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Cacto usado há 8 mil anos vira atração para ocidentais e expõe o custo ético dos retiros psicodélicos

Cacto usado há 8 mil anos vira atração para ocidentais e expõe o custo ético dos retiros psicodélicos
Foto: Pardis Mahdavi

A popularização da huachuma leva uma tradição andina a novos países, mas também amplia riscos de exploração cultural e ambiental.

Antes de virar chá servido em retiros, a huachuma precisa de anos para crescer. Esse detalhe ajuda a entender por que a popularização do cacto entre buscadores ocidentais não é apenas uma história sobre psicodélicos: envolve uma planta de crescimento lento, uma tradição andina antiga e um mercado que pode transformar conhecimento sagrado em produto de bem-estar.

Também conhecida como San Pedro, a huachuma é o cacto Echinopsis pachanoi, encontrado ao longo da Cordilheira dos Andes. A planta contém mescalina, substância psicoativa que pode alterar a percepção, o humor e a sensação de conexão. Nos últimos anos, cerimônias e retiros com a espécie se espalharam pelos Estados Unidos, pela América Latina e pela Europa.

Segundo The Conversation, em 10 de setembro de 2026, a huachuma era apresentada como uma planta andina usada em cerimônias de cura e associada a efeitos de longa duração da mescalina. O conteúdo foi escrito pela antropóloga médica Pardis Mahdavi, pesquisadora de práticas psicodélicas.

Uma tradição que começa muito antes da cerimônia

O uso da huachuma não surgiu com a atual onda de interesse por substâncias psicodélicas. Restos de cactos encontrados em uma caverna peruana sugerem que a planta pode ser utilizada há cerca de 8 mil anos. Antes de aproximadamente 1300 antes da Era Comum, a espécie também foi representada em pedra no complexo cerimonial de Chavín de Huántar, no norte do Peru, nas mãos de uma divindade com presas.

Nas tradições de cura do norte peruano, os curanderos costumam aprender por anos, muitas vezes dentro de linhagens familiares. Em uma prática chamada mesa, o curador bebe a preparação e procura interpretar a origem do sofrimento de quem busca ajuda. A cerimônia, portanto, não se resume à ingestão de uma substância.

O preparo também exige tempo. A bebida é feita com a parte carnosa do cacto, depois da retirada dos espinhos e de um longo processo de cozimento e redução. Para praticantes tradicionais, conhecer a planta inclui cultivar, colher e replantar. Os braços retirados podem dar origem a novas mudas, mantendo o cacto vivo depois do uso.

Por que a experiência atrai novos participantes

A busca pela huachuma cresceu dentro de um movimento maior de interesse por ayahuasca, psilocibina, cetamina e outras experiências psicodélicas. Há pessoas que chegam depois de tentar terapia, antidepressivos, retiros de silêncio ou outros tratamentos sem encontrar resposta para depressão, ansiedade, luto e dependência.

A diferença mais citada está no ritmo. Em um ensaio controlado mencionado no material, os efeitos da mescalina duraram, em média, cerca de 11 horas, enquanto os da psilocibina ficaram em torno de cinco horas. Uma cerimônia de huachuma costuma começar pela manhã e avançar até o fim da tarde, com momentos de caminhada, conversa, descanso e alimentação.

Essa dinâmica também separa a experiência de muitos rituais de ayahuasca, geralmente realizados à noite e com os participantes deitados em jornadas mais individuais. Na huachuma, é comum permanecer em movimento e conversar durante parte do processo. A planta é chamada em alguns círculos de “avô”, uma imagem associada a uma orientação considerada gentil e gradual.

“Com huachuma, é menos sobre pensar, e mais sobre sentir”, disse um ex-integrante de forças especiais entrevistado pela pesquisadora.

Relatos como esse ajudam a explicar o interesse, mas não provam que a huachuma seja um tratamento eficaz para todas as pessoas. Uma pesquisa ampla com usuários de mescalina encontrou relatos de melhora duradoura em problemas como depressão e ansiedade, porém relatos pessoais e estudos iniciais não substituem avaliação clínica nem autorizam promessas de cura.

O risco escondido por trás do produto natural

A origem vegetal não torna a preparação automaticamente segura. A mescalina pode elevar a frequência cardíaca e a pressão arterial. O uso não é recomendado para pessoas com determinadas condições cardiovasculares, alguns históricos psiquiátricos ou em tratamento com certos medicamentos.

Há ainda uma dificuldade prática: o chá artesanal não possui dose padronizada, e a potência pode variar de um cacto para outro. Nos Estados Unidos, a mescalina continua classificada como substância controlada de Classe 1. O cacto, por sua vez, pode ser cultivado legalmente no país, uma combinação que cria zonas de incerteza para quem participa ou organiza cerimônias.

Um facilitador despreparado pode não identificar riscos de saúde, desconhecer a concentração da bebida ou abandonar o grupo durante uma experiência que pode durar dez horas ou mais. Por isso, a triagem dos participantes, o acompanhamento contínuo e o conhecimento sobre a planta são apresentados como responsabilidades básicas, não como detalhes opcionais.

Quando uma prática sagrada vira pacote de bem-estar

A expansão da ayahuasca oferece um alerta para a huachuma. Retiros de luxo passaram a cobrar milhares de dólares, enquanto facilitadores sem formação reproduziram cerimônias fora do contexto original. Em muitos casos, músicas, dietas, obrigações comunitárias e vínculos com os povos que preservaram o conhecimento foram deixados de lado.

O problema não é apenas cultural. A procura comercial pode incentivar a retirada de cactos de populações naturais, especialmente quando compradores procuram matéria-prima rápida e barata. Para os curadores entrevistados, uma forma responsável de reduzir esse impacto é obter plantas de produtores, evitar a coleta predatória e replantar cada braço retirado.

Outro princípio apontado é aprender diretamente com professores da tradição, em vez de montar uma prática a partir de vídeos e fórmulas encontradas na internet. Isso inclui reconhecer a origem andina da huachuma, nomear os mestres que transmitiram o conhecimento e devolver apoio às comunidades que mantiveram o uso da planta ao longo do tempo.

O que essa discussão tem a ver com a Amazônia

Para leitores da Amazônia, a história encontra um paralelo direto na internacionalização da ayahuasca. Peru, Equador, Colômbia e Brasil já recebem há pelo menos duas décadas pessoas dos Estados Unidos interessadas em cerimônias com a bebida. A própria divulgação internacional da ayahuasca mostra como uma prática espiritual sul-americana pode ser deslocada de seu contexto e convertida em serviço para visitantes estrangeiros.

A huachuma não é apresentada como uma planta amazônica, mas a discussão alcança os nove estados da região quando envolve turismo de cura, circulação de conhecimentos tradicionais, proteção da biodiversidade e repartição dos benefícios econômicos. O ponto comum é a necessidade de distinguir uma experiência culturalmente situada de um produto padronizado para consumo rápido.

Quem busca esse tipo de prática deve considerar a origem da planta, a qualificação de quem conduz a cerimônia, os riscos médicos e a relação estabelecida com as comunidades tradicionais. Informações introdutórias sobre o San Pedro e seus usos tradicionais podem ser consultadas no guia do ICEERS sobre a huachuma. Para conhecer o contexto mais amplo do turismo de ayahuasca, há também um relatório sobre quem participa, como funciona e onde ocorre esse turismo.

O próximo passo para a expansão da huachuma será conciliar o interesse científico pela mescalina com limites claros para segurança, conservação e respeito às tradições andinas.

Com informações de The Conversation.

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