
Estruturas encontradas entre Acre e Amazonas mostram que a região foi ocupada por uma complexa rede de comunidades.

Linhas retas, valas profundas e grandes figuras geométricas escondidas sob a floresta estão mudando a compreensão sobre o passado da Amazônia. Um estudo publicado em 2 de agosto de 2026 na revista Nature identificou mais de 400 sítios cerimoniais associados à civilização Aquiry, no território que hoje corresponde à região entre os estados do Acre e do Amazonas. Os pesquisadores estimam que a sociedade tenha reunido entre 1,25 milhão e 3 milhões de pessoas no início do primeiro milênio.
A descoberta foi possível graças ao uso do Lidar, sistema de mapeamento aéreo a laser capaz de atravessar pequenas aberturas na vegetação e registrar o relevo do solo. A tecnologia revelou uma rede de construções que ocupava aproximadamente 183 mil quilômetros quadrados, área próxima à extensão territorial do Paraná.
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Os vestígios não são ruínas de pedra. Na região, a escassez desse material fez com que os antigos habitantes construíssem com terra. Os geoglifos aparecem como círculos, quadrados, retângulos e outras formas delimitadas por valas que podem alcançar vários metros de profundidade.
Esses espaços eram conectados por caminhos largos e retilíneos. Para os autores do estudo, os locais funcionavam como centros de reunião política e ritual. As cerimônias podem ter incluído danças, música, banquetes, competições atléticas e jogos com bola, além de momentos de negociação entre diferentes comunidades.
O maior sítio identificado ocupa cerca de 50 hectares, o equivalente a aproximadamente 70 campos de futebol. Embora mais de 400 estruturas tenham sido mapeadas e estejam bem preservadas, os arqueólogos calculam que a região possa ter abrigado mais de 20 mil antigos centros cerimoniais.
Entenda o caso
A civilização recebeu o nome Aquiry, derivado de uma palavra indígena associada ao rio Acre. Os pesquisadores não sabem como os próprios habitantes chamavam sua sociedade nem quais línguas eram faladas pelas comunidades.
As evidências indicam que não existia um único reino centralizado. A hipótese mais aceita é a de uma rede formada por grupos distintos, ligados por relações políticas, religiosas e econômicas. No Acre, o antropólogo indígena Francisco Apurinã afirmou que seu povo reconhece os geoglifos como uma espécie de “kymyrury”, espaços entendidos como “casas para os espíritos”.
População amazônica pode ter sido muito maior
Segundo a Universidade de Helsinque, a civilização Aquiry reuniu entre 1,25 milhão e 3 milhões de pessoas no sudoeste da Amazônia no início do primeiro milênio. O dado supera estimativas anteriores para toda a população amazônica, que variavam de 1 milhão a 10 milhões de habitantes.
A nova projeção não significa que todos os moradores estivessem concentrados em cidades semelhantes às encontradas em outras partes do mundo antigo. A ocupação era distribuída por uma extensa paisagem, formada por aldeias, áreas de cultivo, caminhos e centros de encontro.
Os resultados também levam os cientistas a considerar que outras regiões da Amazônia podem ter sido densamente povoadas antes da chegada dos europeus. Uma análise publicada pela revista Science sobre a descoberta destacou que o número de estruturas encontradas em uma área inferior a 3% da Grande Amazônia pode indicar a existência de milhares de outros sítios ainda ocultos.
Floresta manejada e transformada
Os Aquiry não apenas construíram centros cerimoniais. Eles também modificaram a paisagem para garantir alimento e favorecer espécies de interesse cultural. A pesquisa aponta que os habitantes queimaram trechos de florestas de bambu e abriram áreas para o cultivo de milho, abóbora e mandioca.
O manejo incluía a propagação de árvores consideradas úteis ou simbólicas, em detrimento de outras espécies. Essa prática mostra que a floresta não era um ambiente intocado, mas uma paisagem administrada por populações que conheciam seus ciclos e recursos.
“O impacto humano sobre o meio ambiente amazônico foi muito maior do que se acreditava”, afirmou Martti Pärssinen, arqueoantropólogo da Universidade de Helsinque e autor principal do estudo. Segundo ele, a transformação da vegetação também alterou a produção e o balanço de carbono da antiga Amazônia, aspecto que deve ser considerado em futuros modelos climáticos.
Como o Lidar encontrou as estruturas
O equipamento foi instalado em aeronaves que sobrevoaram longos trechos da floresta em linhas retas. De acordo com Juha Hyyppä, coautor da pesquisa e integrante do Instituto de Pesquisa Geoespacial da Finlândia, os voos alcançaram trechos de aproximadamente 450 quilômetros.
A cada dez quilômetros, o sistema mapeava uma faixa de cerca de um quilômetro de largura. Os pulsos de laser atravessavam as frestas entre folhas e galhos, atingiam o solo e retornavam ao sensor. Com os dados, os pesquisadores construíram modelos tridimensionais capazes de mostrar valas, caminhos e plataformas que não podem ser observados em imagens comuns.
A tecnologia tem ampliado a arqueologia amazônica porque permite investigar grandes áreas sem a necessidade de derrubar a floresta. Também ajuda a localizar sítios que podem ser protegidos antes de sofrerem impactos provocados por estradas, queimadas, desmatamento ou expansão agropecuária.
O desaparecimento ainda é um mistério
Apesar do avanço, a pesquisa não responde por que a civilização Aquiry desapareceu. Os sinais de ocupação diminuem entre aproximadamente 850 e 1000 d.C., período que ainda exige novas escavações, análises de solo e estudos sobre clima, doenças, conflitos e mudanças nas redes políticas.
Os pesquisadores observam que, em época semelhante, a civilização maia clássica também passou por um processo gradual de colapso na América Central. A comparação, porém, não prova uma causa comum. Os dois fenômenos continuam sendo debatidos pela arqueologia.
Para a Amazônia brasileira, especialmente nos territórios do Acre e do Amazonas, o mapeamento reforça a importância de combinar tecnologia, pesquisa de campo e conhecimento indígena. As próximas etapas devem ampliar o levantamento e testar quantos sítios ainda estão escondidos sob a floresta.
Perguntas frequentes
Quem foram os Aquiry?
Os Aquiry foram uma rede de comunidades que ocupou o sudoeste da Amazônia entre 600 a.C. e 850 d.C. O nome foi associado ao termo indígena usado para o rio Acre.
O que são os geoglifos amazônicos?
São grandes formas geométricas escavadas ou construídas no solo, geralmente delimitadas por valas e conectadas por caminhos. Na pesquisa, eles foram interpretados como possíveis centros políticos e cerimoniais.
O que é a tecnologia Lidar?
É um sistema de mapeamento aéreo que usa pulsos de laser para medir o relevo. Na floresta, o método consegue revelar estruturas ocultas sob a vegetação sem a retirada das árvores.
Com informações da Universidade de Helsinque.
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