
Continente aquece duas vezes mais rápido que a média global e arquitetura antiga não suporta as novas temperaturas.
A Europa registra nesta semana sua terceira onda de calor severa do ano, com temperaturas até 10°C acima da média histórica em países como Espanha, Portugal, França e Reino Unido. Desde 21 de junho, mais de 1.300 mortes relacionadas ao calor extremo foram confirmadas no continente, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, alertou em 28 de junho que 150 milhões de pessoas vivem sob calor extremo, escolas fecharam e redes elétricas entraram em colapso.
O problema, segundo especialistas, não está apenas no clima. A infraestrutura urbana da Europa não foi projetada para suportar as temperaturas atuais. Apenas 20% das residências europeias têm ar-condicionado, contra quase 90% nos Estados Unidos. “Casas, locais de trabalho e escolas europeias não foram construídas para essas temperaturas”, afirmou Tedros.
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Joanna Lombard, professora da Escola de Arquitetura da Universidade de Miami e membro fundadora da equipe Ambiente Construído, Comportamento e Saúde, explica que a baixa adoção de climatização na Europa está ligada a fatores históricos e climáticos. “No norte da Europa, assim como no norte dos EUA, as construções foram feitas para manter as pessoas aquecidas. O clima era mais frio e o aquecimento era a prioridade. O ar-condicionado não era considerado essencial para a vida”, disse.
Lombard lembra que antes dos anos 1960 a maioria das casas no sul da Flórida também não tinha ar-condicionado. No sul da Europa, a arquitetura evoluiu para lidar com o calor de outras formas: orientação para brisas, persianas duplas para bloquear o sol e aproveitamento do resfriamento evaporativo, favorecido pela umidade mais baixa que no sul dos Estados Unidos.
“A maior parte do sul da Europa está na mesma latitude do norte dos EUA. Então, novamente, o aquecimento era necessário com mais frequência do que o resfriamento”, completou a arquiteta.
Europa aquece duas vezes mais rápido que a média global
A situação mudou drasticamente nas últimas décadas. A Europa está aquecendo duas vezes mais rápido que a média global, segundo pesquisadores que apontam emissões antropogênicas, mudanças na circulação atmosférica e proximidade do Ártico em rápido aquecimento como principais fatores.
As ondas de calor que antes eram raras tornaram-se recorrentes. Em 2003, uma onda de calor devastadora matou milhares de europeus. Em Chicago, nos EUA, uma onda de calor em 1995 resultou em mais de 730 mortes relacionadas ao calor em cinco dias. Esses eventos levaram ao movimento de “telhados frescos” em cidades americanas, com telhados pintados de branco, e programas governamentais para distribuir unidades de ar-condicionado em comunidades vulneráveis.
Edifícios antigos difíceis de adaptar
“Agora, a carga atual de calor e umidade ultrapassa as capacidades adaptativas dos edifícios, e o que era uma rara onda de calor é um fenômeno menos raro. O calor do verão comum está aumentando”, disse Lombard. “Então, acho que atitudes baseadas em uma realidade histórica anterior vão mudar diante das condições atuais. E a arquitetura precisará se adaptar.”
Enquanto prédios novos já são projetados para ar-condicionado, adaptar edifícios antigos é mais difícil. “Pode ser por isso que muitas cidades do norte dos EUA têm prédios antigos onde o modo dominante de ar-condicionado são unidades de janela”, explicou a professora. “Mas qualquer que seja o modo de reduzir cargas de calor e fornecer resfriamento em cidades e dentro de edifícios, a necessidade de adaptação é cada vez mais urgente.”
Entenda o problema urbano do calor
Lombard alertou que instalar ar-condicionado em residências não resolve o problema urbano. “Embora unidades de ar-condicionado possam resfriar cômodos, elas não vão resfriar as cidades”, disse. “Todas as questões de calor urbano ainda precisam ser abordadas.” Ilhas de calor urbanas, causadas por asfalto, concreto e falta de vegetação, intensificam o problema e demandam soluções de planejamento urbano em larga escala.
Lições para a Amazônia
A crise europeia oferece lições para cidades amazônicas que também enfrentam calor extremo crescente. Estados como Pará, Amazonas e Acre registram recordes de temperatura e períodos de seca prolongados. A adaptação da arquitetura e do planejamento urbano, com priorização de ventilação natural, sombreamento e áreas verdes, torna-se imperativa para reduzir mortes relacionadas ao calor.
A OMS deve divulgar novas diretrizes para adaptação de infraestrutura urbana ao calor extremo até o final de 2026, incluindo recomendações específicas para países tropicais e subtropicais.
Perguntas frequentes
Por que a Europa tem tão poucos aparelhos de ar-condicionado?
Historicamente, o clima europeu era mais frio e os edifícios foram projetados para aquecer, não para resfriar. A arquitetura tradicional usava soluções passivas como persianas e orientação para brisas. Antes das últimas décadas, ar-condicionado não era visto como essencial.
Quantas mortes já foram registradas por calor na Europa em 2026?
Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 1.300 mortes relacionadas ao calor extremo foram confirmadas na Europa desde 21 de junho de 2026.
A Europa está aquecendo mais rápido que outras regiões?
Sim. A Europa aquece duas vezes mais rápido que a média global, devido a emissões de gases de efeito estufa, mudanças na circulação atmosférica e proximidade do Ártico, que aquece rapidamente.
Com informações da Universidade de Miami.
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