
Acordo entre a Rutgers e a Atlantic Aqua Farms amplia o acesso de produtores canadenses a sementes selecionadas.
Mais de 60 produtores de ostras de Prince Edward Island e New Brunswick, no Canadá, passaram a contar com uma nova alternativa para enfrentar a crise sanitária que atinge os cultivos locais desde 2024. A Atlantic Aqua Farms começou a importar e produzir sementes de ostras desenvolvidas pela Rutgers University, nos Estados Unidos, em um acordo de licenciamento que permite distribuir o material a criadores e hatcheries canadenses.
A iniciativa combina seleção genética, produção de sementes triploides e resistência a doenças que atingem os moluscos em diferentes fases do cultivo. A expectativa é que os próximos cruzamentos aproximem as linhagens desenvolvidas pela Rutgers das populações locais do Canadá, criando animais capazes de resistir simultaneamente a MSX, Dermo e à doença de Malpeque.
Uma demanda que ultrapassou a capacidade das fazendas
A procura pelo material genético cresceu rapidamente. Depois que uma reportagem da CBC News mostrou os efeitos das doenças sobre os produtores, a Atlantic Aqua Farms recebeu pedidos de mais de 50 milhões de sementes desenvolvidas com as linhagens da Rutgers. A empresa reorganizou a produção de seus hatcheries e exportou mais de 100 milhões de sementes para Prince Edward Island e New Brunswick.
Mesmo com esse aumento, o volume produzido não foi suficiente para atender todos os produtores interessados nas duas províncias. Para a temporada de 2026, a empresa concluiu a produção e a importação de sementes triploides obtidas a partir de matrizes da Rutgers e do estado do Maine.
Segundo a Rutgers University, sementes de ostras triploides produzidas com matrizes Rutgers Haskin NEH e do Maine foram importadas e distribuídas no Canadá durante a temporada de 2026, em resposta à crise de MSX e Dermo iniciada em 2024.
Como a tecnologia funciona no cultivo
O acordo foi assinado entre a Rutgers University e a Atlantic Aqua Farms, empresa sediada em Prince Edward Island que opera hatcheries, viveiros e áreas de engorda no Canadá e nos Estados Unidos. A licença concede à companhia o direito de distribuir no Canadá matrizes desenvolvidas pelo programa de genética e melhoramento de moluscos da Rutgers.
Matrizes, ou broodstock, são ostras adultas usadas para produzir novas sementes. Essas sementes são criadas pelos produtores até atingirem o tamanho comercial. A estratégia permite levar características selecionadas de uma geração para outra, em vez de depender apenas da resistência natural encontrada nas populações locais.
O trabalho é liderado por Ximing Guo, professor da Escola de Ciências Ambientais e Biológicas da Rutgers e diretor do programa de genética e melhoramento de moluscos da universidade desde 1998. As matrizes desenvolvidas pela equipe já representam mais de 90% das sementes de ostras utilizadas no Maine, estado norte-americano que faz fronteira com o Canadá e apresenta condições ambientais semelhantes.
Três doenças estão no centro dos cruzamentos
A previsão da Atlantic Aqua Farms é cruzar as ostras resistentes da Rutgers com animais locais de Prince Edward Island. O objetivo é combinar resistência à MSX e à Dermo, características associadas às linhagens norte-americanas, com a resistência à doença de Malpeque, endêmica no Atlântico canadense.
Os primeiros animais desenvolvidos com matrizes da Rutgers e do Maine tiveram desempenho considerado positivo pela empresa. O próximo passo será acompanhar o comportamento das sementes geradas pelo cruzamento entre as ostras Rutgers Haskin NEH e exemplares de Prince Edward Island. Essa avaliação está prevista para 2027, quando será possível medir a sobrevivência e o crescimento dos animais em condições locais.
A escolha por sementes triploides acrescenta outra característica de interesse comercial. Elas têm três conjuntos de cromossomos, são estéreis e não direcionam energia para a reprodução. Por isso, tendem a crescer mais rapidamente e a manter melhor a qualidade da carne durante o verão. Segundo a Rutgers, ostras triploides já representam mais de 50% das ostras cultivadas no mundo.
Pesquisa iniciada há décadas chegou à produção comercial
A base científica do projeto foi construída ao longo de décadas. Em 1993, Ximing Guo e Standish Allen, pesquisadores do laboratório Haskin Shellfish Research Laboratory, da Rutgers, desenvolveram ostras tetraploides, com quatro conjuntos de cromossomos. O cruzamento dessas ostras com animais comuns permite produzir triploides em escala comercial.
O programa também participou de pesquisas sobre o genoma das ostras. A equipe identificou os genes de diferentes espécies e concluiu que esses animais têm cerca de 50% mais genes do que os seres humanos, além de uma variabilidade genética aproximadamente dez vezes maior. Essa diversidade ajuda as ostras a se adaptarem às mudanças nos estuários, mas também torna a espécie sensível à consanguinidade, fator que passou a orientar as estratégias de melhoramento.
Além do valor econômico, a criação de ostras tem efeitos ambientais relevantes. Os moluscos filtram a água, podem contribuir para a melhoria da qualidade dos ambientes costeiros e formam estruturas que servem de abrigo para outras espécies. O cultivo também não exige ração, pesticidas, fertilizantes, água doce ou conversão de áreas terrestres.
O peso econômico da ostra no Atlântico canadense
Em 2023, a produção canadense de ostras chegou a cerca de 15 mil toneladas, com valor superior a 66 milhões de dólares canadenses, aproximadamente 46,59 milhões de dólares americanos. O resultado ajuda a dimensionar por que surtos de doenças afetam não apenas fazendas individuais, mas também hatcheries, fornecedores de sementes, trabalhadores e comunidades costeiras.
Para leitores da Amazônia, o caso canadense oferece uma referência sobre como a genética pode ser usada na aquicultura de espécies estuarinas. Estados como Amapá e Pará reúnem extensas áreas de influência costeira e estuarina, mas a aplicação de linhagens desenvolvidas em outro país não é automática. Temperatura, salinidade, doenças presentes e características das populações locais precisam ser avaliadas antes de qualquer transferência tecnológica.
A experiência também mostra que a resistência a doenças não resolve sozinha os desafios da produção. É necessário combinar monitoramento sanitário, seleção genética, controle nos hatcheries e acompanhamento do desempenho dos animais no ambiente de cultivo.
O licenciamento foi conduzido pelo Technology Transfer da Rutgers Office for Research, unidade responsável por proteger e levar ao mercado as tecnologias desenvolvidas na universidade. A Atlantic Aqua Farms seguirá avaliando os primeiros lotes no Canadá, enquanto os resultados dos cruzamentos com ostras de Prince Edward Island devem começar a ser analisados em 2027.
Com informações de Rutgers University.
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