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Expedição sobe a 1.500 metros no Amazonas, encontra 10 anfíbios possivelmente novos e separa dois mundos

Expedição sobe a 1.500 metros no Amazonas, encontra 10 anfíbios possivelmente novos e separa dois mundos
Foto: André Dib/Agência FAPESP

Pesquisa de 19 dias na Serra do Aracá revelou diferenças entre a mata nebular do platô e os bosques arenosos do Aracazinho.

Uma montanha pode esconder mais de um mundo biológico em poucos quilômetros. Foi o que uma equipe de 16 pesquisadores encontrou ao investigar a Serra do Aracá, no norte do Amazonas, entre 24 de agosto e 11 de setembro de 2026. Em 19 dias, o grupo coletou 18 espécies de anfíbios, dez consideradas possíveis novidades para a ciência, além de plantas, pequenos mamíferos, parasitas, amostras de água e solo.

A expedição percorreu um platô com altitudes entre 1.260 e 1.500 metros e uma formação vizinha, batizada pelos cientistas de Aracazinho, a 850 metros. A proximidade entre os locais não significou paisagens iguais. O relevo, a quantidade de solo, a umidade e a altitude criaram ambientes capazes de reunir comunidades de animais e plantas diferentes.

Do riacho vermelho à mata coberta de neblina

No topo da Serra do Aracá, os pesquisadores montaram o acampamento principal sobre um tepui, formação de topo relativamente plano comum no Escudo das Guianas. A área fica a 220 quilômetros de Barcelos, no Amazonas, e tem aproximadamente 210 quilômetros quadrados.

O alvo mais cobiçado era uma mata nebular, floresta úmida de altitude constantemente envolvida por nuvens baixas ou neblina. O acesso exigiu duas tentativas frustradas de abertura de trilha, bloqueadas por paredões e pelo terreno de arenito. Um drone ajudou a equipe a mapear o relevo e encontrar uma rota até um desfiladeiro, por quase dois quilômetros de trechos alagados e lamacentos.

À noite, os herpetólogos se aproximavam dos riachos para localizar sapos, rãs e pererecas pelo canto. Em um desses cursos d’água, a decomposição de matéria orgânica tingia a água de vermelho. O professor Taran Grant, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, descreveu a paisagem como distinta da Amazônia das terras baixas e mais próxima, em certos aspectos, dos Andes.

“A quantidade de musgo sobre as pedras, o riacho e a fauna não têm nada a ver com a Amazônia lá embaixo”, afirmou Grant, segundo relato da Agência FAPESP.

O Aracazinho mistura espécies de altitude e planície

Depois de uma semana no platô, parte da equipe voou por sete minutos em um helicóptero Black Hawk do Exército Brasileiro até o acampamento secundário. O Aracazinho fica cerca de 25 quilômetros a sudeste do campo-base e ocupa uma montanha isolada de aproximadamente dez quilômetros quadrados.

A mudança de cenário foi imediata. No platô principal, predominavam rochas expostas e plantas adaptadas a crescer sobre o arenito. No Aracazinho, o solo era mais arenoso, profundo e com pouca pedra aparente. A campinarana, vegetação associada a solos arenosos da Bacia Amazônica, cercava uma área aberta e alagada próxima ao ponto de pouso.

Essa diferença também apareceu na composição da vida. No Aracazinho, os pesquisadores registraram anfíbios associados a ambientes de altitude, como os do gênero Myersiohyla, e pererecas típicas das áreas baixas, incluindo Osteocephalus. Para Antoine Fouquet, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França e da Universidade de Toulouse, a montanha mais baixa funciona como uma zona de encontro entre comunidades que normalmente ocupam faixas diferentes.

“O fato de essa montanha ser um pouco mais baixa faz com que haja uma mistura de comunidades, com gêneros típicos da Amazônia e outros próprios do Pantepui”, explicou Fouquet.

