
Estudos da ‘Nature’ revelam impacto global da poluição do ar gerada por incêndios florestais na saúde humana, com especial atenção à Amazônia.
A fumaça das queimadas, um problema ambiental crescente, pode se tornar uma das principais causas de mortalidade global, resultando em até 1,4 milhão de mortes anuais até 2100. Este alerta é divulgado em dois estudos publicados na revista científica Nature, que destacam a relação direta entre o aquecimento global, o aumento dos incêndios florestais e o impacto severo na saúde humana.
As pesquisas utilizam modelos estatísticos e inteligência artificial para projetar cenários futuros, indicando que a frequência e intensidade das queimadas devem crescer significativamente nas próximas décadas. A poluição do ar gerada por esses incêndios carrega uma série de substâncias tóxicas, com consequências graves para o organismo.
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Nos Estados Unidos, por exemplo, a estimativa é de cerca de 70 mil mortes adicionais por ano até 2050 devido à poluição dos incêndios, caso as emissões de gases de efeito estufa permaneçam elevadas. Globalmente, as projeções são ainda mais alarmantes, alcançando 1,4 milhão de mortes prematuras anuais até o fim do século em um cenário intermediário de emissões.
Para chegar a esses números, os cientistas de universidades como Stanford e Tsinghua cruzaram dados de emissões de fogo entre 2001 e 2021 com registros de mortalidade, avaliando como a exposição a poluentes como o material particulado fino (PM2.5) afeta a saúde.
Entenda o caso
Dois estudos publicados na revista Nature em 17 de setembro de 2025 revelam que o aumento do aquecimento global vai intensificar incêndios florestais. A inalação da fumaça resultante provocará um número crescente de mortes prematuras, com projeção de 1,4 milhão de óbitos anuais globalmente até 2100. A inalação de PM2.5 e outros gases tóxicos é o principal fator de risco, afetando principalmente crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias crônicas.
Ameaça silenciosa da Amazônia
Embora os estudos não apresentem projeções específicas para o Brasil, a Amazônia é uma das regiões mais afetadas pelo aumento das queimadas. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o número de queimadas na Amazônia brasileira de janeiro a novembro de 2024 foi o maior em 17 anos.
A fumaça gerada nesses eventos, que muitas vezes alcança grandes centros urbanos, expõe milhões de pessoas aos mesmos poluentes que causam mortes prematuras em outras partes do mundo. A África, por exemplo, desponta como a região mais vulnerável, com um aumento de até 11 vezes nas mortes relacionadas ao fogo, segundo o estudo coordenado por Bo Zheng e Qiang Zhang, da Universidade Tsinghua (China).
Componentes tóxicos da fumaça
A fumaça das queimadas não é apenas visível, mas uma mistura complexa de poluentes tóxicos. Os principais componentes incluem:
- Material particulado (PM2.5): Com diâmetro de até 2,5 micrômetros, penetra profundamente nos pulmões, causando inflamação generalizada e doenças cardiovasculares, infarto e derrame.
- Monóxido de carbono (CO): Gás inodoro que impede o transporte de oxigênio no sangue, essencial para a sobrevivência celular. Pode causar desde dor de cabeça até danos cerebrais e cardíacos em exposições prolongadas.
- Compostos Orgânicos Voláteis (COVs): Podem elevar o risco de câncer e doenças pulmonares, como a pneumonia de hipersensibilidade.
- Óxidos de nitrogênio (NOx) e ozônio: Associados a crises de asma, tosse, chiado no peito e falta de ar, especialmente em crianças.
- Metais pesados: Como chumbo e mercúrio, que comprometem órgãos vitais como cérebro, rins e fígado, podendo ser cancerígenos.
O pneumologista Frederico Fernandes, presidente da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia (SPPT), compara a inalação desses poluentes a um ataque contínuo ao organismo. Segundo Fernandes, a exposição crônica a esses elementos pode desencadear doenças cardiovasculares sérias e agravar condições respiratórias como asma e bronquite. Já a pneumologista Margareth Dalcomo complementa: ‘Esses elementos desencadeiam uma cascata inflamatória diretamente nas paredes dos brônquios e na vasculatura humana e de outros animais. Os efeitos são graves e podem causar tanto intoxicações agudas quanto exacerbações de doenças crônicas.’
Recomendações e próximos passos
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a concentração anual média de PM2.5 não ultrapasse 5 microgramas por metro cúbico de ar para reduzir os riscos à saúde. No entanto, episódios de fumaça intensa no Brasil e em outras regiões do planeta superam esse limite várias vezes.
Especialistas reforçam a importância de medidas preventivas, como o uso de máscaras em áreas afetadas, evitar atividades físicas ao ar livre e manter ambientes fechados com filtros de ar quando possível. Os desdobramentos desses estudos e as futuras políticas climáticas serão cruciais para mitigar o impacto da fumaça das queimadas na saúde global.
Perguntas Frequentes
P: O que é PM2.5 e por que é perigoso?
R: PM2.5 refere-se a partículas finas de poluentes com diâmetro de até 2,5 micrômetros. São perigosas porque penetram profundamente nos pulmões e na corrente sanguínea, causando inflamação e doenças graves como infartos, derrames e problemas respiratórios.
P: Quais regiões serão as mais afetadas pelas mortes por fumaça de queimadas?
R: As projeções indicam que a África será a mais vulnerável, com um aumento de até 11 vezes nas mortes relacionadas ao fogo. Estados Unidos e Europa também verão um salto significativo, embora em menor proporção.
P: Como a Amazônia se encaixa nesse cenário?
R: A Amazônia, embora não tenha projeções específicas nos estudos, é uma das regiões que mais sofre com queimadas. A fumaça desses incêndios contribui para a poluição do ar e impacta a saúde de milhões de brasileiros, seguindo a mesma tendência de aumento das mortes prematuras por inalação de poluentes.
Com informações de G1.
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