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Gás natural: a farsa da energia "limpa" e o impacto climático real

Gás natural: a farsa da energia "limpa" e o impacto climático real
Foto: acervo

Indústria soube décadas antes que metano era poluente potente, mas enganou o público para expandir mercado.

WASHINGTON, D.C. Uma investigação recente conduzida pelo Center for Climate Integrity, divulgada em julho de 2026, revela que a indústria de petróleo e gás tinha conhecimento dos impactos climáticos negativos do metano décadas antes do que se pensava. O relatório detalha como o setor fabricou e promoveu a narrativa de que o gás natural seria uma fonte de energia “limpa” a partir da década de 1970, apesar de saber dos riscos ambientais associados. Essa campanha de desinformação levou a uma expansão significativa do uso e da infraestrutura de gás natural globalmente, com sérias consequências para o aumento da poluição climática.

Intitulado “A Fraude do Gás Natural ‘Limpo’: Como a Grande Indústria de Petróleo e Gás Criou o Mito de que o Gás Natural é uma Solução Climática”, o estudo se baseia em uma vasta gama de fontes, incluindo documentos inéditos, solicitações de registros públicos, comunicações internas da indústria, relatórios confidenciais, artigos científicos e entrevistas com especialistas. Enquanto outras análises já documentaram a negação e o atraso da indústria em relação à poluição por dióxido de carbono, esta é a primeira a traçar a linha do tempo da resposta da indústria do gás ao problema do metano, contextualizando-a em décadas de desinformação deliberada.

Entre as descobertas mais impactantes do relatório estão:

  • Alertas Iniciais: A indústria foi alertada sobre questões de poluição por metano já em 1968. Uma revisão encomendada pelo American Petroleum Institute (API) conectou o metano atmosférico a “campos de petróleo” e “vazamentos do sistema de distribuição de gás”, indicando que os sumidouros ambientais naturais poderiam ser “sobrecarregados por emissões excessivas”.
  • Estratégia de Relações Públicas: Em 1971, estrategistas de relações públicas criaram uma campanha de “energia limpa” para o gás natural. Comunicações internas revelam que eles reconheceram a “crescente importância das considerações ambientais em todas as decisões de compra” e a necessidade de o gás “se identificar como uma energia ‘limpa’ e comunicar sua história ecológica”. Curiosamente, esses mesmos executivos admitiram internamente a “falta de fatos claros e simples que substanciem os aspectos de poluição do gás natural” para apoiar a campanha “GÁS, ENERGIA LIMPA PARA HOJE E AMANHÔ.
  • Minimização dos Perigos: A American Gas Association (AGA) minimizou os perigos do metano e o papel da indústria no problema. Uma série de comunicados de imprensa, discursos e artigos recém-descobertos mostram a AGA citando seletivamente cientistas em um artigo de 1990 que afirmava: “Estudos Sugerem que o Metano Não é um Gás de Efeito Estufa Principal”.
  • Influência em Estudos: A indústria do gás cofinanciou e direcionou o resultado de um estudo seminal sobre metano da Environmental Protection Agency (EPA) em 1996. Este estudo foi subsequentemente usado pela indústria para minimizar preocupações sobre as emissões de metano. Documentos da época mostram que oficiais da EPA reconheceram: “Nós simplesmente não temos a experiência” para revisar os dados de forma independente e que era “improvável encontrar problemas mesmo que existam”. Uma revista industrial do Gas Research Institute, em 1996, chegou a afirmar que “o metano não tem desvantagens” em sua promoção do mesmo estudo, alegando que o aumento do uso de gás poderia de fato reduzir os gases de efeito estufa.

Entenda o caso: A Farsa do “Gás Limpo”

Desde a década de 1970, a indústria do gás natural tem promovido ativamente a ideia de que seu produto é uma alternativa energética “limpa”. No entanto, esta nova investigação demonstra que essa narrativa foi construída sobre a ocultação deliberada de informações sobre os impactos climáticos do metano, um potente gás de efeito estufa. A estratégia incluiu manipulação de dados, campanhas publicitárias enganosas e influência em estudos científicos, tudo para garantir a expansão do mercado de gás em detrimento da saúde ambiental global.

Para a região amazônica, a questão da expansão do gás natural guarda particular relevância. Projetos de infraestrutura como gasodutos e terminais de exportação frequentemente invadem ecossistemas sensíveis, incluindo áreas de floresta tropical.

Segundo o Center for Climate Integrity, o relatório indica que “a fraude do gás natural limpo tem sido essencial para o sucesso da indústria no mercado, e a ideia de que o gás é amigo do clima tem estado no centro da rápida expansão da infraestrutura de gás nas últimas duas décadas, incluindo a explosão do fracking, a construção de gasodutos interestaduais e terminais de exportação de gás, e a absurda codificação do gás como energia renovável em vários estados, prendendo os EUA em décadas de uso adicional de combustíveis fósseis e emissões prejudiciais ao clima.”

Richard Wiles, presidente do Center for Climate Integrity, afirma que as empresas de petróleo e gás “sabiam há décadas que o metano era um poluente climático nocivo, mas fabricaram o mito do gás natural ‘limpo’ para proteger e expandir seus negócios, sem considerar a saúde pública ou os impactos climáticos que sabiam que resultariam”. Ele acrescenta que “autoridades que continuam a justificar a expansão da dependência do gás natural, ainda alegando que é limpo ou seguro para o clima, estão usando o mesmo roteiro e ciência manipulada que executivos do gás e suas equipes de relações públicas inventaram décadas atrás. É hora de que essas mentiras profundamente perigosas sejam finalmente desmanteladas. Ao expor o engano da indústria do gás, podemos dar um passo mais perto da responsabilização.”

Uma pesquisa recente, realizada pelo Data for Progress em colaboração com o Center for Climate Integrity, revelou que quase três quartos dos eleitores norte-americanos apoiariam ações legais para responsabilizar as corporações de petróleo e gás por enganá-los sobre os danos do gás natural. À medida que as discussões sobre a transição energética avançam, a necessidade de transparência e responsabilização da indústria se torna cada vez mais premente, com o potencial de impactar futuras políticas energéticas e ambientais.

“O metano: sem desvantagens”, alegou uma revista da indústria do Gas Research Institute em 1996.

Perguntas Frequentes

O que é metano e por que ele é prejudicial?
O metano é um potente gás de efeito estufa, cerca de 25 vezes mais eficaz em aprisionar calor na atmosfera do que o dióxido de carbono em uma escala de 100 anos, contribuindo significativamente para o aquecimento global.

Qual a diferença entre gás natural e metano?
Gás natural é principalmente composto por metano. Quando a indústria se refere a gás natural, ela está se referindo a uma fonte de energia cujo principal componente e poluente é o metano.

Quem realizou esta investigação?
A investigação foi conduzida pelo Center for Climate Integrity, uma organização dedicada a responsabilizar as entidades que contribuem para a crise climática.

Qual o objetivo da investigação?
O objetivo é expor a manipulação e a desinformação por parte da indústria do petróleo e gás sobre os impactos climáticos do metano, buscando promover a responsabilização e uma transição energética mais justa e transparente.

Com informações de Center for Climate Integrity.

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