
Henry Walter Bates não veio de uma família de cientistas.
Nascido em Leicester, na Inglaterra, em 1825, deixou a escola aos 13 anos para trabalhar como aprendiz na atividade de fabricação de meias exercida por sua família.
Seu contato com a ciência começou como passatempo. Bates coletava insetos e tentava identificar as pequenas diferenças entre eles.
Em uma biblioteca, conheceu Alfred Russel Wallace. A amizade entre os dois mudaria a história da biologia.
Em 1848, Bates e Wallace partiram para a Amazônia.
A floresta como universidade
Os dois jovens não possuíam a estrutura de uma grande expedição patrocinada pelo Estado.
Pretendiam coletar animais, enviar exemplares para a Europa e financiar parte da viagem com a venda dos espécimes. Ao mesmo tempo, desejavam investigar uma questão que inquietava naturalistas daquele período: como surgiam as espécies?
Depois de algum tempo, seguiram caminhos separados.
Wallace retornaria à Inglaterra em 1852. Bates permaneceu na Amazônia durante 11 anos.
Viajou principalmente pelos rios, coletando insetos em diferentes ambientes e observando como as espécies mudavam de um lugar para outro.
Ele enfrentou malária, febre amarela, enchentes, chuvas intensas e correntes perigosas. A floresta que oferecia uma diversidade quase inesgotável também impunha um custo físico permanente.
A estranha semelhança entre borboletas
Entre os insetos observados por Bates estavam borboletas com padrões de cores muito semelhantes.
Algumas pertenciam a grupos evitados pelos predadores por serem desagradáveis ou tóxicas. Outras não apresentavam a mesma proteção química, mas possuíam aparência parecida.
A semelhança não parecia um detalhe decorativo.
Aves e outros predadores aprendiam a evitar determinados padrões. Uma borboleta palatável que se parecesse com uma espécie tóxica teria maior possibilidade de sobreviver e deixar descendentes.
Ao longo das gerações, a seleção natural poderia favorecer os indivíduos que reproduzissem melhor aquela aparência.
O fenômeno se tornaria conhecido como mimetismo batesiano.
A descoberta oferecia um exemplo observável de evolução. Não era necessário imaginar apenas transformações ocorridas em um passado remoto. As relações entre predadores e presas ajudavam a moldar os corpos dos animais.
As coleções dependiam de muitas pessoas
As histórias antigas frequentemente representam Bates caminhando sozinho por uma floresta desconhecida.
A realidade era muito mais coletiva.
Moradores das comunidades, indígenas, barqueiros, pescadores e coletores ajudavam a localizar espécies, navegar pelos rios e compreender os ambientes. Sem essas redes, seria impossível acumular a quantidade de exemplares necessária para comparar populações distantes.
O próprio Natural History Museum destaca que essas pessoas precisam ser lembradas na história da ciência.
Também havia uma dimensão comercial. Os insetos eram enviados para agentes e compradores europeus. O conhecimento científico se desenvolvia dentro de uma cadeia que transportava organismos da Amazônia para museus e coleções particulares.
Mais de 14 mil espécies em uma viagem
Quando retornou à Inglaterra, em 1859, Bates levou uma coleção extraordinária.
Ele havia reunido milhares de exemplares, representando aproximadamente 14.700 espécies. Uma parcela expressiva era considerada nova para a ciência europeia.
Em 1862, publicou o trabalho no qual apresentou sua explicação sobre o mimetismo.
A ideia tornou-se uma das demonstrações mais fortes da seleção natural no século XIX. Charles Darwin reconheceu a importância das observações feitas na Amazônia.
Bates também publicou um relato de viagem que ajudou a popularizar a imagem da floresta entre os leitores europeus.
A Amazônia havia funcionado como sua universidade. Em vez de salas de aula, havia margens de rios. Em vez de provas escritas, havia padrões repetidos em milhares de asas.
O detalhe que revelou uma regra da vida
Bates morreu em 1892.
Seu nome permanece associado a um fenômeno estudado em diferentes grupos de animais, não apenas em borboletas.
A força de sua descoberta está no contraste entre o tamanho do objeto e a dimensão da conclusão.
Ele observou pequenas diferenças de cores em insetos amazônicos e encontrou uma maneira de explicar como a pressão dos predadores poderia alterar populações inteiras.
As asas funcionavam como documentos.
Cada padrão preservava uma história de ataques evitados, indivíduos sobreviventes e características transmitidas.
Bates entrou na floresta procurando espécies.
Saiu dela com uma regra capaz de explicar por que alguns animais sobrevivem fingindo ser aquilo que não são.
Bicho-pau deposita ovos com estrutura idêntica a sementes para atrair formigas e proteger filhotes contra vespas
Um outro tipo de efeito borboleta: como borboletas coloridas e listradas com ilusões ópticas enganam os predadores
Borboleta-azul da Amazônia parece ter asas coloridas, mas microscopia revela que o azul nasce da estrutura das escamas e desaparece por baixoGostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














