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Marcas de mordida revelam jacaré de 7 metros que pode ter dominado pântanos da América do Sul

Marcas de mordida revelam jacaré de 7 metros que pode ter dominado pântanos da América do Sul
Foto: discovermagazine.com

Fósseis colombianos indicam que o Purussaurus neivensis atacava grandes herbívoros há até 16 milhões de anos.

Reconstrução artística do Purussaurus neivensis atacando um grande mamífero no Mioceno
Reconstrução do Purussaurus neivensis atacando um ungulado no Mioceno. Crédito: Miguel Hernandez.

Perfurações preservadas em ossos de grandes mamíferos indicam que um jacaré de aproximadamente 7 metros e até 1,8 tonelada pode ter sido um dos principais predadores dos pântanos da América do Sul há cerca de 10 milhões de anos. O animal, identificado como Purussaurus neivensis, viveu em áreas alagadas que hoje correspondem principalmente à Colômbia, mas faziam parte de uma extensa rede de rios, lagos e zonas úmidas conectada ao antigo ambiente amazônico.

A conclusão está em um estudo publicado no Journal of Vertebrate Paleontology. Pesquisadores analisaram fósseis encontrados em La Venta, na Colômbia, e compararam as marcas nos ossos com ferimentos produzidos por crocodilianos atuais. O padrão observado sugere que o Purussaurus atacava presas grandes e mordia regiões próximas à face e aos ossos do crânio.

Segundo a University of Helsinki, marcas de perfuração identificadas em fósseis de La Venta, na Colômbia, registram sinais de predação por crocodilianos durante o Mioceno, entre 10,5 milhões e 16 milhões de anos atrás.

Um predador em uma paisagem de gigantes

Durante o Mioceno, a paisagem sul-americana era muito diferente da atual. Uma área de zonas úmidas com mais de 300 mil milhas quadradas, equivalente a aproximadamente 777 mil quilômetros quadrados, cobria partes do Brasil, Peru, Equador e Colômbia. O sistema reunia rios, lagos, pântanos e áreas de inundação que favoreciam uma grande concentração de animais.

Nas margens dessas águas viviam preguiças terrestres gigantes, gliptodontes com aparência semelhante à de tatus encouraçados e mamíferos herbívoros como os astrapotérios e toxodontídeos. Alguns desses animais tinham corpos robustos e alcançavam dimensões comparáveis às de grandes rinocerontes.

O ambiente também abrigava aves terrestres enormes, serpentes constritoras e mamíferos com dentes especializados. No entanto, o registro fóssil de La Venta sugere que os crocodilianos ocupavam um espaço especialmente importante entre os caçadores. Nove espécies diferentes já foram identificadas na região, uma diversidade considerada incomum para um mesmo conjunto fossilífero.

O que as mordidas revelam

Para investigar como esses répteis interagiam com as presas, a equipe examinou fósseis guardados em coleções de museus. Ossos podem conservar não apenas a anatomia dos animais, mas também sinais de ataques, como cortes, esmagamentos, fraturas e perfurações deixadas por dentes.

Três grandes ungulados encontrados em La Venta apresentaram marcas semelhantes às produzidas por crocodilos modernos. Em três dos quatro espécimes analisados, as perfurações estavam concentradas na região da face. Ao redor dos furos, os pesquisadores encontraram fraturas que indicam que os dentes atingiram os ossos quando ainda havia tecido fresco.

O padrão levou os cientistas a propor que o Purussaurus podia agarrar a cabeça ou a região facial de suas presas, em uma estratégia parcialmente comparável à de crocodilos-de-água-salgada atuais. A interpretação ainda é uma hipótese científica, porque não é possível observar diretamente o comportamento de uma espécie extinta.

Entenda o caso

O Purussaurus neivensis era parente distante dos jacarés atuais e viveu em ambientes aquáticos do norte da América do Sul. Os fósseis analisados têm entre 10,5 milhões e 16 milhões de anos.

As marcas nos ossos são compatíveis com mordidas de crocodilianos, mas a atribuição ao Purussaurus é feita com base no tamanho do predador, na distribuição das espécies e na força provável de sua mandíbula.

O estudo não afirma que todo osso danificado tenha sido resultado de uma caçada. Alguns sinais também podem estar ligados ao consumo de uma carcaça já morta, comportamento conhecido como necrofagia.

Um possível controlador do ecossistema

O tamanho do Purussaurus ajuda a explicar por que ele chama a atenção dos paleontólogos. Estimativas indicam que o animal chegava a cerca de 23 pés de comprimento e pesava aproximadamente 4.000 libras, medidas equivalentes a 7 metros e 1.814 quilos. Mesmo com margem de erro, trata-se de um dos maiores crocodilianos conhecidos pela ciência.

“A frequência das marcas provavelmente produzidas pelo Purussaurus sugere que ele era um predador importante nesses ecossistemas tropicais”, afirmou Oscar Wilson, primeiro autor do estudo e pesquisador de pós-doutorado da University of Helsinki, segundo a divulgação da pesquisa.

Para Wilson, a abundância de herbívoros era tão grande que os predadores mamíferos provavelmente não conseguiam consumir todos os animais disponíveis. Nesse cenário, os crocodilianos teriam ocupado um papel central na captura de grandes presas, especialmente nas margens e nos canais de água.

A atuação desses répteis também pode ter influenciado a circulação de nutrientes. Ao caçar, arrastar e consumir animais entre a terra e a água, os crocodilianos ajudavam a transferir matéria orgânica de um ambiente para outro. Esse processo pode ter afetado a distribuição de nutrientes em rios, lagos e áreas alagadas.

Conexão com a Amazônia atual

Embora os fósseis do estudo tenham sido encontrados na Colômbia, a antiga área úmida alcançava uma extensão associada à formação dos ambientes amazônicos. O trabalho ajuda a compreender que a Amazônia não foi sempre uma floresta contínua com a configuração atual. Em diferentes momentos, a região abrigou grandes sistemas de rios e pântanos, com fauna própria e predadores de dimensões extraordinárias.

O registro é relevante para a paleontologia de toda a região amazônica, incluindo Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Fósseis encontrados nesses estados podem ajudar a esclarecer como as antigas redes de drenagem conectavam os ambientes e permitiam a dispersão de animais entre áreas hoje separadas por milhares de quilômetros.

Os pesquisadores ainda precisam localizar mais ossos com marcas de ataque para estimar a frequência das interações e separar melhor caça, disputa territorial e consumo de carcaças. Novos fósseis poderão indicar se o Purussaurus realmente dominava a cadeia alimentar ou se dividia esse espaço com outros grandes predadores.

Perguntas frequentes

O que era o Purussaurus neivensis?

Era um crocodiliano gigante, parente distante dos jacarés atuais, que viveu em áreas alagadas da América do Sul durante o Mioceno.

Qual era o tamanho do animal?

As estimativas indicam cerca de 7 metros de comprimento e até 1,8 tonelada de massa corporal.

As marcas provam que ele caçou todos os animais?

Não. As marcas são compatíveis com predação, mas parte dos ossos também pode ter sido danificada durante o consumo de carcaças. A equipe pretende analisar novos fósseis para esclarecer esse ponto.

Com informações da University of Helsinki.

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