
Pesquisas da USP mostram como a anatomia amplia a história evolutiva que o DNA sozinho não consegue registrar.
Uma abelha extinta, preservada em fósseis do Hemisfério Norte, pode ocupar um lugar decisivo na árvore evolutiva das espécies sem ferrão. A conclusão surgiu de dois estudos conduzidos por pesquisadores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, publicados em 19 de agosto de 2026. As pesquisas compararam centenas de características anatômicas de abelhas atuais e fósseis para reconstruir relações de parentesco que o DNA, sozinho, não consegue explicar.
O trabalho coordenado pelo professor Eduardo Almeida utiliza a chamada fenômica, estudo sistemático do conjunto de características observáveis de um organismo. A proposta não substitui o sequenciamento genético, mas procura responder a uma pergunta diferente: além de saber quais espécies são parentes, como as estruturas de seus corpos mudaram ao longo de milhões de anos?
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Dois estudos, duas escalas da evolução
As pesquisas analisaram grupos de tamanhos diferentes. Um dos estudos examinou aproximadamente 650 espécies de abelhas sem ferrão, reunidas na tribo Meliponini e distribuídas principalmente em regiões tropicais. O outro ampliou a observação para o conjunto das abelhas, que reúne cerca de 21 mil espécies conhecidas no planeta.
Na investigação sobre as abelhas sem ferrão, os pesquisadores construíram uma matriz com 375 caracteres morfológicos. Foram incluídas espécies de todos os gêneros e subgêneros conhecidos da tribo, além de fósseis relevantes. O estudo mais abrangente utilizou 394 caracteres, dos quais 11% são considerados totalmente novos e 68% foram reinterpretados pela equipe.
A anatomia externa correspondeu a 73% dos dados do estudo amplo, enquanto a anatomia interna representou 27%. A diferença de escala permitiu que os trabalhos cumprissem funções complementares. Um identificou detalhes entre linhagens próximas; o outro procurou padrões gerais entre as principais famílias e ramos evolutivos das abelhas.
Entenda o caso
A fenômica transforma características anatômicas em dados comparáveis, como ocorre com sequências de DNA. Formato, presença ou ausência de estruturas, articulações e elementos internos podem ser codificados em matrizes e analisados em árvores filogenéticas.
Esse método permite incluir fósseis nas comparações, mesmo quando não há material genético disponível. A vantagem é importante para grupos antigos, porque estruturas preservadas em âmbar ou em outros materiais podem manter sinais de combinações anatômicas que desapareceram nas espécies atuais.
O fóssil que reabre uma controvérsia
O resultado mais expressivo foi a sustentação da tribo extinta Melikertini como grupo-irmão das abelhas sem ferrão atuais. Em biologia evolutiva, isso significa que os dois grupos compartilham um ancestral comum mais recente entre si do que com outras linhagens analisadas.
Conhecidas apenas por fósseis encontrados no Hemisfério Norte, as Melikertini apresentam combinações de características anatômicas ausentes nas abelhas vivas. Essas marcas ajudam a preencher uma etapa da história evolutiva do grupo, mas não significam que a tribo extinta seja ancestral direta de todas as espécies sem ferrão atuais. O resultado indica proximidade evolutiva, não uma linha simples de descendência.
A equipe também analisou Proplebeia dominicana, espécie fóssil da República Dominicana preservada em âmbar. Sua posição permaneceu estável nas diferentes análises, reforçando a importância do fóssil para compreender a diversificação das abelhas sem ferrão.
Segundo a Universidade de São Paulo, os estudos publicados em 19 de agosto de 2026 combinaram dados anatômicos externos e internos de abelhas atuais e fósseis para reconstruir relações filogenéticas em Ribeirão Preto.
Uma base construída ao longo de 15 anos
Os resultados não surgiram de uma coleta isolada. Há mais de 15 anos, o Laboratório de Biologia Comparada e Abelhas, coordenado por Almeida, reúne exemplares, observa estruturas e revisa informações para formar uma base morfológica em larga escala.
O projeto envolveu os pesquisadores Anderson Lepeco e Diego Sasso Porto, ambos orientados por Almeida em diferentes etapas da pós-graduação. Lepeco desenvolveu uma pesquisa de mestrado sobre a sistemática das abelhas sem ferrão entre 2022 e 2024. Porto estudou a diversidade mais ampla das abelhas durante o mestrado e o doutorado.
Parte essencial do trabalho veio da Coleção Entomológica Professor J. M. F. Camargo, mantida pela FFCLRP-USP. Criado na década de 1960 pelo pesquisador João Maria Franco de Camargo, o acervo reúne centenas de milhares de exemplares coletados ao longo de décadas.
Além do material da USP, foram consultados exemplares de museus e universidades do Brasil, Estados Unidos, Alemanha, Canadá e outros países. Expedições científicas a mais de dez países ampliaram a representação geográfica das linhagens, reduzindo o risco de que a árvore evolutiva fosse construída a partir de uma amostra limitada.
O que a descoberta muda para a Amazônia
A relevância do estudo ultrapassa a classificação de espécies. Abelhas sem ferrão têm papel importante na polinização de plantas nativas e cultivadas em áreas tropicais. Na Amazônia, os meliponíneos estão presentes em diferentes ambientes e fazem parte de relações ecológicas que envolvem árvores, cultivos, comunidades tradicionais e criação racional de abelhas.
Os pesquisadores não afirmam que a nova base de dados, por si só, resolva os desafios de conservação. Entretanto, uma classificação evolutiva mais consistente pode ajudar a identificar linhagens distintas, orientar levantamentos de biodiversidade e melhorar a interpretação de padrões de distribuição geográfica.
Também há limitações. As cerca de 21 mil espécies conhecidas não foram examinadas individualmente. A equipe selecionou representantes dos principais ramos da árvore evolutiva, uma estratégia necessária diante da escala do grupo, mas que deixa espaço para revisões quando novas espécies, fósseis ou características forem incorporados.
A matriz criada poderá ser usada em pesquisas futuras sobre evolução, classificação, comportamento social, adaptação, biogeografia e conservação. O próximo passo será ampliar a integração entre dados morfológicos, genéticos e ecológicos, especialmente em regiões megadiversas como a Amazônia.
Perguntas frequentes
O que é fenômica?
É o estudo sistemático das características observáveis de um organismo, incluindo estruturas externas e internas. Na evolução, esses dados podem ser comparados em matrizes para reconstruir relações de parentesco.
Por que analisar fósseis de abelhas?
Porque o DNA raramente permanece preservado por milhões de anos. A anatomia dos fósseis pode registrar combinações de características que desapareceram nas espécies atuais.
O estudo analisou todas as abelhas existentes?
Não. A pesquisa selecionou espécies representativas dos principais ramos evolutivos entre as cerca de 21 mil espécies conhecidas.
Com informações de Universidade de São Paulo.
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