
Professor da Universidade Estadual da Califórnia em Fullerton compara a expansão digital à infraestrutura de óleo e gás.
Quando um data center chega a uma cidade, a promessa costuma aparecer na forma de arrecadação, aluguel de terrenos e obras de infraestrutura. O impacto mais persistente, porém, pode ficar longe dos usuários que utilizam serviços de nuvem, videoconferências e plataformas digitais. Uma pesquisa conduzida por David Adams, professor associado de Administração Pública da California State University, Fullerton, nos Estados Unidos, aponta que a expansão desses complexos segue uma lógica semelhante à do setor de petróleo e gás: o benefício se espalha, enquanto parte importante do custo permanece no território onde a instalação funciona.
A análise foi apresentada em entrevista publicada em 12 de outubro de 2026 e reúne estudos do professor sobre energia, água, infraestrutura e atuação do poder público. Segundo a California State University, Fullerton, havia cerca de 7.000 edifícios de data centers em operação, propostos ou em construção nos Estados Unidos em 1º de setembro de 2026, com aproximadamente 2.100 unidades operando em cerca de 1.400 locais.
O lugar escolhido depende de cabos e eletricidade
Os data centers são estruturas que concentram servidores responsáveis por armazenar, processar e distribuir dados. Para funcionar, precisam de conexão rápida com redes de fibra óptica e fornecimento contínuo de energia. Por isso, o levantamento de Adams identificou uma tendência de localização próxima às rotas de cabos já existentes e às áreas com oferta energética considerada mais conveniente.
Essa escolha produz efeitos diferentes dos gerados por uma fábrica tradicional. O empreendimento pode recolher impostos sem necessariamente criar uma grande demanda por moradias, escolas, transporte coletivo ou contratação permanente de trabalhadores. Para municípios e condados, a combinação parece vantajosa: entra uma nova fonte de receita, mas a população não cresce na mesma proporção.
O problema aparece quando a análise considera o ciclo completo da instalação. Um campus de grande porte pode consumir eletricidade equivalente à de uma cidade pequena. Além disso, muitos equipamentos precisam ser resfriados continuamente, o que pode ampliar a pressão sobre os recursos hídricos, especialmente em regiões sujeitas a secas.
A água economizada pode reaparecer na usina
O sistema de resfriamento cria uma escolha difícil. Quando o operador utiliza ar para reduzir o consumo direto de água, a instalação tende a demandar mais eletricidade. Se essa energia for produzida em uma usina que também utiliza água, parte do consumo apenas muda de lugar dentro da cadeia de fornecimento.
Esse deslocamento torna o impacto menos visível para a comunidade. A água pode não ser retirada diretamente pelo data center, mas ainda ser necessária na produção da energia que mantém os servidores ligados. A consequência é uma disputa por recursos que envolve empresas, concessionárias, governos locais, órgãos reguladores e moradores.
A comparação com o petróleo e gás se estende ao risco de abandono. Adams avalia que a evolução tecnológica pode tornar determinados complexos pouco úteis ou economicamente inviáveis, deixando uma infraestrutura de grande porte sem função. O paralelo é feito com poços abandonados e órfãos, cuja manutenção e recuperação podem acabar recaindo sobre o poder público.
O caso do Arizona expõe a divisão de responsabilidades
Um episódio em Tucson, no Arizona, mostra como a aprovação pode atravessar várias instituições. Um empreendimento associado à Amazon Web Services adquiriu terras no condado, mas encontrou resistência da cidade para obter acesso à água. O projeto foi redesenhado para utilizar resfriamento a ar e, depois, buscou autorização para a conexão elétrica junto à Arizona Corporation Commission, reguladora estadual do setor de energia.
Enquanto moradores participaram de manifestações e o conselho municipal rejeitou o projeto, a comissão estadual aprovou o acordo de fornecimento de energia. Como o condado já havia negociado o terreno, as decisões tomadas por diferentes órgãos produziram um resultado que contrariava a posição expressa no município. A situação, segundo Adams, deixa o público diante de uma dúvida prática: qual governo tem, de fato, poder para interromper ou alterar a instalação?
O pesquisador afirma que um único empreendimento pode envolver até 15 governos, com participação de estados, municípios, condados, distritos especiais e comissões reguladoras. A fragmentação dificulta a fiscalização e pode fazer com que moradores procurem a instituição errada para apresentar reclamações sobre água, energia, zoneamento ou impactos ambientais.
O que a experiência pode ensinar à Amazônia
O debate também interessa aos estados amazônicos, onde a expansão da infraestrutura digital convive com rios estratégicos, sistemas elétricos ainda desiguais e municípios com capacidade administrativa variada. Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins podem enfrentar discussões semelhantes caso novos complexos de processamento de dados sejam planejados na região.
A principal lição é que a autorização não deveria considerar apenas a área ocupada ou a arrecadação esperada. É necessário avaliar a origem da energia, a disponibilidade hídrica durante períodos de estiagem, a capacidade das redes de transmissão, o destino dos equipamentos ao fim da vida útil e quem pagará por eventuais reforços na infraestrutura.
Na Amazônia, essa análise ganha peso porque o custo ambiental pode atingir comunidades que não são as principais beneficiárias dos serviços digitais. Uma instalação pode atender usuários de várias partes do país e do mundo, enquanto a demanda por água, eletricidade, estradas e terrenos se concentra em um município específico.
Califórnia tenta evitar uma conta futura para os usuários
A Califórnia aprovou sete leis assinadas pelo governador Gavin Newsom em 21 de setembro de 2026. As medidas determinam que os data centers arquem com melhorias necessárias na rede elétrica e apresentem garantias para contratos de energia de longo prazo. A intenção é evitar que consumidores comuns assumam os custos caso uma empresa encerre as atividades.
As novas regras também exigem que projetos propostos informem o consumo de água e os planos para períodos de seca aos governos locais e aos fornecedores de água. Com isso, dados que antes poderiam ficar restritos a negociações técnicas passam a chegar às instituições mais próximas da população.
A experiência ainda será medida pela capacidade dessas garantias financeiras de cobrir o custo real de encerramento e recuperação das áreas. Para Adams, o histórico dos poços órfãos mostra que exigências insuficientes podem transferir o problema para as próximas décadas. Nos Estados Unidos, o avanço da regulação californiana deve servir como referência para outras jurisdições que avaliam novos data centers e seus impactos sobre água, energia e orçamento público.
Com informações de California State University, Fullerton.
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