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Ela atravessou durante quatro meses uma região apagada dos mapas…

Ele pretendia estudar medicina, entrou por acaso em uma aula sobre plantas e passou 12 anos aprendendo na Amazônia conhecimentos que as universidades não possuíam

Richard Evans Schultes entrou em Harvard, em 1933, imaginando que se tornaria médico.

A mudança começou em uma disciplina aparentemente comum. O curso se chamava Plants and Human Affairs, ou Plantas e Assuntos Humanos, e era ministrado pelo botânico Oakes Ames.

As aulas mostravam que as plantas não eram apenas organismos a serem classificados. Elas podiam servir como alimentos, medicamentos, venenos, materiais de construção, substâncias rituais e ferramentas de sobrevivência.

Schultes abandonou a ideia de estudar medicina e escolheu a botânica.

Poucos anos depois, essa decisão o levaria à Amazônia colombiana, onde permaneceria por aproximadamente 12 anos.

A missão começou com o curare

Em 1941, após concluir o doutorado, Schultes recebeu financiamento para investigar o curare, nome dado a diferentes preparações vegetais usadas por povos indígenas em instrumentos de caça.

A medicina ocidental já conhecia os efeitos do curare sobre os músculos, mas ainda havia muitas dúvidas sobre sua composição e seu preparo.

Na Amazônia, Schultes descobriu que não existia uma única receita. Diferentes povos produziam preparações com plantas dos gêneros Strychnos e Chondrodendron, algumas vezes combinando várias espécies.

A investigação exigia algo que não poderia ser feito apenas em um laboratório: observar quem identificava as plantas, como elas eram coletadas e em quais circunstâncias eram utilizadas.

Schultes começou a compreender que estudar uma espécie sem estudar as pessoas que conheciam suas propriedades produzia uma ciência incompleta.

A Segunda Guerra Mundial mudou sua missão

Enquanto Schultes estava em campo, os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial.

As plantações asiáticas de seringueiras, importantes para o abastecimento mundial de borracha, ficaram ameaçadas pelo avanço japonês. Como as espécies do gênero Hevea eram originárias da Amazônia, encontrar árvores produtivas voltou a ser uma prioridade estratégica.

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Schultes foi orientado a permanecer na região.

Nos anos seguintes, coletou aproximadamente 3.500 exemplares de seringueiras. As sementes e informações reunidas foram utilizadas em programas de melhoramento e em tentativas de ampliar a produção.

A missão militar e econômica coexistia com o trabalho etnobotânico. Schultes registrava como diferentes povos utilizavam plantas medicinais, alimentícias, alucinógenas, venenosas e artesanais.

Ele passou longos períodos entre comunidades indígenas, aprendeu nomes locais das espécies e enfrentou malária, fome, beribéri e acidentes durante as viagens.

Seu trabalho resultaria em milhares de amostras botânicas e centenas de publicações.

Uma biblioteca que não estava escrita em papel

Schultes costumava tratar os povos indígenas como especialistas, não apenas como fornecedores de informações.

Esse reconhecimento não eliminava as desigualdades próprias da pesquisa realizada naquele período. As plantas e os conhecimentos eram transportados para universidades estrangeiras, enquanto muitas comunidades permaneciam sem controle sobre a forma como seus saberes seriam utilizados.

Ainda assim, sua postura contribuiu para consolidar a etnobotânica moderna, área que investiga as relações entre sociedades humanas e plantas.

Para Schultes, uma floresta não poderia ser compreendida apenas pela quantidade de espécies. Era necessário estudar os sistemas de conhecimento que permitiam reconhecer propriedades, combinações e usos invisíveis a um observador externo.

Uma árvore podia ser classificada pela ciência como uma espécie. Para uma comunidade, ela também podia indicar uma época do ano, um tipo de solo, uma medicina, uma narrativa ou um território.

O alerta feito antes de a floresta dominar as notícias

Schultes retornou a Harvard em 1953 e ocupou diferentes cargos no Museu Botânico da universidade. Tornou-se professor, curador de etnobotânica e, posteriormente, diretor da instituição.

Desde a década de 1960, já alertava para dois desaparecimentos simultâneos: a destruição das florestas tropicais e a perda dos conhecimentos dos povos que nelas viviam.

A preocupação continua atual.

Uma planta pode desaparecer antes de ser formalmente descrita. Um conhecimento pode desaparecer quando morre a última pessoa capaz de reconhecer uma espécie ou preparar determinada combinação.

Schultes morreu em 2001, aos 86 anos. Mais de 120 espécies e três gêneros receberam nomes relacionados a ele.

Mas seu principal legado talvez não esteja nos organismos batizados em sua homenagem.

Está na percepção de que a Amazônia não é apenas uma coleção de recursos esperando para ser descoberta. Ela também é uma biblioteca viva, organizada por povos que aprenderam a interpretar suas páginas durante milhares de anos.

A aula que desviou Schultes da medicina não o afastou completamente da saúde.

Ela apenas o conduziu a uma farmácia muito maior do que qualquer edifício poderia abrigar.

Documentação: Harvard Gazette, Harvard University Herbaria e acervo histórico da universidade.

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