paisagens, receitas, músicas e formas de organização também podem ficar para trás. A tese apresentada pela pesquisadora Victoria Herrmann é que esse patrimônio cultural precisa entrar no planejamento de resposta às mudanças climáticas, porque ele funciona como uma rede de apoio durante a reconstrução.
O alerta foi publicado em 16 de maio de 2019 na Scientific American, em um artigo de opinião assinado por Herrmann, diretora-gerente do Arctic Institute e professora-assistente de pesquisa da Universidade Georgetown. O texto relaciona deslocamento climático, memória coletiva e capacidade de comunidades reconstruírem a vida depois de uma crise.
Uma herança preservada depois da expulsão
Herrmann parte da própria história familiar. Neta de sobreviventes do campo de concentração de Auschwitz, ela cresceu cercada por relatos de perseguição, deslocamento forçado e recomeços em diferentes países. Um número tatuado no braço do avô, 176924, tornou visível uma parte dessa trajetória quando ela ainda era criança.
Apesar da violência e da dispersão, a família conseguiu manter práticas religiosas, hábitos alimentares, música e vínculos comunitários. Os testemunhos foram registrados no Visual History Archive da USC Shoah Foundation. Nos Estados Unidos, sinagogas ofereceram espaços físicos para a continuidade das tradições, enquanto comunidades de imigrantes ajudaram a criar novas relações sociais.
Esse conjunto de registros, lugares e relações não apagou o trauma, mas forneceu referências para uma comunidade que precisou se adaptar a diferentes deslocamentos. A autora também cita a dispersão de famílias judias para subúrbios e o impacto do furacão Sandy como experiências em que a identidade coletiva ajudou na retomada da vida cotidiana.
O que se perde quando a mudança é forçada
O problema identificado no artigo é que planos climáticos costumam concentrar recursos em obras, abrigos, seguros e reassentamento físico. A dimensão cultural aparece com menos frequência, embora a ruptura de vínculos possa afetar a saúde mental, o sentimento de pertencimento e a capacidade de cooperação dos recém-chegados.
Práticas como preparar alimentos, celebrar a fé, transmitir histórias e tocar músicas não são apresentadas apenas como símbolos. Elas podem criar pontos de encontro em cidades que recebem famílias deslocadas. Também preservam conhecimentos locais sobre o território, sobre a forma de enfrentar crises e sobre a maneira de organizar ajuda entre vizinhos.
Segundo a Scientific American, comunidades afetadas por elevação do nível do mar, incêndios florestais e eventos extremos já enfrentavam deslocamentos e reassentamentos em diferentes continentes quando o artigo foi publicado, em 2019.
Como a preservação pode funcionar na prática
A proposta não é congelar comunidades no passado, mas garantir condições para que elas levem sua identidade ao novo destino. Entre as medidas sugeridas estão bolsas para documentar histórias e tradições ameaçadas, apoio a projetos de adaptação conduzidos por lideranças locais e criação de espaços físicos onde grupos deslocados possam manter suas práticas.
O registro pode incluir depoimentos, fotografias, receitas, mapas afetivos, músicas e documentos de instituições comunitárias. A preservação, porém, não deve ser feita apenas por pesquisadores externos. A escolha do que será registrado, a forma de acesso e o uso desse material precisam envolver as próprias comunidades, especialmente quando há memórias de violência ou conhecimentos tradicionais.
Herrmann relata ter trabalhado com o Arctic Institute e o National Trust for Historic Preservation para aproximar lideranças locais e voluntários especializados em projetos de adaptação climática nos Estados Unidos. A experiência apontada no texto revela uma tentativa de preencher lacunas deixadas por políticas públicas consideradas insuficientes pela autora.
Os limites de uma resposta centrada na cultura
Preservar tradições não substitui moradia segura, renda, atendimento de saúde, transporte ou infraestrutura contra desastres. Um arquivo de histórias não recompõe sozinho uma casa perdida, e um espaço comunitário não resolve a falta de emprego em uma cidade de destino. A cultura pode fortalecer redes de apoio, mas depende de políticas sociais e ambientais mais amplas.
Também existe o risco de transformar comunidades deslocadas em objetos de exposição. A documentação precisa respeitar consentimento, privacidade e autonomia. O patrimônio cultural não é uma coleção neutra: ele envolve relações de poder, diferenças internas e decisões sobre quais memórias serão transmitidas às próximas gerações.
O artigo cita famílias que se mudaram para cidades próximas depois dos furacões Harvey, Maria e Irma, em 2017, e os incêndios da Califórnia em 2018. Esses exemplos mostram que a migração climática não se restringe a áreas costeiras inundadas. Ela pode ocorrer depois de incêndios, tempestades e outros eventos que tornam a permanência inviável ou insegura.
Por que o debate importa para a Amazônia
Para a Amazônia, do Acre ao Tocantins, passando por Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima e Maranhão, a discussão oferece uma lente para políticas de adaptação que não tratem o deslocamento apenas como transferência de moradores. Em qualquer reassentamento provocado por eventos extremos, a continuidade de festas, formas de trabalho, práticas alimentares, redes de parentesco e conhecimentos sobre o território deve ser considerada desde o planejamento.
Essa abordagem é especialmente relevante quando comunidades precisam se afastar de áreas de risco ou reorganizar sua vida em centros urbanos. A pergunta não é somente para onde as pessoas irão, mas também que condições terão para continuar pertencendo a uma comunidade e reconstruir relações no novo lugar.
Ao recordar o Dia da Memória do Holocausto, celebrado em 2 de maio de 2019, Herrmann encerra o texto com a expressão hebraica L’dor va’Dor, que significa de geração em geração. A ideia resume o argumento: resiliência também depende de transmitir referências, histórias e práticas para quem enfrentará o próximo ciclo de crises.
O próximo passo indicado pela autora é incorporar a preservação cultural aos planos de migração e adaptação antes que novas tempestades e incêndios provoquem deslocamentos em larga escala.
Com informações de Scientific American.
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