
O mar de Aral, que já foi o quarto maior lago do mundo, virou em grande parte um deserto de sal e areia. Agora, o fundo seco está recebendo florestas plantadas. Segundo o Ministério da Ecologia e dos Recursos Naturais do Cazaquistão, entre 2021 e 2025 os plantios de proteção avançaram sobre mais 1,117 milhão de hectares do antigo leito, e só em 2026 a área florestada cresceu outros 116 mil hectares. A principal espécie é o saxaul, uma árvore baixa do deserto capaz de segurar o solo e frear o vento.
O objetivo não é trazer a água de volta, o que as autoridades já consideram irrealista, mas impedir que o leito exposto continue soltando poeira tóxica sobre a região.
Como um lago gigante secou
O Aral cobria cerca de 68 mil quilômetros quadrados na fronteira entre o Cazaquistão e o Uzbequistão e sustentava comunidades de pescadores. O colapso começou com projetos de irrigação da era soviética, que desviaram a água dos dois rios que o alimentavam, o Amu Darya e o Syr Darya, para plantações, principalmente de algodão.
Sem a água dos rios, o lago encolheu, se dividiu e deixou para trás um leito seco que hoje soma cerca de 6 milhões de hectares, dos quais 2,8 milhões no Cazaquistão, segundo o governo do país. Do lado uzbeque, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) calcula 2,7 milhões de hectares de fundo seco. Nas antigas cidades portuárias, como Moynaq, no Uzbequistão, barcos ficaram encalhados na areia, a dezenas de quilômetros da água.
Um deserto que espalha sal
O novo deserto, chamado de Aralkum, ficou coberto de sais e resíduos de agrotóxicos levados pelos rios durante décadas. O vento levanta essa poeira e a espalha por regiões vizinhas. Por isso, a estratégia passou a ser fixar o solo com vegetação.
A muralha verde de saxaul
O Cazaquistão começou a plantar no leito seco nos anos 1990. De 1990 a 2020, mais de 195 mil hectares de florestas de proteção foram criados na região de Kyzylorda, com apoio de doadores internacionais. O presidente Kassym-Jomart Tokayev determinou depois a criação de plantações de saxaul em 1,1 milhão de hectares até 2025, meta que o governo diz ter atingido.
No programa, foram semeadas 3.440 toneladas de sementes de saxaul e de plantas tolerantes ao sal, e plantadas 53,2 milhões de mudas. As raízes do saxaul se espalham na horizontal por até 12 metros, o que ajuda a segurar a areia contra a erosão do vento.
No lado do Uzbequistão, o trabalho é menor e conta com o Pnud. Em fevereiro de 2026, uma campanha plantou 90 mil mudas de saxaul e de outras plantas tolerantes ao sal em 90 hectares do fundo seco. Em março de 2025, outra ação havia plantado 80 mil mudas em 80 hectares na república autônoma do Caracalpaquistão.
Nem toda muda sobrevive
O desafio é grande. Autoridades da região de Kyzylorda reconhecem que avaliações científicas indicam uma taxa de sobrevivência de cerca de 30% nos plantios de saxaul, e há trabalho em andamento para adaptar melhor as mudas ao solo salgado.
Mesmo assim, o governo cazaque relata sinais de recuperação: roedores, répteis e aves voltam a aparecer nas áreas plantadas, e processos naturais de formação de solo começam a se restabelecer. Sementes de plantas forrageiras estão sendo semeadas entre o saxaul, com a ideia de transformar parte da área em pastagem no futuro.
Uma reserva maior que muitos países
O Cazaquistão planeja criar a reserva florestal estadual Aral Ormany, com mais de 1,3 milhão de hectares, para proteger o ecossistema que está se formando no antigo leito. Em abril de 2026, uma cúpula regional em Astana aprovou a resolução Escudo Verde da Ásia Central, um programa de 2026 a 2035 para criar barreiras verdes contra a desertificação e as tempestades de poeira.
E o número que circula nas redes?
Publicações nas redes falam em 1,7 milhão de hectares plantados. Os dados oficiais disponíveis não confirmam esse número. O que o governo do Cazaquistão informa é a soma de cerca de 195 mil hectares até 2020, mais 1,117 milhão entre 2021 e 2025 e mais 116 mil em 2026, no seu lado do antigo lago.
Perguntas frequentes
Por que o mar de Aral secou?
Porque os rios Amu Darya e Syr Darya foram desviados para irrigação na era soviética e deixaram de abastecer o lago.
O que é saxaul?
Uma árvore baixa típica dos desertos da Ásia Central, resistente à seca e ao sal, com raízes longas que seguram a areia.
O mar de Aral vai voltar a ter água?
No Cazaquistão, a recuperação total do nível da água não é considerada realista. A estratégia é estabilizar o solo com florestas.
Quantas mudas sobrevivem?
Cerca de 30%, segundo avaliações científicas citadas pelas autoridades da região de Kyzylorda.
A história do Aral virou um alerta mundial sobre o uso dos rios: quando a água é desviada além do limite, o estrago leva décadas para ser contido.
Com informações do Ministério da Ecologia e dos Recursos Naturais do Cazaquistão e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) no Uzbequistão.
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