
Na extremidade oeste da Amazônia brasileira, onde a floresta ainda impõe silêncio e distância como regras básicas, um som incomum rompeu o padrão conhecido da vida selvagem. Foi esse canto, metálico e prolongado, ecoando pelas encostas da Serra do Divisor, no Acre, que levou cientistas a identificar uma nova espécie de ave. Batizada de sururina-da-serra, ou Tinamus resonans, ela surge como um lembrete poderoso de quanto a Amazônia ainda guarda de desconhecido — e de quão frágeis são seus refúgios mais preservados.
A descoberta ocorreu quase por acaso, durante uma expedição científica ao Parque Nacional da Serra do Divisor, uma das unidades de conservação mais isoladas do país. O episódio reforça uma ideia recorrente entre pesquisadores e povos indígenas da região: enquanto grandes áreas da floresta seguem ameaçadas por projetos de infraestrutura e mudanças legais, espécies inteiras permanecem invisíveis à ciência, sobrevivendo em equilíbrios delicados.
Um canto que não se parecia com nenhum outro
No final de uma tarde de 2021, após horas de deslocamento de barco por rios sinuosos, o biólogo e ilustrador Fernando Igor de Godoy decidiu fazer uma breve observação de aves antes do anoitecer. Foi então que ouviu um som que não conseguia associar a nenhuma espécie conhecida. Longo, agudo e ressonante, o canto parecia atravessar a mata de forma quase hipnótica.
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Como a revolta da Cabanagem no Pará, em 1835, mobilizou a maior coalizão de caboclos indígenas e negros e mudou a história do BrasilGodoy gravou o áudio naquele momento, sem saber que estava registrando o primeiro indício de uma nova espécie. Posteriormente, o som chamou a atenção de outros especialistas em aves amazônicas. Entre eles, o biólogo Luís Morais, que conseguiu fotografar e filmar o animal, confirmando que não se tratava de uma variação de espécies já catalogadas.
Descrita cientificamente como Tinamus resonans, a sururina-da-serra integra a família dos tinamídeos, que inclui inhambus, macucos e perdizes. Diferentemente do que costuma ocorrer em descobertas recentes, não se trata de uma separação genética sutil, mas de uma ave com plumagem, comportamento e vocalização próprios. Seu corpo mede cerca de 30 centímetros e pesa pouco mais de 300 gramas, com coloração singular que combina tons de cinza-ardósia, castanho-avermelhado e marrom uniforme.
Um mundo restrito às montanhas da floresta
Até o momento, a sururina-da-serra só foi registrada em uma estreita faixa altitudinal da Serra do Divisor, entre 310 e 435 metros acima do nível do mar. Essa limitação espacial extrema faz com que sua população estimada, em torno de 2.100 indivíduos, esteja concentrada em um ambiente muito específico, formado por florestas úmidas, solos rasos e raízes expostas.
O isolamento geográfico ajudou a moldar seu comportamento. A ave demonstra pouca resistência à aproximação humana, um traço comum em regiões onde a caça é rara e grandes predadores são escassos. Esse comportamento, embora curioso, também acende um alerta. Espécies dóceis costumam ser as primeiras a desaparecer quando estradas, caçadores e animais domésticos chegam a áreas antes inacessíveis.
Por isso, apesar do apelido informal de “dodô brasileiro”, a comparação funciona mais como advertência do que como analogia científica. O dodô, extinto no século XVII, também habitava um ambiente isolado e não desenvolveu mecanismos de defesa frente à ação humana.

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Um parque preservado, mas cercado de pressões
Com cerca de 837 mil hectares, o Parque Nacional da Serra do Divisor é administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Trata-se de uma das áreas mais bem conservadas da Amazônia brasileira, abrigando centenas de espécies de plantas e animais, incluindo onças-pintadas, uacaris, botos e uma impressionante diversidade de aves.
Apesar disso, o parque enfrenta pressões constantes. Projetos antigos de infraestrutura, como a estrada binacional entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa, no Peru, continuam sendo debatidos em instâncias governamentais do Brasil e do país vizinho. A obra, que atravessaria áreas protegidas e terras indígenas, encontra-se com licenciamento ambiental suspenso por decisões da Justiça Federal.
Além das estradas, propostas para rebaixar o status do parque para Área de Proteção Ambiental preocupam pesquisadores e comunidades locais. Uma mudança desse tipo permitiria atividades como mineração, exploração madeireira e expansão agropecuária, alterando profundamente o equilíbrio ecológico da região.
Lideranças indígenas, como Francisco Piyãko, do povo Ashaninka e integrante da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá, alertam que esses projetos trazem riscos sociais e ambientais severos, incluindo o avanço da criminalidade transfronteiriça e o enfraquecimento das formas tradicionais de proteção do território.
Clima, fogo e o futuro de uma espécie recém-descoberta
Além das ameaças diretas, a sururina-da-serra enfrenta um risco silencioso: a crise climática. Espécies que vivem em faixas altitudinais restritas têm pouca margem de adaptação ao aumento da temperatura. Como já ocupam os pontos mais altos disponíveis, não conseguem “subir” em busca de condições mais amenas.
Incêndios florestais, cada vez mais frequentes na Amazônia, representam outro perigo real. Um único evento de grande proporção poderia comprometer uma parcela significativa do habitat da espécie. Por enquanto, a sururina-da-serra ainda não possui uma categoria oficial de ameaça, mas especialistas avaliam que ela provavelmente será classificada como espécie ameaçada em futuras análises.
Para os cientistas envolvidos, a descoberta vai além da descrição de uma nova ave. Ela revela o quanto a Serra do Divisor permanece pouco estudada e reforça a importância das unidades de conservação como barreiras contra a perda acelerada da biodiversidade.
Como lembram lideranças indígenas da região, muitas dessas espécies já são conhecidas há gerações pelos povos da floresta. O desafio, agora, é garantir que esse conhecimento ancestral e científico se encontre com políticas públicas capazes de manter a floresta em pé — e seus cantos vivos.
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