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Exploração madeireira ilegal cai em Rondônia, mas pressiona áreas protegidas

Sede da empresa Mil Madeira em Itacoatiara, Amazonas, Brasil. Novembro de 2021. - IMAFLORA
Sede da empresa Mil Madeira em Itacoatiara, Amazonas, Brasil. Novembro de 2021. - IMAFLORA

Rondônia avança na legalidade, mas o alerta permanece aceso

O mais recente monitoramento da exploração madeireira em Rondônia revela um cenário ambivalente. De um lado, há sinais claros de avanço na regularização da atividade florestal: a parcela de exploração não autorizada caiu para 21%, o menor patamar já registrado no estado pelo Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira. De outro, quase metade dessa ilegalidade ainda ocorre dentro de áreas protegidas, como Terras Indígenas e Unidades de Conservação, o que mantém o sinal de alerta ligado.

Os dados são da Rede Simex, iniciativa que utiliza imagens de satélite para mapear a exploração madeireira na Amazônia e diferenciar atividades licenciadas de práticas predatórias. No ciclo mais recente analisado, foram mapeados 26.262 hectares de exploração madeireira em Rondônia, um crescimento de 16% em relação ao período anterior. A expansão da área explorada, no entanto, veio acompanhada de uma melhora no perfil da legalidade: 79% do total identificado possuía autorização formal, enquanto 21% foi classificado como irregular.

Esse movimento indica que o manejo florestal sustentável vem ganhando espaço, mas também evidencia que a exploração ilegal ainda encontra brechas, sobretudo em territórios onde a presença do Estado é mais frágil e os conflitos fundiários são históricos.

Quando a ilegalidade avança sobre territórios protegidos

Mesmo representando uma fatia menor do total, a exploração madeireira não autorizada chama atenção por sua localização. Do volume ilegal registrado, 26% ocorreu em Unidades de Conservação e 23% em Terras Indígenas, áreas que deveriam estar entre as mais protegidas da Amazônia. O restante se distribui entre imóveis rurais cadastrados, terras não destinadas e assentamentos rurais.

Entre os territórios mais afetados, a Terra Indígena Kaxarari concentra quase metade de toda a exploração ilegal registrada no estado. Em seguida aparecem a Floresta Nacional de Jacundá, a Estação Ecológica Samuel e a Reserva Extrativista Jaci-Paraná. A presença de exploração madeireira irregular nesses espaços não apenas ameaça a integridade ambiental, mas também coloca em risco modos de vida, direitos territoriais e a biodiversidade associada a essas áreas.

Para especialistas envolvidos no monitoramento, o dado reforça a importância de respostas rápidas e direcionadas. O valor do Simex não está apenas em quantificar hectares, mas em revelar padrões espaciais da ilegalidade. Ao mostrar onde ela se concentra, o sistema oferece subsídios concretos para ações de fiscalização, revisão de autorizações locais e prevenção de danos maiores, como a conversão da exploração seletiva em desmatamento aberto.

Foto: Ibama
Foto: Ibama

SAIBA MAIS: Em Rondônia, fiscalização rígida do Ibama é vital para conter avanço do desmatamento

Poucos municípios concentram a maior parte do problema

Outro aspecto revelador do levantamento é a forte concentração territorial da exploração ilegal. Toda a área não autorizada identificada no ciclo recente ocorreu em apenas sete municípios rondonienses. Mais do que isso: 85% da ilegalidade está concentrada em apenas três deles.

Porto Velho lidera com folga, respondendo por mais da metade da exploração madeireira irregular registrada no estado. Em seguida aparecem Candeias do Jamari e Pimenteiras do Oeste. Essa concentração reforça a ideia de que políticas de comando e controle podem ser mais eficazes quando orientadas por inteligência territorial, direcionando esforços para os focos mais críticos.

Apesar do alerta, há um dado positivo relevante: a área não autorizada caiu 35% em relação ao ciclo anterior, quando representava 37% do total explorado. A redução sugere avanços nos mecanismos de controle, maior adesão ao manejo florestal licenciado e possível efeito dissuasório do monitoramento por satélite, que torna a atividade ilegal mais visível e rastreável.

Ainda assim, o aumento da área total explorada exige cautela. Sem fiscalização contínua e transparência, o crescimento do setor madeireiro pode pressionar novamente os limites da legalidade.

O papel do Simex e o desafio de proteger a floresta em pé

Criado em 2008, o Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira nasceu com o objetivo de preencher uma lacuna histórica no controle da atividade florestal: enquanto o desmatamento vinha sendo amplamente monitorado, a exploração seletiva de madeira permanecia menos visível. Em 2020, a criação da Rede Simex ampliou esse esforço, reunindo instituições com reconhecida atuação na Amazônia.

Integram a Rede Simex o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) e o Instituto Centro de Vida (ICV). Juntas, essas organizações expandiram o monitoramento por satélite e fortaleceram a capacidade de análise sobre a conformidade do manejo florestal sustentável.

Para o Imaflora, os dados de Rondônia ilustram um dilema recorrente na Amazônia: é possível avançar na legalidade, mas isso não elimina automaticamente os riscos. A presença de exploração ilegal em áreas protegidas indica fragilidades na governança territorial e na proteção de povos indígenas e unidades de conservação.

O desafio agora é transformar informação em ação. Monitoramento, por si só, não protege a floresta. Ele precisa estar conectado a políticas públicas eficazes, fiscalização consistente, responsabilização de infratores e fortalecimento de cadeias produtivas responsáveis. Só assim a redução da ilegalidade poderá se consolidar e o manejo florestal sustentável se afirmar como alternativa real à degradação predatória.

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