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Petrobras confirma petróleo na costa do Amapá e reacende a disputa da Foz do Amazonas

Petrobras encontra hidrocarbonetos em águas do Amapá
Foto: agencia.petrobras.com.br

A Petrobras confirmou que existe petróleo debaixo do mar do Amapá. A presidente da estatal, Magda Chambriard, afirmou nesta segunda-feira (17) que a empresa está “extremamente otimista” com os resultados do poço pioneiro Morpho, perfurado na Bacia da Foz do Amazonas, e que a perfuração deve ser concluída em cerca de 15 dias.

O anúncio recoloca a Margem Equatorial no centro do debate brasileiro sobre clima, dinheiro e futuro. De um lado, a promessa de uma nova fronteira energética capaz de sustentar a produção nacional por décadas. De outro, a pergunta que a Amazônia repete há três anos, quem paga a conta se algo der errado na foz do maior rio do planeta.

O que a Petrobras encontrou a 175 quilômetros da costa

O poço Morpho fica a cerca de 175 quilômetros da costa amapaense, em águas profundas. Segundo a estatal, a sonda ainda precisa avançar aproximadamente 2 mil metros para atingir o fundo do reservatório, informação dada pela diretora de Exploração e Produção, Sylvia Anjos.

Concluída a perfuração, começa a etapa de delimitação, quando os técnicos medem a extensão da descoberta e calculam quanto óleo pode, de fato, ser retirado dali.

“Tudo indica que vai ser bom o resultado das novas descobertas. No poço, nós estamos extremamente otimistas. Tem petróleo, tem descoberta. Ainda não sabemos quanto”, declarou Magda Chambriard. “Vamos continuar investindo, explorando, e o futuro vai dizer quanto o Amapá pode nos oferecer.”

A empresa aguarda licenças para furar outros três poços no mesmo bloco exploratório e já mapeou cinco áreas adicionais para novas perfurações na Margem Equatorial.

Um milhão de dólares por dia no fundo do mar

A operação custa caro. A executiva e a diretora de Engenharia, Tecnologia e Inovação, Renata Baruzzi, detalharam que a perfuração do Morpho consome US$ 1 milhão por dia, algo em torno de R$ 5,2 milhões diários.

Em termos práticos, é como se a estatal enterrasse aproximadamente R$ 3,6 mil por minuto no leito oceânico, sem qualquer garantia prévia de retorno.

Até agora, o investimento acumulado no poço chega a cerca de US$ 300 milhões, o equivalente a R$ 1,56 bilhão.

“Nós temos sequência de estudos até declarar descoberta comercial. Mas temos certeza de que podemos ser otimistas”, afirmou a presidente da Petrobras.

A corrida contra o esgotamento do pré-sal

O argumento técnico da estatal para insistir na região tem prazo de validade escrito nele. O pré-sal, que sustenta a produção brasileira hoje, vai chegar ao topo e começar a cair.

“Hoje, nós produzimos 80% do petróleo do Brasil no pré-sal. Esse pré-sal vai ter um pico de produção mais ou menos em torno de 2034, 2035 e, a partir daí, nós precisamos repor reservas para que a gente não perca a posição de um dos dez maiores produtores de petróleo do planeta”, disse Magda Chambriard.

O Brasil ocupa atualmente a sétima posição entre os maiores produtores globais. A executiva alertou que, sem expansão da exploração e reposição de reservas, o país corre o risco de voltar à condição de importador de petróleo.

A identificação de hidrocarbonetos no bloco FZA-M-59, segundo a Petrobras, abre justamente essa possibilidade de reposição energética.

Entenda a disputa da Foz do Amazonas

Em maio de 2023, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) negou a licença para a Petrobras perfurar o poço exploratório no bloco FZA-M-59. A decisão transformou a Margem Equatorial em uma das maiores disputas ambientais e políticas do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Em 2025, o órgão ambiental concedeu a autorização. No início de janeiro deste ano, porém, houve vazamento de fluido de perfuração em duas linhas auxiliares da sonda.

A estatal estimou a perda em cerca de 15 mil litros do fluido usado na própria operação, volume próximo ao de um caminhão-pipa e meio. As atividades foram interrompidas, as linhas passaram por reparo e a perfuração foi retomada em seguida.

O que a estatal responde sobre o risco ambiental

Magda Chambriard afirmou que o esforço exploratório não é feito a qualquer custo e destacou o histórico operacional da companhia.

