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Fóssil de cobra de 80 milhões de anos no Brasil revela que as primeiras serpentes ocupavam habitats distintos

Fóssil de cobra de 80 milhões de anos no Brasil revela que as primeiras serpentes ocupavam habitats distintos
Foto: discovermagazine.com

Crânio preservado indica que uma das serpentes mais antigas escavava o solo, enquanto outra vivia na superfície.

Um fóssil de cobra com cerca de 80 milhões de anos, encontrado no estado de São Paulo, trouxe novas pistas sobre uma das principais dúvidas da evolução das serpentes: por que esses animais perderam as patas e passaram a se deslocar rastejando. A espécie, chamada Tametara mirim, está excepcionalmente preservada, com os ossos ainda conectados, e apresenta um crânio denso que indica uma vida subterrânea. O estudo foi publicado em 2026 na revista Nature.

A descoberta é importante porque os fósseis das primeiras serpentes são extremamente raros. Segundo os pesquisadores, menos de dez esqueletos articulados de serpentes mesozoicas eram conhecidos antes da análise. O novo exemplar brasileiro permite observar não apenas o formato dos ossos, mas também detalhes internos do crânio e da cavidade cerebral.

Um crânio preparado para escavar

A cena preservada na rocha é incomum. Em vez de ossos espalhados pelo sedimento, o animal ficou registrado com o esqueleto em sua posição original. Essa condição ajudou a equipe a analisar a anatomia de Tametara mirim com um nível de detalhe raro para uma serpente tão antiga.

O crânio tinha ossos espessos e compactos, características associadas a répteis que escavam o solo com a cabeça. Esse tipo de estrutura oferece resistência ao impacto e ajuda o animal a avançar em ambientes subterrâneos. O formato alongado do crânio também reforça a interpretação de que a espécie era adaptada para uma vida fossorial, termo usado pelos cientistas para animais que vivem ou se movimentam sob a terra.

Os pesquisadores usaram microtomografia computadorizada para reconstruir a cavidade cerebral sem destruir o fóssil. A análise revelou estruturas visuais e regiões do cérebro reduzidas. Essa combinação sugere que Tametara mirim dependia menos da visão e estava mais adaptada à escuridão de túneis e tocas.

Entenda o caso

As serpentes surgiram entre o Jurássico Médio, há aproximadamente 174 milhões a 161 milhões de anos. A origem do grupo, porém, continua cercada por incertezas porque os registros fósseis mais antigos são poucos e fragmentados.

Durante décadas, diferentes hipóteses tentaram explicar o início da evolução das serpentes. Algumas apontavam para uma origem subterrânea. Outras defendiam que os primeiros animais viviam na superfície ou em ambientes aquáticos. O fóssil brasileiro agora indica que a história pode ter sido mais diversificada desde o começo.

Comparação com uma serpente da Argentina

Para interpretar o novo fóssil, os cientistas compararam Tametara mirim com Dinilysia, uma serpente antiga encontrada na Argentina. Embora as duas espécies tenham vivido durante a Era Mesozoica, seus crânios mostram diferenças importantes.

Dinilysia apresentava ossos menos compactos, crânio relativamente mais curto e uma anatomia cerebral compatível com um animal que se deslocava sobre o solo. A comparação sugere que essa serpente ocupava um ambiente superficial, ao contrário de Tametara mirim, que provavelmente passava boa parte da vida dentro de galerias.

Segundo estudo publicado na Nature, Tametara mirim viveu há cerca de 80 milhões de anos no atual estado de São Paulo, Brasil. A espécie pertence a um período do Cretáceo Superior, quando a América do Sul abrigava uma fauna de répteis muito diferente da atual.

A origem das serpentes pode não ter seguido um único caminho

A principal conclusão do trabalho é que a evolução das serpentes provavelmente não foi uma sequência linear, na qual um único grupo teria abandonado as patas para viver no subsolo e, depois, ocupado outros ambientes. Os dados indicam que diferentes linhagens antigas desenvolveram adaptações próprias.

Algumas serpentes do Cretáceo Superior teriam sido escavadoras. Outras viveriam no chão, entre a vegetação e o sedimento. Também existiam linhagens marinhas, como as relacionadas à família Simoliophiidae, que se especializaram em ambientes aquáticos.

Essa diversidade ajuda a explicar por que as serpentes atuais apresentam comportamentos tão diferentes. Enquanto algumas espécies passam a maior parte do tempo na superfície, outras escavam, nadam ou vivem em ambientes com pouca luz. A perda dos membros pode ter ocorrido em contextos evolutivos variados, associados a diferentes formas de locomoção e ocupação do habitat.

O que o fóssil revela sobre as cobras atuais

As características observadas no fóssil brasileiro também podem ser comparadas com espécies modernas. Cobras que escavam, como algumas serpentes do grupo das hognose snakes, preservam adaptações relacionadas ao deslocamento em solos compactos. Já as serpentes marinhas vivem em águas rasas, recifes, pradarias de capim marinho e fundos lamosos.

Essa variedade tem interesse especial para a biodiversidade brasileira. A Amazônia reúne serpentes terrestres, arborícolas, aquáticas e fossoriais, distribuídas por ambientes que vão das florestas de terra firme às áreas alagáveis. Em estados como Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Roraima, Rondônia e Tocantins, a diversidade atual oferece um retrato vivo de como diferentes linhagens podem ocupar nichos distintos.

O estudo não determina sozinho em que ambiente surgiram as primeiras serpentes. O fóssil apresenta evidências fortes de escavação para Tametara mirim, mas não prova que todas as espécies ancestrais tinham o mesmo modo de vida. A interpretação depende da comparação com outros registros, que ainda são raros.

Por que a descoberta é relevante

Além de ampliar o número de fósseis conhecidos, Tametara mirim mostra que a anatomia do cérebro pode revelar hábitos de animais extintos. A microtomografia permitiu identificar pistas sobre visão, comportamento e ambiente sem retirar o exemplar da rocha.

O material também reforça a importância dos fósseis sul-americanos para compreender a evolução dos répteis. A América do Sul preserva registros fundamentais de serpentes antigas, especialmente em áreas que já fizeram parte de ecossistemas tropicais e semiáridos durante o Cretáceo.

Os próximos passos incluem a busca por novos exemplares e a comparação de outros crânios fossilizados. Cada descoberta pode ajudar a separar adaptações específicas de uma espécie das características compartilhadas pelas primeiras serpentes.

Perguntas frequentes

Onde o fóssil de Tametara mirim foi encontrado?
O exemplar foi encontrado em uma rocha do estado de São Paulo, no Brasil.

Quantos anos tem o fóssil?
O fóssil tem cerca de 80 milhões de anos e pertence ao Cretáceo Superior.

O que o crânio indica?
A densidade dos ossos, o formato do crânio e a cavidade cerebral sugerem que a espécie vivia escavando o solo e tinha visão reduzida.

Com informações de Nature.

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