
Dentes encontrados na Amazônia brasileira indicam que a linhagem dos muriquis já ocupou uma área muito maior.
Quatro dentes e um fragmento do osso do tarso, com cerca de 11 milhões de anos, revelaram duas espécies de primatas até então desconhecidas pela ciência no interior do Acre. Encontrados às margens do Alto Rio Juruá e da BR-364, os fósseis indicam que os antepassados dos muriquis, atualmente restritos à Mata Atlântica e ameaçados de extinção, viveram na Amazônia brasileira durante o Mioceno.
A descoberta foi descrita por uma equipe de pesquisadores brasileiros, franceses e argentinos em artigo publicado no Journal of Mammalian Evolution. Os animais receberam os nomes científicos Migmacebus juruaensis e Parabrachyteles vesperus. Mesmo reduzido, o conjunto fóssil mais do que dobra a diversidade conhecida de primatas do Mioceno na Amazônia brasileira.
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O fóssil mais importante para a história dos muriquis é o de Parabrachyteles vesperus. A espécie teria pesado aproximadamente seis quilos e apresentava características compatíveis com uma alimentação baseada em folhas e outros alimentos fibrosos, semelhante à dieta dos muriquis atuais.
Os muriquis são considerados os maiores macacos das Américas. As espécies viventes, conhecidas como muriqui-do-norte e muriqui-do-sul, sobrevivem em fragmentos da Mata Atlântica brasileira e enfrentam ameaças como perda de habitat, caça e isolamento das populações. Até agora, porém, não havia registro fóssil conhecido que ajudasse a contar a origem evolutiva desse grupo.
“A descoberta de um parente próximo dos muriquis na região do Acre, na Amazônia Ocidental, reformula drasticamente nossa compreensão da história evolutiva e biogeográfica do grupo, sugerindo que seus ancestrais já tiveram uma distribuição muito mais ampla do que se reconhecia anteriormente”, afirmou Laurent Marivaux, primeiro autor do estudo e pesquisador da Universidade de Montpellier.
Duas espécies com características incomuns
O segundo primata identificado, Migmacebus juruaensis, era bem menor. O animal provavelmente não ultrapassava um quilo e teria se alimentado principalmente de frutas e alimentos duros. Nesse aspecto, sua ecologia lembrava a de macacos-prego, macacos-de-cheiro e parauacus que vivem atualmente em diferentes áreas da América do Sul.
A análise dos fósseis foi feita com tomografia computadorizada de alta precisão e fotografias ópticas. O procedimento permitiu observar detalhes da anatomia dos dentes e comparar as peças com espécies atuais e fósseis de outros pontos do continente.
Segundo Annie Hsiou, coordenadora do Laboratório de Paleobiodiversidade Integrada da USP em Ribeirão Preto e coautora do artigo, o Migmacebus apresenta uma combinação inédita de características. “A diversidade dos platirrinos no Mioceno amazônico era maior do que se imaginava”, explicou a pesquisadora. Para ela, o fóssil mostra que a diversificação dos cebíneos, grupo que inclui macacos-prego e macacos-de-cheiro, foi mais complexa do que o registro conhecido indicava.
Entenda o caso
Os fósseis foram encontrados em quatro localidades associadas à Formação Solimões Superior. Três ficam às margens do Alto Rio Juruá, no município de Marechal Thaumaturgo. A quarta está no Morro do Careca, às margens da BR-364, entre Tarauacá e Feijó.
O material foi localizado principalmente por meio do peneiramento de sedimentos retirados das barrancas dos rios. As partículas maiores são examinadas ainda em campo. O sedimento mais fino segue para laboratórios, onde é triado com auxílio de lupas e estereomicroscópios.
O artigo científico, com modelos digitais em três dimensões dos fósseis, pode ser consultado na página das figuras do estudo sobre os primatas fósseis do Acre.
Por que fósseis são tão raros na Amazônia
O número de peças encontradas pode parecer pequeno, mas tem grande valor para a paleontologia. A floresta densa encobre os afloramentos e os rios alteram constantemente as barrancas. Além disso, o clima quente e úmido dificulta a preservação de restos orgânicos por milhões de anos.
“Em ambiente tropical cheio de vegetação como a região amazônica e permeado por rios, é muito difícil a preservação”, explicou Ana Maria Ribeiro, curadora da Seção de Paleontologia do Museu de Ciências Naturais do Rio Grande do Sul. Segundo ela, a quantidade de fósseis amazônicos é pequena quando comparada à de regiões abertas, como a Patagônia, onde as barrancas ficam mais expostas.
Annie Hsiou participou de expedições que percorrem a região há cerca de 15 anos. A pesquisadora relata que muitos afloramentos só aparecem durante a estação seca, quando o nível dos rios baixa. O acesso também exige resistência física, devido ao calor, às temperaturas extremas e às dificuldades de deslocamento em áreas remotas da Amazônia.
O que a descoberta muda
Segundo a Universidade de São Paulo, os fósseis encontrados no Acre em 2026 mostram que os primatas do Mioceno amazônico eram mais diversos e geograficamente distribuídos do que os registros anteriores permitiam supor.
A presença de um parente dos muriquis na Amazônia Ocidental levanta novas questões sobre a dispersão dos primatas pela América do Sul. Os pesquisadores ainda precisam investigar quando essas linhagens se originaram, por quais caminhos se espalharam e como as mudanças ambientais influenciaram sua evolução.
Marivaux destacou que cada fóssil responde a algumas perguntas, mas também abre outras. A expectativa da equipe é que novas campanhas de campo em áreas do Acre e de outros estados amazônicos ampliem o registro paleontológico da região.
As próximas expedições e a análise de novos sedimentos devem definir se os dois fósseis representam apenas espécies isoladas ou parte de uma diversidade ainda maior de primatas que viveu na proto-Amazônia.
Perguntas frequentes
O que os fósseis encontrados no Acre revelam?
Eles revelam duas novas espécies de primatas que viveram há cerca de 11 milhões de anos e indicam uma diversidade maior de macacos na Amazônia durante o Mioceno.
Qual das espécies é relacionada aos muriquis?
Parabrachyteles vesperus é a espécie considerada próxima da linhagem dos muriquis, os maiores macacos das Américas.
Onde os fósseis foram encontrados?
As peças vieram de quatro localidades da Formação Solimões Superior, no Alto Rio Juruá e às margens da BR-364, no Acre.
Com informações da Universidade de São Paulo.
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