
Estudo de 35 anos revela prejuízos bilionários e milhares de mortes por inundações, secas e deslizamentos.
A quase totalidade dos municípios brasileiros, 91% do total, sofreu com eventos extremos de desastres hídricos nas últimas três décadas e meia. Um levantamento minucioso cobrindo o período de 1991 a 2024 revela que apenas uma pequena parcela das cidades escapou de inundações, tempestades, deslizamentos de terra ou secas, que causaram 4.908 mortes e prejuízos econômicos estimados em US$ 123 bilhões. Este cenário, delineado por pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), escancara a urgência de políticas de prevenção e adaptação frente às mudanças climáticas.
Os pesquisadores analisaram cerca de 60 mil registros, segmentando os desastres em quatro categorias principais. As inundações se destacaram como os eventos mais frequentes, respondendo por 45% dos registros, 16% das mortes e 32% das perdas econômicas. No entanto, as secas, embora representem apenas 6% dos registros, foram a causa de 35% das mortes no período, demonstrando seu poder devastador, especialmente em regiões já cronicamente afetadas.
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⭐ Adicionar Revista AmazôniaImpacto Regional e Variações nos Desastres
A distribuição dos desastres e seus impactos variam significativamente entre as regiões brasileiras. O Nordeste lidera em número de municípios afetados por eventos extremos, totalizando 1.765 cidades, seguido de perto pelo Sudeste, com 1.405, e pelo Sul, com 1.152. As regiões Norte e Centro-Oeste registraram 433 e 342 municípios impactados, respectivamente.
O Sudeste concentrou o maior número de mortes relacionadas a inundações, alagamentos, enxurradas e deslizamentos de terra, evidenciando a vulnerabilidade de suas áreas metropolitanas e serranas. Exemplo disso são os casos de Nova Friburgo, com 432 mortes por inundações, e Petrópolis, com 108 óbitos por deslizamentos e 327 por tempestades. Em contraste, o Nordeste sofreu o maior prejuízo econômico devido às secas prolongadas, exemplificado pela cidade de Milagres, na Bahia, que registrou 64 mortes decorrentes da seca.
No Sul do país, as inundações e mortes por tempestades se destacam, com Rio do Sul, em Santa Catarina, enfrentando o maior prejuízo econômico por inundações, na cifra de R$ 11,4 milhões. Maceió, em Alagoas, registrou o maior prejuízo por deslizamentos, atingindo aproximadamente R$ 14,4 milhões. O estudo revela que 1.814 cidades enfrentaram pelo menos três dos quatro tipos de desastres analisados, e 270 municípios experimentaram todos os tipos, sublinhando a complexidade e a multifacetagem da crise climática no Brasil.
Entenda o caso
O estudo, publicado na revista Environmental Research Letters, analisou 35 anos de dados sobre desastres hídricos no Brasil, de 1991 a 2024. Ele quantificou o número de municípios afetados, óbitos e prejuízos econômicos por inundações, secas, deslizamentos e tempestades. Os resultados apontam para uma exposição generalizada do país a esses eventos, com 91% dos municípios impactados.

A Negligência por Trás da Catástrofe
Os pesquisadores do Cemaden, USP e INPE não restringem a explicação para esses números alarmantes apenas às mudanças climáticas. Elton Vicente Escobar Silva, pesquisador do Cemaden e primeiro autor do estudo, apontou em depoimento à Agência FAPESP que a falta de preparo e prevenção por parte do poder público agrava significativamente os impactos. ‘Há exceções que os modelos climáticos não conseguem prever, mas, para a maioria dos eventos, órgãos nacionais como o Cemaden emitem alertas e o poder público é informado do que pode vir a acontecer. O problema é a negligência, a falta de estrutura e até ausência de atuação’, afirmou Silva.
Este alerta contextualiza eventos trágicos recentes, como as chuvas de fevereiro de 2023 em São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, e as inundações devastadoras no Rio Grande do Sul em maio de 2024. Segundo o Cemaden, a antecipação de alertas não é suficiente se não houver uma resposta coordenada e infraestrutura de prevenção adequada. A Amazônia, embora menos afetada em termos de número de municípios no ranking geral, enfrenta desafios singulares com as cheias dos rios, que impactam comunidades ribeirinhas e ecossistemas complexos, bem como longos períodos de estiagem que favorecem queimadas e dificultam o transporte fluvial. A recorrência desses eventos na região, que experimenta ciclos de seca e cheia cada vez mais extremos, demanda uma atenção crescente e políticas específicas de adaptação.
O estudo ressalta que a compreensão dos padrões regionais e a implementação de estratégias de mitigação e preparação são cruciais. A contínua pesquisa e o monitoramento são etapas importantes, mas a efetividade reside na tradução desses dados em ações concretas de proteção para a população e o ambiente. O próximo passo vital é que os dados detalhados deste estudo subsidiem planos emergenciais e de longo prazo em todas as instâncias governamentais, com foco em gestão de risco e engenharia preventiva.
Perguntas Frequentes
Quais são os desastres hídricos mais prevalentes no Brasil?
Inundações são os desastres hídricos mais frequentes, representando 45% dos registros, seguidas por tempestades, deslizamentos e secas.
Qual região brasileira sofreu mais mortes por secas?
O Nordeste do Brasil concentrou a maior parte das mortes relacionadas à seca, destacando a vulnerabilidade da região a esse tipo de evento.
O que causa o agravamento dos desastres hídricos no Brasil?
Além das mudanças climáticas, a negligência, a falta de estrutura e a ausência de atuação do poder público na prevenção e resposta a alertas são fatores cruciais que agravam os impactos dos desastres hídricos.
Com informações de ClimaInfo.
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