
Cientistas divergem sobre o que protegia os recifes egípcios, e a resposta pode indicar quanto tempo essa proteção ainda vai durar.
Em Wadi El Gemal, no sul da costa egípcia do Mar Vermelho, cerca de metade das colônias de coral examinadas branqueou durante a onda de calor de 2024. Em Hurghada, mais ao norte, o índice foi de 9%. A diferença expõe um recife que por anos escapou do pior do aquecimento global e agora tem a fama de “super coral” posta à prova, segundo levantamento da Hurghada Environmental Protection and Conservation Association (HEPCA).
Os números vêm de uma pesquisa liderada por Mahmoud Hanafy, professor de biologia marinha da Universidade do Canal de Suez e consultor da entidade. Ele afirma que os recifes do norte egípcio poderiam estar entre os últimos corais do planeta.
O que é o branqueamento e por que importa
Recifes são construídos por pólipos, pequenos animais de corpo mole que produzem esqueletos de carbonato de cálcio. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, os recifes cobrem menos de 1% do fundo do mar, mas abrigam pelo menos 25% das espécies marinhas.
Com o calor excessivo, a relação entre o pólipo e as algas que vivem em seus tecidos entra em colapso. O coral expulsa as algas, perde a cor e uma fonte importante de nutrientes. Isso é o branqueamento. Coral branqueado não está necessariamente morto, mas o estresse prolongado pode impedir a recuperação.
Um recife que parecia blindado
Durante muitos anos, o norte do Mar Vermelho ficou relativamente poupado enquanto outros ecossistemas de coral sofriam. Isso atraiu o interesse dos cientistas pela tolerância ao calor desses recifes.
Foram registrados branqueamentos na costa egípcia em 2012, 2020 e 2023. O evento de 2024 foi mais extenso e chegou a áreas do norte antes relativamente protegidas. Ele ocorreu durante o quarto evento global de branqueamento de corais: do início de 2023 a meados de 2025, aproximadamente 84% da área de recifes do mundo passou por calor capaz de causar branqueamento.
O levantamento da HEPCA também registrou branqueamento no Golfo de Aqaba, em nível comparativamente menor, semelhante ao do setor norte de Hurghada. A maior intensidade se concentrou no sul.
Duas explicações para a mesma resistência
Eslam Osman, ecólogo marinho da Universidade de Ciência e Tecnologia Rei Abdullah (KAUST), aponta a história evolutiva como principal explicação. Segundo ele, quando os corais entraram no Mar Vermelho pelo estreito de Bab el-Mandeb, milhares de anos atrás, as águas quentes funcionaram como filtro natural. Espécies e genótipos tolerantes ao calor sobreviveram, e seus descendentes avançaram para águas mais frias ao norte.
Hanafy não está convencido. Para ele, pesa mais a circulação da água. Mudanças na direção das correntes no norte do Mar Vermelho provocam mistura vertical, que traz água mais fria para perto da superfície e ajuda a amortecer o calor sobre os corais.
Em 2024, segundo ele, o mar ficou anormalmente calmo por cerca de um mês e meio, enfraquecendo essa circulação. O relatório da HEPCA cita ondas de calor prolongadas e circulação fraca como fatores do branqueamento. Marés excepcionalmente baixas em julho de 2024 também podem ter aumentado o estresse nas comunidades de coral rasas.
Osman vê a temperatura extrema como o fator principal. Admite que o mar calmo possa ter agravado o quadro, mas diz que a hipótese da circulação precisa de mais pesquisa.
“I’m not denying the possibility of that. But what I’m saying, the temperature was the main issue.”
As duas explicações não se excluem. Mas entender o peso de cada uma ajuda a estimar a vulnerabilidade dos recifes a futuras ondas de calor.
Sinais de recuperação e proteção formal
As estimativas preliminares da HEPCA após o evento de 2024 apontam taxas de recuperação em 2025 entre 75% e 88%, conforme espécie e local. Os números indicam resiliência entre os corais monitorados, mas não demonstram recuperação de todo o sistema de recifes.
Em dezembro de 2025, o Egito declarou o Great Fringing Reef como área protegida, após anos de trabalho científico e de campo da HEPCA e parceiros. A Iniciativa Egípcia do Mar Vermelho, assinada em setembro de 2024 e lançada em oficina em junho de 2026, reúne o governo egípcio, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e o Fundo Global para os Corais. Segundo o PNUD, ela busca fortalecer a conservação por meio de manejo sustentável, investimento e financiamento de longo prazo.
Osman vê as iniciativas como passo positivo, mas ressalta a necessidade de apoio contínuo.
“We definitely need more stable financial resources because conservation is not a single year act.”
O que isso diz à Amazônia
O Mar Vermelho fica longe, mas a lição alcança a costa amazônica. Manguezais e ecossistemas marinhos do litoral da região também dependem de condições ambientais estáveis, e o caso egípcio mostra que a proteção local, como criar áreas protegidas e garantir financiamento, ajuda, mas não substitui o controle do aquecimento global. O debate sobre financiamento de longo prazo para conservação também dialoga com discussões que o Brasil levou à COP 30, em Belém.
O limite da proteção local
Para Hanafy, o futuro dos recifes egípcios depende também de a mudança climática alterar ou não a circulação que os protege. Sobreviver é possível, mas não está garantido.
Osman encara o branqueamento de 2024 como alerta de que até os corais do norte do Mar Vermelho são vulneráveis. Ele afirma que a chave é reduzir o dióxido de carbono e os gases de efeito estufa, e que qualquer outra solução apenas ganha tempo. Os próximos verões e a continuidade do monitoramento da HEPCA dirão se os números de recuperação de 2025 se sustentam.
Com informações de Hurghada Environmental Protection and Conservation Association (HEPCA).
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