Crânio que parecia uma rocha revela peixe-boi de mais de 13 milhões de anos às margens do Amazonas no Peru

Crânio que parecia uma rocha revela peixe-boi de mais de 13 milhões de anos às margens do Amazonas no Peru
Ilustração: Revista Amazônia

Achado em Loreto é o primeiro crânio completo de peixe-boi conhecido na proto-Amazônia e preserva todos os dentes do mamífero.

A rocha que revelou um crânio inteiro

Às margens do rio Amazonas, uma formação rochosa que parecia conter apenas mais um nódulo guardava o crânio completo de um peixe-boi com mais de 13 milhões de anos. O fóssil foi encontrado na área de afloramento de El Cascajal, na cidade de Orán, em Loreto, no Peru, durante uma expedição dedicada a investigar a origem da biodiversidade amazônica. A descoberta chamou a atenção porque o material preserva todos os dentes do animal, uma condição que permite observar características ausentes nos achados anteriores.

O encontro ocorreu no sábado, 22 de agosto, por volta das 16h no horário local. A equipe multidisciplinar era liderada pelo paleontólogo peruano Rodolfo Salas-Gismondi, da Universidade Peruana Cayetano Heredia e chefe do Departamento de Paleontologia de Vertebrados do Museu de História Natural da Universidade Nacional de San Marcos. Durante uma caminhada para explorar o afloramento, o pesquisador percebeu que a estrutura não se comportava como uma pedra comum. O guia Michel Valles havia considerado que era uma rocha, mas Salas-Gismondi suspeitou que pudesse ser osso.

Da suspeita de osso à identificação do mamífero

Para verificar a hipótese, o paleontólogo quebrou uma pequena parte da superfície e observou a estrutura interna. A análise confirmou que se tratava de osso e revelou um crânio de mamífero. A equipe começou a escavar e a retirar o sedimento antes do anoitecer, mas a identificação inicial ainda não estava resolvida. Conforme a limpeza avançava, o formato parecia lembrar o crânio de uma preguiça, possibilidade que permaneceu até a etapa seguinte do trabalho.

Já no hotel, Salas-Gismondi continuou removendo o sedimento na região em que esperava encontrar os dentes. O aparecimento do esmalte mudou a interpretação do fóssil. Preguiças não possuem esmalte nos dentes. Seus dentes são cilíndricos, simples e pequenos, formados por tecidos como osteodentina e vasodentina. Nos peixes-boi, os dentes apresentam esmalte e pertencem ao tipo chamado bunolofodonte, com cúspides arredondadas organizadas em cristas transversais. Essa combinação confirmou que o crânio pertencia a um sirênio, grupo que inclui os peixes-boi.

O que os dentes preservados acrescentam

O valor científico do achado está concentrado na preservação do crânio e da dentição. Antes dele, havia registros parciais de peixes-boi na região amazônica antiga, como dentes, costelas e fragmentos de mandíbula, mas não um crânio fossilizado completo da proto-Amazônia. O material encontrado em El Cascajal apresenta todos os dentes, permitindo comparar sua forma com a de outros sirênios e observar as características que distinguem esses mamíferos aquáticos de animais com aparência semelhante.

Os dentes bunolofodontes têm estruturas que também aparecem entre parentes do grupo, incluindo alguns mastodontes. A presença de esmalte e das cúspides em cristas transversais foi decisiva para separar o fóssil de uma preguiça e reconhecer o peixe-boi. O crânio agora integra a investigação sobre como esses animais eram no Mioceno Médio, período relacionado à idade estimada do achado. Os peixes-boi ainda vivem atualmente, mas os pesquisadores conhecem pouco sobre a forma que seus ancestrais tinham na Amazônia daquele período.

Uma peça para reconstruir a diversidade amazônica

Salas-Gismondi afirmou que não existia, até então, um crânio fossilizado de peixe-boi conhecido na proto-Amazônia ou em toda a América do Sul. A afirmação dá ao fóssil uma importância regional ampla, especialmente porque a expedição procura entender a origem da diversidade amazônica. O achado não responde sozinho como o grupo evoluiu, mas oferece uma estrutura anatômica muito mais completa do que dentes isolados ou fragmentos de mandíbula.

Há alguns anos, um fragmento de mandíbula com dentes encontrado na Colômbia levou à descrição do gênero Potamosiren. No Peru, outro registro foi baseado em um dente encontrado na selva, enquanto a coleção do Museu de História Natural conserva ainda um dente localizado no rio Napo. Esses materiais formam um conjunto de evidências, mas o crânio de El Cascajal acrescenta uma dimensão diferente ao estudo. Ele reúne a parte óssea central da cabeça e a dentição completa, transformando uma rocha observada durante uma caminhada em uma referência para investigar a história dos peixes-boi amazônicos.

O achado que saiu do afloramento antes do anoitecer

A sequência da descoberta ajuda a explicar por que o fóssil quase passou despercebido. Primeiro, a equipe encontrou uma estrutura que parecia um nódulo rochoso no meio do rio Amazonas. Depois, uma pequena quebra mostrou que havia osso. A escavação feita no local revelou um crânio de mamífero, mas ainda deixou aberta a possibilidade de ser uma preguiça. Somente a limpeza dos dentes e a identificação do esmalte permitiram reconhecer o peixe-boi. O resultado foi obtido em poucas horas, entre a chegada ao afloramento e o trabalho realizado no hotel.

A terceira expedição científica em Loreto começou, assim, com um fóssil de mais de 13 milhões de anos que pode ampliar a leitura da fauna amazônica antiga. A descoberta foi divulgada em 31 de agosto de 2026, depois do encontro realizado em 22 de agosto. A identificação se apoia na anatomia observada, principalmente nos dentes, e não apenas no formato geral do crânio. Ainda será necessário interpretar o material dentro do conjunto de fósseis conhecidos, mas a peça já muda o ponto de partida: para entender os peixes-boi de hoje, a ciência ganhou agora um crânio inteiro vindo da antiga Amazônia.

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