Câmera escondida no Xingu flagra pela primeira vez filhotes de ariranha saindo da toca perto da usina de Belo Monte

Câmera escondida no Xingu flagra pela primeira vez filhotes de ariranha saindo da toca perto da usina de Belo Monte
Ariranhas (Pteronura brasiliensis) no Pantanal. Foto: Charles J. Sharp, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Câmeras camufladas instaladas às margens do rio Xingu, no Pará, registraram uma cena que os biólogos esperavam havia mais de uma década: duas ariranhas adultas se aproximando de uma toca, de onde saem dois filhotes e mais um adulto. Foi o primeiro registro de filhotes da espécie desde o início do monitoramento de mamíferos aquáticos na área de influência da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, em 2012.

Segundo a Norte Energia, concessionária da usina, o registro foi feito em 2025 e indica que o ambiente oferece condições para a reprodução da espécie.

Por que o flagrante é raro

A ariranha (Pteronura brasiliensis) é muito sensível à presença humana, sobretudo quando está criando filhotes. Barulho, barcos e movimentação perto das tocas podem fazer o grupo abandonar o local. Por isso, ver filhotes saindo da toca em imagens de vídeo é considerado um indicador de que a área está relativamente tranquila.

O programa de monitoramento de mamíferos aquáticos e semiaquáticos do Xingu faz parte do licenciamento ambiental da usina, acompanhado pelo Ibama. Segundo a concessionária, em 13 anos foram registrados 280 animais aquáticos e semiaquáticos, e o projeto foi selecionado para apresentação em um fórum de programas de fauna do licenciamento ambiental federal.

A onça-d’água

A ariranha é a maior lontra do mundo e pode chegar a cerca de 1,8 metro de comprimento, incluindo a cauda. É conhecida também como onça-d’água, lontra-gigante e lobo-do-rio. Vive em grupos familiares, que no Xingu reúnem de dois a dez indivíduos, e todos os adultos ajudam a criar os filhotes.

Come principalmente peixes e tem um repertório vocal complexo, com chamados diferentes para alerta, contato e brincadeira. Cada ariranha tem uma mancha clara no pescoço com formato único, que os pesquisadores usam para identificar os indivíduos, como uma impressão digital.

De quase extinta a vulnerável

No século 20, a caça para o comércio de peles derrubou as populações de ariranha em toda a América do Sul. Com a proibição da caça e do comércio, a espécie se recuperou em várias regiões, mas continua classificada como vulnerável no Brasil. Hoje as principais ameaças são a perda de habitat, a poluição dos rios, o garimpo e os conflitos com pescadores, que às vezes veem os animais como concorrentes.

O que o registro diz e o que não diz

A presença de filhotes mostra que há ariranhas se reproduzindo no trecho monitorado. Isso não encerra o debate sobre os impactos de Belo Monte sobre o Xingu, que incluem a redução da vazão em um trecho do rio e mudanças na pesca. Mas é uma informação importante sobre a fauna que vive no reservatório e nas áreas protegidas ao redor.

Perguntas frequentes

Ariranha é a mesma coisa que lontra?

São parentes, mas espécies diferentes. A ariranha é bem maior e vive em grupos. A lontra-neotropical é menor e mais solitária.

A ariranha é perigosa?

Ela evita pessoas, mas pode reagir com agressividade se o grupo ou a toca forem ameaçados. O ideal é observá-la de longe.

Com informações da Norte Energia e do Ibama.

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