Dez anfíbios podem representar espécies ainda não descritas

Segundo a FAPESP, a expedição coletou 18 espécies de anfíbios na Serra do Aracá e no Aracazinho, em setembro de 2026, das quais dez foram classificadas preliminarmente como possíveis novidades científicas. A confirmação depende de análises posteriores, incluindo comparação anatômica, genética e revisão das coleções existentes.

Expedição sobe a 1.500 metros no Amazonas, encontra 10 anfíbios possivelmente novos e separa dois mundos
Foto: André Dib/Agência FAPESP

O mesmo cuidado vale para a flora. A botânica Vania Nobuko Yoshikawa, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, encontrou no Aracazinho famílias que não haviam aparecido no topo do platô, entre elas Apocynaceae e Ericaceae. Duas espécies de Apocynaceae foram coletadas como inéditas no levantamento, mas a validação formal ainda depende do trabalho dos especialistas.

Pequenos mamíferos também indicaram uma possível separação entre as comunidades dos dois acampamentos. O pesquisador Alexandre Percequillo, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, observou que alguns roedores capturados no Aracazinho talvez não correspondam às espécies encontradas no platô.

Como funciona o laboratório instalado na montanha

O material não era simplesmente retirado da floresta e levado embora. Cada animal passava por uma rotina de identificação e documentação no laboratório montado no acampamento principal. Primeiro, recebia um registro com nome preliminar, data, local, hábitat, horário da captura e indicação sobre fotografias ou gravações feitas em campo.

Depois, o exemplar ganhava uma etiqueta com número de série, que vinculava o animal às informações da coleta. Enquanto ainda estava vivo, era fotografado sob luz natural para preservar detalhes de cor e forma. Só então seguia para a fixação em formol e a conservação em etanol.

O procedimento é importante porque a aparência muda depois da preservação. Tons amarelos podem desaparecer e os marrons tendem a ficar mais acinzentados. Para uma espécie que ainda precisa ser comparada com outras, perder essas características pode dificultar a identificação.

Por que o resultado importa para o Amazonas

A Serra do Aracá mostra que a biodiversidade amazônica não está distribuída apenas entre floresta de terra firme, rios e áreas alagáveis. No próprio Amazonas, a variação de altitude cria refúgios com clima, solo e espécies particulares. O estudo também reforça a ligação do estado com o Pantepui, conjunto de montanhas que se estende pelo sul da Venezuela, norte do Brasil e oeste da Guiana.

Para quem vive na região, esse tipo de levantamento ajuda a transformar lugares pouco conhecidos em áreas documentadas antes de decisões sobre conservação, pesquisa e uso do território. Amostras de água, solo e parasitas ainda serão analisadas para avaliar aspectos da saúde ambiental, ampliando o estudo para além da descoberta de animais e plantas.

A logística, porém, impôs limites. A falta de chuva reduziu a atividade de anfíbios e répteis durante boa parte da expedição. No Aracazinho, uma tempestade com ventos de 38 quilômetros por hora alagou as barracas em 3 de setembro. A permanência da primeira equipe também foi encurtada após uma emergência médica na base principal, que exigiu o transporte de um oficial com suspeita de malária para Barcelos.

Agora, os exemplares, gravações, fotografias e amostras passam por análises em laboratório. É essa etapa que poderá confirmar quais organismos são realmente novos para a ciência e quais já foram descritos em outras regiões. Com informações de FAPESP.

O que você precisa saber sobre a pesquisa

Onde a expedição aconteceu?

Na Serra do Aracá, no município de Barcelos, norte do Amazonas, incluindo o platô principal e a montanha vizinha chamada pelos pesquisadores de Aracazinho.

Quantas espécies podem ser novas?

Entre os anfíbios coletados, dez das 18 espécies registradas foram consideradas possíveis novidades. A confirmação depende de estudos posteriores.

Quando os resultados definitivos devem aparecer?

O material ainda precisa ser analisado e comparado com coleções científicas. A confirmação ocorrerá conforme os pesquisadores concluírem as etapas de identificação.

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