
Amostras coletadas acima da floresta encontraram fungos e bactérias, enquanto novos estudos mostram que gotículas podem sustentar vida ativa.
No alto da floresta amazônica, a neblina da manhã carrega uma comunidade microscópica que começa a mudar a forma como os cientistas enxergam a atmosfera. Em 13 eventos de coleta realizados no topo do Amazon Tall Tower Observatory, pesquisadores identificaram mais de uma dúzia de espécies de fungos e bactérias nas gotículas suspensas sobre a mata.
O resultado não prova que todos esses organismos desempenham na neblina as mesmas funções que exercem no solo ou nas plantas. Mas indica que as gotas podem funcionar como pequenos habitats temporários, com água, proteção contra a radiação solar e compostos químicos disponíveis para o metabolismo microbiano.
Leia também
Leonardo DiCaprio pagou R$ 8,9 milhões por ilha de 42 hectares no Caribe, mas não para morar: plano é recuperar manguezais e vida marinha
O chão rachado espalhou poeira pelo Texas por 70 anos, até as marés voltarem e peixes, crustáceos e milhares de aves retomarem o pantanal
Zuckerberg pagou R$ 20 milhões para salvar do concreto este paraíso no Havaí onde peixes vivem entre pedras erguidas há 600 anosUma floresta microscópica acima das árvores
O observatório usado na pesquisa fica em uma torre instalada na Amazônia e alcança aproximadamente a altura da Torre Eiffel. Para obter as amostras, os pesquisadores subiram até o topo da estrutura e recolheram água de neblina formada nas primeiras horas do dia, quando a umidade permanece concentrada sobre o dossel da floresta.
Dentro das amostras, foram encontrados microrganismos conhecidos por participar da ciclagem de nutrientes e da decomposição de matéria orgânica em ambientes convencionais. A pesquisa, porém, não confirmou se eles realizavam essas mesmas atividades dentro das gotículas. Essa diferença é importante: identificar um organismo em um ambiente não significa, por si só, comprovar que ele está crescendo ou transformando a química daquele local.
Segundo estudo publicado em 2026 na revista Communications Earth & Environment, pesquisadores identificaram fungos e bactérias em amostras de neblina coletadas no topo da floresta amazônica durante 13 eventos.
Quando a gota deixa de ser apenas transporte
Durante muito tempo, a neblina foi tratada principalmente como uma fonte de umidade para áreas secas ou como um meio de transporte para nutrientes e partículas microscópicas. A hipótese mais recente acrescenta uma possibilidade: os microrganismos podem permanecer ativos enquanto estão no ar.
Um estudo realizado com água de neblina coletada na Pensilvânia encontrou bactérias consumindo compostos simples de carbono dentro das gotículas. Os pesquisadores também observaram um número maior de bactérias depois dos episódios de neblina do que antes deles, um padrão compatível com crescimento microbiano.
A pesquisa foi publicada na revista Environmental Microbiology e analisou organismos conhecidos por viver em plantas e no solo. Algumas das bactérias têm coloração rosa ou vermelha, pigmentos que podem ajudar na proteção contra a radiação luminosa. Elas também conseguem metabolizar formaldeído, uma capacidade considerada incomum porque envolve o processamento de uma molécula com apenas um átomo de carbono.
Leia o estudo sobre bactérias que consomem compostos simples de carbono na neblina.
Microhabitats que nascem e desaparecem
A diferença entre transporte e habitat muda o peso ecológico da neblina. Se os microrganismos apenas fossem carregados pelo vento, as gotas funcionariam como veículos. Se também crescem e transformam substâncias, ainda que lentamente, a atmosfera passa a ser um ambiente de vida com processos próprios.
Esses habitats são instáveis. A neblina se forma, se desloca e desaparece em períodos curtos, o que dificulta acompanhar a trajetória dos organismos. Ao contrário de uma planta ou de um animal, uma bactéria não pode ser marcada com facilidade para que os pesquisadores sigam seus movimentos entre diferentes massas de ar.
Pesquisas anteriores já haviam rastreado microrganismos oceânicos em neblina sobre a costa da Namíbia e do Maine. O trabalho amazônico amplia esse campo para uma região de floresta tropical, onde a atmosfera mantém uma relação intensa com a vegetação, a umidade e a circulação de compostos orgânicos.
Consulte a pesquisa sobre microrganismos oceânicos encontrados na neblina costeira.
Por que a descoberta importa para a Amazônia
A Amazônia não é apenas o cenário onde o fenômeno foi observado. A floresta libera vapor d’água, partículas e compostos orgânicos que influenciam a formação das nuvens e da neblina. Por isso, a presença de fungos e bactérias nas gotas pode ajudar a investigar como a vida participa das reações químicas que ocorrem entre a copa das árvores e a atmosfera.
O impacto potencial alcança os nove estados da Amazônia Legal, embora o estudo citado tenha sido feito em uma área específica de floresta e não permita generalizar os resultados para toda a região. Em locais como Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, diferenças de altitude, cobertura vegetal, estação do ano e pressão humana podem alterar a composição da neblina.
Também há uma conexão prática com ambientes urbanos e rurais. A atmosfera recebe partículas vindas da vegetação, do solo, de queimadas e de atividades humanas. Entender quais microrganismos sobrevivem nas gotículas e quais compostos conseguem consumir pode ajudar a separar processos naturais de mudanças provocadas por poluição ou perda de cobertura florestal.
O que ainda precisa ser comprovado
A presença de organismos nas amostras amazônicas é um primeiro passo, não uma descrição completa de um ecossistema. Os pesquisadores ainda precisam determinar quanto tempo esses microrganismos permanecem ativos, se conseguem se reproduzir nas gotas e como alteram a composição química da atmosfera.
Outra questão é saber se as espécies identificadas são residentes temporárias da neblina ou se foram levadas da floresta para o ar. A resposta pode variar conforme o tamanho das gotas, a intensidade dos ventos, a disponibilidade de nutrientes e a duração do fenômeno.
Na pesquisa da Pensilvânia, o consumo de formaldeído forneceu um indício mais direto de atividade metabólica. Na Amazônia, os organismos encontrados são associados à decomposição e à ciclagem de nutrientes, mas essa função ainda não foi demonstrada dentro da neblina. Novas coletas deverão esclarecer se a floresta suspensa nas gotas é apenas uma passagem ou uma etapa relevante do ciclo da vida amazônica.
Os estudos sobre microbiologia da neblina, incluindo a pesquisa amazônica publicada em 2026, devem avançar com novas amostras e observações em diferentes períodos do ano.
Com informações de Scientific American.
Gostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