“Na fase exploratória operada pela Petrobras, nunca tivemos um acidente. Nem no pré-sal, nem no pós-sal, nem em terra”, declarou.

Ela sustentou ainda que o projeto na região conta com o “maior plano de emergência individual já implementado em águas profundas no mundo”.

Parte dessa estrutura é o Centro de Apoio à Fauna, com unidades em Oiapoque e em Belém, equipadas com biólogos e protocolos específicos para resgate e proteção de animais atingidos em caso de acidente.

Para ambientalistas e pesquisadores que acompanham a bacia, o ponto sensível continua sendo outro. A foz do Amazonas abriga corais de águas profundas, manguezais extensos e uma pesca artesanal que sustenta milhares de famílias no Amapá e no Pará.

Soberania e geopolítica no discurso de Oiapoque

O anúncio ganhou palanque. A declaração de Magda Chambriard foi dada em entrevista coletiva em Oiapoque, município amapaense na fronteira com a Guiana Francesa, durante visita do presidente Lula ao navio-sonda ODN II, responsável pela descoberta.

Lula reforçou que a confirmação de petróleo tem implicações geopolíticas. “O que está em jogo são os interesses do Brasil e da Petrobras”, declarou.

O presidente também usou a distância como argumento ambiental. “E fico sabendo que a distância é mais de 500 quilômetros da Foz do Amazonas”, disse, repetindo um número que o governo tem empregado para afastar a operação da área de maior sensibilidade ecológica.

Ele relatou ter defendido o anúncio da prospecção antes da COP 30, realizada em novembro de 2025, em Belém, mesmo sabendo que países europeus ficariam incomodados com a incompatibilidade entre a nova fronteira fóssil e a pauta climática.

“Não estou negando minha luta para que um dia a gente não precise de combustível fóssil”, afirmou. Para o presidente, a Margem Equatorial é “um passaporte para o futuro desse país”.

Alcolumbre e o cálculo político do Amapá

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), visitou o navio-sonda e creditou a Lula a liderança na “proteção da soberania nacional”.

“Em nome do povo amapaense, em nome deste pedaço de chão do Brasil, no extremo Norte do Brasil, novamente, nossos agradecimentos por enfrentarmos este desafio tendo sob a sua liderança a proteção da defesa da economia nacional”, disse o senador.

Alcolumbre reforçou o peso da arrecadação do setor petrolífero e afirmou que a riqueza gerada pelo insumo “transforma a vida das pessoas”. Até o momento, ele não declarou apoio direto à reeleição do presidente.

Refinarias, privatização e a memória do pré-sal

Na mesma agenda no Amapá, Lula voltou a criticar as privatizações no setor de combustíveis e falou em recomprar ativos.

“Eu ainda sonho em comprar de volta a refinaria que eles privatizaram. Eu queria que alguém me explicasse o que o povo brasileiro ganhou com a privatização da BR, com a refinaria da Bahia, com a refinaria do Amazonas”, questionou.

A crítica mira a venda da BR Distribuidora, antiga subsidiária da Petrobras, hoje Vibra, realizada no governo de Jair Bolsonaro. Por cláusula contratual, a estatal não pode concorrer com a empresa até 2029, e o governo tem reiterado que respeitará o contrato.

Em março, o ex-ministro da Casa Civil Rui Costa reconheceu a possibilidade de retorno da atuação estatal na distribuição de combustíveis, ainda em fase preliminar de discussão.

A conta que a Amazônia vai fazer

Para o Amapá, o petróleo aparece como promessa de royalties, empregos e infraestrutura em um dos estados com menor arrecadação do país. Para o Pará vizinho, que sediou a COP 30 e vendeu ao mundo a imagem de capital climática, a equação é mais desconfortável.

A região que discutiu bioeconomia, saberes ancestrais e crise climática diante de delegações de quase 200 países agora divide o mapa com uma fronteira de exploração fóssil a poucas centenas de quilômetros da costa.

Os próximos 15 dias vão dizer o tamanho do reservatório. O que eles não vão responder é quanto a floresta, o mangue e as comunidades pesqueiras estão dispostos a apostar em um óleo que só começaria a ser produzido perto do momento em que o mundo prometeu parar de queimá-lo.

Quanto vale, para a Amazônia, um barril que chega justamente quando o planeta combinou de virar a página?

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