Lidar revela 396 geoglifos antigos na Amazônia e amplia o mapa de uma civilização que pode ter reunido 3 milhões

Lidar revela 396 geoglifos antigos na Amazônia e amplia o mapa de uma civilização que pode ter reunido 3 milhões
Foto: Martti Pärssinen)

Levantamento a laser no Acre e no Amazonas encontrou vestígios de centros monumentais construídos há até 2.500 anos.

Do alto, a floresta parece esconder tudo. Sob a copa fechada, porém, linhas retas, quadrados, círculos e valas formam um mapa construído por pessoas que viveram na Amazônia muito antes da chegada dos europeus. Uma nova pesquisa identificou 396 geoglifos ainda não registrados em uma área de 4.500 quilômetros quadrados no Acre e no Amazonas, usando lidar, tecnologia capaz de produzir imagens do terreno mesmo onde as árvores bloqueiam a visão.

Os vestígios pertencem ao conjunto de sociedades chamado Aquiry, que se desenvolveu no sudoeste da Amazônia a partir de aproximadamente 2.500 anos atrás. A descoberta não apenas aumenta a quantidade conhecida dessas estruturas. Ela também estende a área atribuída a uma civilização cuja organização social, práticas agrícolas e redes de convivência começam a ser reconstituídas pela arqueologia.

Uma paisagem geométrica escondida pela floresta

Os geoglifos amazônicos são grandes obras de terra. Em vez de monumentos erguidos com blocos de pedra, seus construtores abriram valas profundas e acumularam o solo nas bordas, criando desenhos que podem ser reconhecidos do alto. O conjunto identificado no novo levantamento inclui formas geométricas associadas a centros monumentais.

Segundo estudo publicado pela Nature em 29 de julho de 2026, os 396 novos geoglifos foram localizados durante uma investigação aérea que cobriu quase 1.740 milhas quadradas, o equivalente a 4.500 quilômetros quadrados, de floresta amazônica. A varredura amplia substancialmente o inventário arqueológico de uma região onde a vegetação densa limita o trabalho realizado diretamente no solo.

O lidar funciona emitindo milhares de pulsos de laser em direção ao terreno. Parte da luz alcança as folhas e retorna imediatamente, enquanto outra parcela atravessa os espaços entre galhos e chega ao chão. Com esses retornos, os pesquisadores montam um modelo tridimensional da superfície e conseguem perceber valas, aterros e elevações que seriam difíceis de identificar em imagens convencionais.

O que existia ao redor das valas

As estruturas não estavam isoladas de uma vida cotidiana. As evidências reunidas pelos arqueólogos indicam que os moradores viviam em grandes casas multifamiliares dispostas ao redor dos centros de terra. Também cultivavam alimentos como milho e abóbora, uma combinação que aponta para comunidades capazes de organizar produção, moradia e encontros em escala regional.

Os geoglifos foram construídos entre 600 antes de Cristo e 850 depois de Cristo. Esse intervalo atravessa mais de 1.400 anos de ocupação e mostra que os desenhos não pertencem a um único episódio. Eles fazem parte de uma tradição arquitetônica mantida por diferentes comunidades ao longo do tempo.

O arqueólogo Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinque, pesquisa as obras geométricas do Acre há mais de duas décadas. Foi em 2021 que ele apresentou oficialmente o nome Aquiry para esse conjunto multicultural de sociedades. A denominação vem do rio Acre, que nasce na região entre Peru e Bolívia e atravessa os atuais estados do Acre e do Amazonas. Na língua dos povos indígenas Arawak, Aquiry significa “rio dos jacarés”.

Uma rede de comunidades, não uma cidade perdida

A interpretação proposta pelos pesquisadores não descreve uma única cidade centralizada. O cenário é o de vários centros cerimoniais conectados por uma visão de mundo compartilhada. As formas monumentais podiam expressar pertencimento, ordenar encontros e criar espaços para decisões políticas.

Tradições orais indígenas registradas pelos pesquisadores associam esses locais à construção de relações entre comunidades e com seres considerados importantes no mundo espiritual. Os centros também teriam servido para reuniões e para que chefes demonstrassem generosidade, oferecendo alimentos ou organizando grandes encontros.

A escala estimada é uma das partes mais discutidas do estudo. Pela quantidade e pela distribuição dos geoglifos, os autores sugerem que as sociedades Aquiry poderiam ter reunido até 3 milhões de pessoas antes de seu colapso. Esse número é uma estimativa baseada no conjunto de evidências arqueológicas e não equivale a um censo antigo. Ainda assim, ele contrasta com a antiga imagem de uma floresta ocupada apenas por pequenos grupos dispersos.

O que a descoberta muda para a arqueologia amazônica

Durante décadas, a floresta foi tratada como um obstáculo para localizar vestígios de ocupações antigas. A combinação entre lidar, imagens aéreas e investigação no chão altera esse quadro porque permite procurar padrões em áreas extensas antes de abrir escavações. O método também ajuda a indicar onde estão os locais que merecem estudos mais detalhados.

No Acre, os geoglifos já haviam mostrado que a floresta atual cobre uma paisagem transformada por sociedades antigas. O novo levantamento leva essa leitura para uma escala maior e inclui áreas do Amazonas, reforçando a conexão histórica entre os dois estados. Para a arqueologia dos demais estados amazônicos, como Pará, Rondônia, Roraima, Amapá, Tocantins e Maranhão, a principal lição é metodológica: estruturas de terra podem permanecer invisíveis por séculos até que tecnologias de mapeamento revelem seu desenho.

Essa possibilidade não autoriza concluir que existam geoglifos Aquiry em toda a Amazônia. Cada área precisa ser investigada e datada. O que a pesquisa demonstra é que a cobertura florestal não pode ser usada, sozinha, para medir a intensidade da ocupação humana antiga.

Uma história ainda aberta sob as árvores

A pesquisa também reabre perguntas sobre o desaparecimento ou a transformação dessas sociedades. O material apresentado associa o fim do período de construção dos geoglifos a um processo de colapso da civilização Aquiry, mas a descoberta de novas estruturas pode ajudar a entender se houve abandono, reorganização política, deslocamento populacional ou mudanças nas formas de ocupar o território.

As respostas dependerão de escavações, datações e comparação entre os diferentes centros. O mapa produzido pelo lidar é, portanto, uma etapa inicial: ele mostra onde estão as marcas, mas não revela sozinho quem as construiu, como cada comunidade se relacionava ou por que determinados locais deixaram de ser usados.

Com 396 novos geoglifos no registro, a floresta do Acre e do Amazonas deixa de ser apenas o cenário de uma descoberta pontual e passa a ser lida como parte de uma paisagem histórica extensa, que ainda deverá ser estudada em campo nos próximos trabalhos arqueológicos.

Com informações de Nature.

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