
Embrapa transforma diversidade em política de Estado
A decisão tomada pelo Conselho de Administração da Embrapa marca uma inflexão institucional rara no setor público brasileiro. Ao aprovar sua Política de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI), a empresa deixa de tratar o tema como um conjunto de boas intenções ou iniciativas dispersas e passa a incorporá-lo ao núcleo de sua governança. A diversidade deixa de ser pauta acessória e se converte em diretriz permanente, com planejamento, indicadores, responsabilidades definidas e instâncias formais de acompanhamento.
A política, aprovada em 19 de dezembro, estabelece bases claras para o enfrentamento das desigualdades e da discriminação no ambiente de trabalho. Ao fazê-lo, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) institucionaliza compromissos que dialogam diretamente com o pilar social das práticas ASG e com políticas públicas federais voltadas à promoção de direitos e à valorização das pessoas. O gesto tem peso simbólico e prático: cria regras, mas também sinaliza que o cuidado com as relações humanas é parte indissociável da missão científica da instituição.
Da escuta ao diagnóstico: quando os dados revelam o problema
A política não nasce no vazio. Ela é resultado de um processo iniciado no começo de 2024, quando a Embrapa decidiu olhar para dentro e ouvir seus próprios trabalhadores. A primeira Pesquisa de Diversidade, Equidade e Inclusão da empresa reuniu a participação de 2.172 empregados e produziu um retrato incômodo, porém necessário. Quase metade dos respondentes afirmou já ter se sentido discriminada no ambiente de trabalho. Mais da metade disse ter presenciado situações semelhantes envolvendo colegas.
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Petrobras abre seleção recorde de R$ 270 milhões para culturaOs relatos apontaram fatores recorrentes: cargo, gênero, idade e raça aparecem como marcadores associados às experiências de exclusão. Esses números afastam qualquer leitura abstrata do tema. A desigualdade, ali, não é conceito acadêmico, mas vivência cotidiana. É sobre trajetórias interrompidas, silêncios forçados e oportunidades negadas. Transformar esse diagnóstico em política institucional foi a forma encontrada para romper com a lógica da improvisação e enfrentar o problema de maneira estruturada.
A condução desse processo esteve a cargo de um grupo de trabalho plural, formado por 21 pessoas de diferentes unidades, cargos e perfis sociais, incluindo mulheres, pessoas negras, pessoas com deficiência e integrantes da população LGBTQIAPN+. O texto percorreu instâncias técnicas, jurídicas e de governança até chegar ao Conselho de Administração, consolidando um raro exercício de construção coletiva no setor público.

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Governança, continuidade e responsabilidade institucional
O coração da nova política é a criação da Comissão de Diversidade, Equidade e Inclusão. Será esse colegiado o responsável por transformar princípios em ações concretas. Caberá à comissão elaborar planos de ação, definir metas e indicadores, acompanhar resultados e articular áreas estratégicas como gestão de pessoas, ouvidoria, corregedoria e alta administração.
Ao integrar a DEI à estrutura formal de governança, a Embrapa garante algo fundamental: continuidade. Independentemente de mudanças de direção ou de conjuntura política, a política passa a existir como norma corporativa. Isso confere estabilidade, previsibilidade e respaldo institucional para avançar de forma consistente. Iniciativas que antes surgiam de maneira fragmentada — programas de acolhimento, capacitação de lideranças, estímulo à presença feminina em cargos de chefia — passam a operar dentro de uma lógica sistêmica.
Para a diretoria de Governança e Informação, a política reafirma o compromisso da empresa com um ambiente de trabalho respeitoso e seguro. Já a Diretoria de Administração destaca que a experiência acumulada colocou a Embrapa na linha de frente das estatais brasileiras que tratam diversidade como estratégia e não como retórica.
Inserção nacional e liderança no Pacto das Estatais
A política também posiciona a Embrapa como referência no cenário nacional. Em 2025, a empresa aderiu ao Pacto das Estatais pela Diversidade, Equidade e Inclusão, iniciativa coordenada pelo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos e pelo Ministério das Mulheres e da Igualdade Racial.
No âmbito do pacto, a Embrapa assumiu papel de liderança ao coordenar a Ação 1, dedicada ao diagnóstico do perfil de diversidade nas estatais. Essa atuação ocorreu em parceria com a BB Tecnologia e Serviços e a Autoridade Portuária de Santos, e resultou na elaboração de um manual orientador e de um instrumento de coleta de dados que vem sendo compartilhado com outras empresas públicas.
O reconhecimento não vem apenas da formalização da política, mas da rapidez e consistência com que a empresa avançou nas etapas iniciais do pacto. Agora, o desafio é aprofundar o trabalho: refinar indicadores, monitorar impactos e garantir que a política produza mudanças reais na cultura organizacional.
Ao transformar diversidade em política institucional, a Embrapa sinaliza que inovação não se limita ao laboratório ou ao campo experimental. Ela também acontece na forma como as pessoas são tratadas, ouvidas e valorizadas. Em um país marcado por desigualdades históricas, essa escolha diz muito sobre o tipo de futuro que a ciência pública brasileira pretende ajudar a construir.
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