
Estudo com 94 agricultores mostra como a perda de colheitas amplia a tensão entre comunidades rurais e uma espécie ameaçada.
Em parte do norte da Argélia, proteger uma espécie ameaçada de extinção também passou a significar lidar com plantações danificadas e propriedades rurais deixadas para trás. Um estudo publicado em 16 de setembro de 2026 na revista Scientific Reports mostra que os macacos-de-barbária, ou Macaca sylvanus, procuraram alimento em lavouras de forma recorrente, especialmente entre junho e setembro, período em que mais da metade das propriedades pesquisadas registrou danos.
A pesquisa foi realizada na região central do norte argelino e ouviu 94 agricultores. O resultado mais grave aparece na escala da comunidade: um terço das fazendas consultadas havia sido abandonado por causa de perdas severas nas colheitas. O trabalho não trata o comportamento dos macacos como uma simples questão de pragas. Os autores analisam um conflito de conservação, no qual uma espécie ameaçada enfrenta perda acelerada de habitat ao mesmo tempo que se aproxima de áreas cultivadas.
Quando a floresta termina na plantação
O macaco-de-barbária é o único primata não humano nativo do norte da África. Sua distribuição está associada sobretudo a áreas florestais e montanhosas da Argélia e do Marrocos. A redução e a fragmentação desses ambientes podem aproximar os animais das propriedades, onde frutas e outros cultivos oferecem alimento concentrado e acessível.
Segundo a Scientific Reports, o conflito entre agricultores e macacos-de-barbária foi analisado em fazendas do norte da Argélia em 2026. Os pesquisadores Mohammed Khalil Mellal, Abdelmadjid Chelli, Rabah Boutekrabt, Sarah E. Turner, Robert Bertrand Weladji e Rassim Khelifa procuraram medir não apenas a ocorrência das incursões, mas também sua distribuição ao longo do ano, sua relação com a altitude e as consequências econômicas percebidas pelos produtores.
Na prática, a equipe aplicou questionários a agricultores e comparou as respostas com características das propriedades e da paisagem ao redor. Esse método permite identificar padrões de convivência e fatores associados ao problema, mas não prova, sozinho, que uma característica específica seja a causa única da entrada dos animais nas lavouras.
O tamanho da área pesa mais que a distância das casas
Entre os fatores avaliados, o tamanho da área cultivada apareceu como o principal elemento associado à frequência das incursões. Fazendas maiores apresentaram maior probabilidade de relatar visitas frequentes dos macacos. A altitude e a proximidade de assentamentos também mostraram associações positivas, porém mais fracas.
O dado ajuda a substituir uma explicação simplista, segundo a qual os animais apenas se aproximariam das pessoas por viverem perto de aldeias. O estudo sugere que a configuração da própria fazenda e o contexto da paisagem têm papel relevante. Uma área agrícola extensa pode oferecer maior quantidade de alimento e mais oportunidades de acesso, enquanto a fragmentação do habitat pode aumentar os encontros entre fauna e produção rural.
O calendário também foi importante. Mais de 50% das propriedades tiveram cultivos danificados entre junho e setembro. Como o resumo do estudo não identifica uma cultura específica como responsável pelo maior número de perdas, o resultado deve ser lido como um padrão sazonal geral de invasão das lavouras, e não como prova de que uma determinada plantação atraia os animais em todos os locais.

Perda econômica muda a percepção sobre a espécie
Os agricultores consultados descreveram os macacos como um incômodo, percepção que se torna mais compreensível quando a visita dos animais compromete o rendimento de uma safra. A consequência mais extrema foi o abandono de fazendas, registrado em aproximadamente um terço das propriedades pesquisadas por causa da intensidade das perdas.
Esse efeito pode criar um ciclo difícil. Quando uma área deixa de ser cultivada, a atividade agrícola local perde força e a população rural pode ficar mais vulnerável. Ao mesmo tempo, o abandono não resolve necessariamente a pressão sobre o habitat, sobretudo se a paisagem continuar sendo transformada por ações humanas ou sofrer os efeitos do clima. O estudo, portanto, aponta para um problema que combina conservação da biodiversidade, segurança econômica e permanência das comunidades no campo.
Os autores defendem soluções sustentáveis para aumentar a coexistência entre humanos e macacos-de-barbária. A formulação é importante porque o trabalho não apresenta uma autorização para eliminar animais, nem afirma que uma única medida resolveria o conflito. O resultado indica a necessidade de estratégias adaptadas às propriedades, ao período crítico do ano e às condições da paisagem.
O que a experiência argelina ensina à Amazônia
Não há indicação de que o macaco-de-barbária ocorra na Amazônia brasileira, e os resultados obtidos no norte da África não podem ser transferidos automaticamente para espécies como macacos-prego, guaribas, uacaris ou outras populações amazônicas. Ainda assim, o mecanismo geral do conflito é familiar à região: quando a floresta é reduzida ou fragmentada, animais silvestres podem alcançar roças, pomares e criações, enquanto produtores passam a arcar com prejuízos e a enxergar a fauna como ameaça.
Para os estados amazônicos, incluindo Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, a principal contribuição do estudo está na forma de investigar o problema. Em vez de contar apenas os animais ou registrar ocorrências isoladas, os pesquisadores relacionaram época do ano, tamanho das propriedades, altitude, distância de assentamentos e impacto econômico. Esse tipo de diagnóstico pode ajudar a diferenciar áreas de risco e a orientar medidas de prevenção sem transformar a presença de uma espécie protegida em justificativa para perseguição.
O caso também reforça que conservação não se sustenta apenas com a proteção formal do animal. Se a comunidade rural não tiver meios para reduzir perdas ou participar das decisões, a espécie pode continuar legalmente protegida, mas enfrentar rejeição cotidiana. A pesquisa publicada na Scientific Reports oferece um retrato específico da Argélia e levanta uma questão mais ampla: como distribuir os custos da conservação para que eles não recaiam apenas sobre quem cultiva a terra.
As dúvidas que ficam para a próxima etapa
O estudo identifica padrões, mas ainda deixa espaço para investigações complementares. Será necessário avaliar quais culturas são mais vulneráveis, quais técnicas de proteção funcionam sem ferir os animais e como as perdas variam entre anos com diferentes condições climáticas. Também será importante ouvir com mais profundidade as comunidades e comparar propriedades que mantiveram a produção com aquelas que foram abandonadas.
O estudo completo em acesso aberto detalha o levantamento feito pelos pesquisadores da University of Béjaïa, do Centre de Recherche en Technologies Agro-Alimentaires e da Concordia University. Os próximos passos dependem de transformar esses dados em medidas locais de prevenção, compensação e proteção do habitat.
Com informações da University of Béjaïa.
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