Ouvidos de 10 espécies de tubarão revelam formas variadas, e a evolução pode pesar mais que o habitat

Ouvidos de 10 espécies de tubarão revelam formas variadas, e a evolução pode pesar mais que o habitat
Foto: acervo

Imagens em 3D indicam que a anatomia do ouvido interno acompanha mais a história evolutiva do que dieta e profundidade.

O ouvido interno dos tubarões não segue um único desenho, mesmo entre animais que vivem em ambientes semelhantes ou comem tipos parecidos de alimento. Essa foi a principal conclusão de uma pesquisa que examinou, em três dimensões, a anatomia de 10 espécies, usando imagens de tomografia computadorizada e exemplares preservados em coleções de história natural.

O estudo foi conduzido por Kaci Dodd, Isamar Lopez-Argueta e Allison Bronson, da Cal Poly Humboldt, nos Estados Unidos. Publicado na revista científica The Anatomical Record, o trabalho analisou estruturas internas da cabeça de tubarões muito diferentes entre si, de predadores de emboscada a espécies de águas profundas.

Uma anatomia escondida dentro da cabeça

O ouvido interno tem duas funções centrais para os tubarões. Ele participa da percepção dos sons e também ajuda o animal a identificar sua posição e manter o equilíbrio na água. Como fica protegido dentro do crânio, seu formato é difícil de observar sem danificar o espécime.

Para contornar esse problema, os pesquisadores recorreram à tomografia computadorizada. O método produz uma sequência de imagens em tons de cinza, que pode ser processada no computador para separar ossos, cavidades e tecidos. Na prática, a equipe fez uma espécie de dissecação digital das cabeças, reconstruindo os ouvidos internos em três dimensões.

Segundo a Cal Poly Humboldt, um estudo publicado em 2 de outubro de 2026 examinou os ouvidos internos de 10 espécies de tubarão para investigar como a estrutura varia entre diferentes linhagens.

O que os pesquisadores esperavam encontrar

A hipótese inicial era que o ambiente tivesse papel decisivo na anatomia. Um tubarão que vive em grande profundidade, por exemplo, poderia apresentar um ouvido interno adaptado às condições desse local. Da mesma forma, espécies com dietas semelhantes poderiam compartilhar estruturas relacionadas à percepção de presas.

A amostra reuniu animais com estilos de vida bastante distintos. Entre eles estavam pequenos tubarões-lanterna bioluminescentes, tubarões-charuto de águas profundas, o tubarão-cobra, de aparência ancestral, além do tubarão-anjo, que tem corpo achatado e costuma atacar de surpresa. Também foram incluídas espécies de seis e sete guelras.

Essa variedade permitiu comparar animais que ocupam habitats diferentes, mas também espécies que enfrentam condições ecológicas parecidas. O resultado contrariou parte da expectativa da equipe: tubarões com dietas e ambientes semelhantes podiam apresentar formatos bastante diferentes no ouvido interno.

A pista deixada pela árvore evolutiva

O padrão observado sugere que a forma do ouvido interno pode estar mais ligada ao parentesco entre as espécies do que às pressões imediatas do ambiente. Em outras palavras, tubarões evolutivamente próximos tenderiam a conservar características anatômicas parecidas, ainda que tenham seguido caminhos diferentes na ocupação do oceano.

Isso não prova que o habitat ou a alimentação não influenciem o sistema sensorial. O resultado indica, porém, que esses fatores não explicam sozinhos a diversidade encontrada. Os autores levantam a hipótese de que a história evolutiva tenha deixado uma marca mais forte na estrutura do órgão.

Ouvidos de 10 espécies de tubarão revelam formas variadas, e a evolução pode pesar mais que o habitat
Foto: Photo courtesy of Cal Poly Humboldt

A descoberta também amplia o uso da anatomia interna para estudar a evolução dos tubarões. Em vez de observar apenas dentes, formato do corpo ou esqueleto, os cientistas podem comparar detalhes de órgãos sensoriais preservados dentro do crânio.

Seis anos de trabalho com coleções científicas

A pesquisa faz parte de um projeto mais amplo iniciado há seis anos no laboratório de Allison Bronson. O grupo vem documentando a anatomia do ouvido interno de todos os grupos vivos de tubarões e raias, reunindo materiais de coleções mantidas por museus e instituições de diferentes países.

O trabalho depende de muitas horas diante das imagens digitais. Bronson compara o processo a um livro de colorir para adultos, porque os pesquisadores precisam identificar e delimitar estruturas em cada corte tomográfico antes de montar o modelo tridimensional.

Até agora, 15 estudantes de graduação participaram do projeto. A iniciativa também conta com apoio financeiro da National Science Foundation e usa dados públicos de exemplares científicos, incluindo informações disponíveis no banco de dados da Coleção de Peixes da Cal Poly Humboldt.

Por que isso interessa à biodiversidade amazônica

O estudo não analisou diretamente tubarões da costa brasileira nem apresenta uma conclusão específica sobre espécies do litoral amazônico. Ainda assim, o método tem utilidade para a pesquisa da biodiversidade marinha associada à foz do Amazonas e ao litoral do Amapá e do Pará, áreas influenciadas por grandes aportes de sedimentos e por diferentes condições ambientais.

Para os estados amazônicos sem litoral, como Acre, Amazonas, Mato Grosso, Rondônia, Roraima e Tocantins, a conexão é indireta. O trabalho mostra como coleções científicas, inclusive exemplares que não podem ser reexaminados facilmente em campo, podem ser transformadas em fontes de dados anatômicos por meio de tecnologias não destrutivas.

Esse tipo de abordagem também pode apoiar comparações futuras entre tubarões marinhos, raias e outros peixes cartilaginosos encontrados na região costeira. Antes de qualquer aplicação, no entanto, seria necessário analisar as espécies locais e testar se o mesmo padrão de conservação evolutiva aparece nelas.

O que ainda precisa ser investigado

A pesquisa oferece uma pista, não uma explicação completa para a diversidade dos ouvidos internos. A amostra inclui 10 espécies, enquanto o grupo dos tubarões reúne muitas outras linhagens, com histórias evolutivas e formas de vida variadas.

Os próximos estudos poderão ampliar o número de espécies analisadas, combinar os modelos anatômicos com dados genéticos e medir com mais precisão como cada formato se relaciona à audição, ao equilíbrio e à movimentação na água. A coleção atualizada de modelos também pode ser consultada na plataforma Sketchfab.

Com a expansão do projeto e a inclusão de novas espécies de tubarões e raias, os pesquisadores deverão testar se a relação entre anatomia e parentesco se mantém em uma amostra mais ampla.

Com informações de Cal Poly Humboldt.

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