
A Amazônia ainda guarda milhares de espécies que a ciência não conhece. Mas algumas das que estão sendo descobertas agora chegam aos livros com um aviso: já correm risco de desaparecer. É o paradoxo de uma floresta em que o ritmo da destruição em certos pontos é mais rápido que o da pesquisa.
O peixinho laranja do Amapá
Um dos casos mais recentes é o do Laimosemion laranja, um peixe de menos de três centímetros descrito em agosto de 2026 na revista científica Zoosystematics and Evolution. O maior macho medido tinha 2,78 centímetros. Os machos têm manchas e faixas laranja, e o nome faz referência à cor e ao município de Laranjal do Jari, no sul do Amapá, onde a espécie foi encontrada.
O peixe vive em poças rasas, de meio metro a um metro de profundidade, perto de igarapés em áreas de floresta da região do rio Cajari. Só é conhecido em três localidades. A área de ocorrência estimada é de 25 quilômetros quadrados.
Com base nisso, os pesquisadores, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, da Universidade Federal do Pará, do Instituto Peixe das Nuvens e da Universidade do Oeste da Flórida, propuseram classificá-lo como em perigo de extinção. Segundo o biólogo Yuri Abrantes, da UFRN, a equipe viu nas áreas de coleta árvores queimadas, floresta derrubada, água avermelhada com sedimentos num ponto de garimpo e poluição por plástico. A Revista Amazônia contou a descoberta em detalhes em Peixe de 2,7 cm é encontrado em poças do Amapá.
A árvore de frutos com chifres
Na botânica, o exemplo é a Tovomita cornuta, uma árvore de pequeno porte descrita na revista científica Acta Botanica Brasilica por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o Inpa, e da Universidade Federal do Maranhão. O nome cornuta, que quer dizer com chifres em latim, vem das pequenas saliências em forma de chifre nos frutos.
A espécie vive nas campinaranas do nordeste do estado do Amazonas, florestas sobre solos de areia pobres em nutrientes. As campinaranas cobrem cerca de 7% da Amazônia Legal e ainda são pouco estudadas. Segundo o pesquisador Layon Oreste Demarchi, um dos autores, a avaliação feita junto com a descrição já indicou que a árvore está ameaçada de extinção. As ameaças são a expansão urbana sem planejamento, o desmatamento e a extração de areia para a construção civil.
Para Demarchi, a descoberta mostra a importância do trabalho de campo intensivo, a única forma de conhecer de verdade a flora da região.
Por que já nascem ameaçadas
Espécies com distribuição muito pequena, como as que vivem em poucas poças ou em manchas de um tipo raro de floresta, são especialmente frágeis. Basta um garimpo, uma estrada ou um bairro novo para destruir boa parte do habitat. Quando a ciência finalmente chega a elas, a pressão já está instalada.
Descrever a espécie é o primeiro passo para protegê-la. Sem nome científico, um animal ou uma planta não entra nas listas oficiais de ameaçadas nem nos planos de conservação. No caso do peixe do Amapá, os pesquisadores recomendam novos levantamentos dentro e fora da Reserva Extrativista do Rio Cajari e sugerem que os dados sejam usados no plano nacional para os peixes rivulídeos ameaçados, coordenado pelo ICMBio.
Uma lista que cresce
O Brasil reconhece hoje 1.279 espécies da fauna ameaçadas de extinção, segundo a lista oficial atualizada em 2026. Cada nova espécie descrita com distribuição restrita na Amazônia é uma candidata a essa lista, e um lembrete de quanto ainda se perde sem saber.
Perguntas frequentes
Ainda se descobrem espécies novas na Amazônia?
Sim, todos os anos, de peixes e sapos a árvores e insetos. Muitas vivem em áreas muito pequenas.
Por que uma espécie nova já é considerada ameaçada?
Porque ocupa uma área pequena que já sofre com garimpo, desmatamento, cidades ou mineração de areia.
Com informações da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e do Inpa.
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