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Florestas em regeneração barram espécies não nativas, diz USP

Florestas em regeneração barram espécies não nativas, diz USP
Foto: share.google

Estudo com dados de dez países mostra que a cobertura florestal reduz o domínio de árvores introduzidas durante a recuperação de áreas degradadas.

Florestas em regeneração reduzem naturalmente o domínio de espécies arbóreas não nativas durante a recuperação de áreas degradadas, segundo estudo liderado por uma pesquisadora associada à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP). Publicada em 12 de agosto de 2026 e baseada em 1.561 parcelas de dez países neotropicais, a pesquisa mostra que a cobertura florestal e a proximidade de remanescentes nativos podem limitar a expansão dessas árvores, embora não substituam políticas de monitoramento e controle de invasoras.

O que acontece quando a floresta volta a crescer

O trabalho investigou florestas secundárias, formadas quando áreas anteriormente desmatadas, cultivadas ou usadas para criação de gado são abandonadas e passam a se recuperar. Em determinadas condições, a retirada do fator de degradação permite que sementes, brotos e outros propágulos vindos da paisagem ao redor reiniciem o processo de sucessão ecológica.

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A questão central era saber se as espécies não nativas, introduzidas principalmente pela ação humana, manteriam o domínio durante essa recuperação. A resposta encontrada é mais complexa do que uma simples eliminação. Elas podem ser abundantes nos primeiros anos, mas tendem a perder espaço relativo à medida que a floresta nativa se estrutura.

Segundo a USP, o estudo analisou 58 cronossequências em Porto Rico, México, Costa Rica, Panamá, Venezuela, Guiana Francesa, Colômbia, Peru, Brasil e Bolívia. Esse método substitui o acompanhamento de uma mesma floresta por décadas pela comparação entre áreas de idades diferentes, permitindo reconstruir etapas do desenvolvimento da vegetação.

Entenda o caso

Foram registradas 3.735 espécies florestais, das quais 156, ou 4,2%, foram classificadas como não nativas em pelo menos um dos países avaliados. Essas espécies apareceram em 81% das cronossequências, com maior frequência nas florestas úmidas.

Nos primeiros 10 a 20 anos de regeneração, árvores não nativas representavam 28% dos caules e 22% das espécies nas florestas úmidas. Nas florestas secas, correspondiam a 9% dos caules e das espécies. Depois de 50 anos, a densidade relativa caiu para 5% nas áreas úmidas e 4% nas secas.

Presença não é o mesmo que invasão

O estudo diferencia espécies não nativas de espécies invasoras. Uma árvore introduzida pode estar fora de sua área natural de distribuição sem necessariamente provocar danos relevantes. O problema surge quando ela se espalha, compete com a vegetação local, altera o funcionamento do ecossistema ou dificulta a recuperação da floresta.

No Brasil, manga, eucalipto, jaca, jambo e coqueiro são exemplos de espécies presentes fora de sua distribuição natural em diferentes regiões. Muitas foram plantadas por razões alimentares, econômicas, culturais ou ornamentais. Em determinadas condições, porém, podem passar a se dispersar sem intervenção direta das pessoas.

A leucena, conhecida cientificamente como Leucaena leucocephala, é um dos casos mais preocupantes. Introduzida para finalidades como forragem e fixação de nitrogênio, a espécie se espalha rapidamente em alguns ambientes e pode impedir o estabelecimento de árvores nativas.

“A leucena foi trazida por ser uma espécie útil para certas finalidades, como forragem e fixação de nitrogênio. Hoje ela se espalha sozinha, ocupando rapidamente o espaço disponível e impedindo que muitas espécies nativas consigam se estabelecer. Por isso, já é muito difícil controlar sua expansão”, afirmou Angélica Resende, líder da pesquisa.

Amazônia depende da paisagem ao redor

Os resultados têm implicações diretas para a Amazônia, onde áreas abertas por pecuária, agricultura, estradas, mineração e ocupações urbanas formam mosaicos de diferentes estágios de regeneração. A recuperação de um fragmento não depende apenas do que ocorre dentro de seus limites, mas também da existência de florestas próximas capazes de fornecer sementes e propágulos.

Segundo a pesquisa, o aumento da cobertura florestal no entorno controlou a densidade e a riqueza de espécies não nativas. A proximidade de áreas agrícolas e o volume de precipitação também influenciaram os resultados. Em contrapartida, maior concentração de carbono orgânico no solo favoreceu a retenção dessas espécies, um dado que mostra como fatores ambientais podem produzir efeitos diferentes conforme o contexto.

Segundo a Universidade de São Paulo, espécies arbóreas não nativas perderam domínio relativo após décadas de regeneração em florestas secundárias neotropicais, com queda mais acentuada da densidade depois de 50 anos.

Na região amazônica, essa conclusão não deve ser interpretada como autorização para abandonar áreas degradadas à própria sorte. A floresta pode recuperar parte de sua estrutura, mas a velocidade e a qualidade do processo variam conforme o histórico de uso, a distância até remanescentes conservados, a presença de fogo e a pressão de espécies invasoras.

Regeneração natural não elimina o controle

A pesquisadora Angélica Resende destaca que espécies invasoras podem continuar presentes mesmo quando deixam de dominar a comunidade. Isso significa que a regeneração natural funciona como uma solução baseada na natureza, mas não como um mecanismo automático capaz de resolver todos os casos.

O controle também é uma questão de continuidade. A remoção pontual de uma invasora pode ser insuficiente se sementes permanecerem no solo ou se a paisagem ao redor continuar fornecendo novos indivíduos. Em locais sem fontes próximas de sementes nativas, a abertura deixada pela degradação pode ser ocupada novamente por espécies introduzidas.

Esse ponto revela uma lacuna frequente em programas de restauração: plantar árvores ou retirar uma espécie problemática não garante a consolidação da floresta. É necessário acompanhar a área por anos, proteger o solo, reduzir novas perturbações e conectar fragmentos isolados, especialmente em zonas de transição entre áreas rurais e florestais.

O estudo é o primeiro trabalho da rede 2ndFor liderado por uma pesquisadora vinculada a uma instituição brasileira e recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A próxima etapa para gestores e pesquisadores é transformar os resultados em estratégias locais de restauração, monitoramento e controle de invasoras nos diferentes biomas e estados da Amazônia.

Perguntas frequentes

O que são espécies não nativas?

São espécies que ocorrem fora de sua área natural de distribuição, geralmente após introdução direta ou indireta por atividades humanas. Nem todas causam impactos ecológicos.

Qual é a diferença entre espécie não nativa e invasora?

Uma espécie invasora é uma não nativa que consegue se espalhar e provocar impactos ambientais, econômicos ou sociais, como competir com espécies locais ou alterar o funcionamento do ecossistema.

A regeneração natural dispensa o plantio de árvores?

Não necessariamente. Ela pode ser suficiente em áreas com boas condições ambientais e fontes próximas de sementes, mas locais muito degradados ou isolados podem exigir plantio, controle de invasoras e acompanhamento prolongado.

Com informações da Universidade de São Paulo (USP).

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