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Em quatro territórios amazônicos, projetos reativam vigilância, formam lideranças e qualificam denúncias

Em quatro territórios amazônicos, projetos reativam vigilância, formam lideranças e qualificam denúncias
Foto: acervo

Iniciativas apoiadas pelo Fundo LIRA fortalecem organizações indígenas em áreas protegidas de três estados da Amazônia.

Equipes de vigilância territorial durante atividade de monitoramento na Terra Indígena Nukini, no Acre
Equipes de vigilância territorial durante atividade de monitoramento na Terra Indígena Nukini, no Acre. Foto: Acervo VACA VISU.

Equipes indígenas voltaram a percorrer territórios, ampliaram missões de monitoramento e passaram a produzir mapas, fotografias e registros georreferenciados para denunciar invasões na Amazônia. As ações ocorrem em quatro frentes apoiadas pelo Fundo LIRA, do IPÊ, nas Terras Indígenas Boca do Acre, no Amazonas, Nukini, no Acre, e Trincheira Bacajá, no Pará, além de uma rede formada no sul do Amazonas para preparar novas lideranças e fortalecer a gestão territorial.

Vigilância volta a ser conduzida pelas comunidades

Na Terra Indígena Boca do Acre, no sul do Amazonas, a Associação Indígena Apurinã Mayônaty reativou equipes de vigilância que já contavam com agentes ambientais formados, mas estavam inativas por falta de recursos e equipamentos. A retomada permitiu que os profissionais voltassem a acompanhar ocorrências e registrar ameaças no território.

Cortada pela BR-317, a terra indígena convive com a entrada frequente de caçadores, pescadores e madeireiros. O projeto reorganizou as equipes, forneceu equipamentos e capacitou jovens em fotografia, produção de vídeos e georreferenciamento. Os registros passaram a apoiar denúncias encaminhadas aos órgãos competentes.

“A associação tinha agentes ambientais formados, mas eles estavam inativos porque não havia recursos nem equipamentos. A gente estava esquecido. Com o projeto surgiu a oportunidade de ativar esses agentes para fazer o monitoramento e acompanhar as ações predatórias que acontecem no território”, afirma Joemisson Apurinã, secretário executivo da Associação Indígena Apurinã Mayônaty.

Segundo a associação, a continuidade do trabalho também ampliou a cooperação com Ibama, Funai e ICMBio. A articulação é considerada importante para transformar os registros produzidos nas aldeias em informações capazes de embasar providências oficiais.

Equipamentos ampliam missões no Acre

Na Terra Indígena Nukini, no Acre, a vigilância territorial ocorre em uma região de fronteira com o Parque Nacional da Serra do Divisor. A área enfrenta ameaças relacionadas à caça, à pesca e à exploração ilegal de recursos naturais.

O projeto desenvolvido pela Associação do Povo Indígena Inū Kuī Vaka Visu do Rio Moa construiu bases de apoio, adquiriu embarcações e equipamentos de comunicação e organizou missões de monitoramento comunitário. As melhorias reduziram dificuldades logísticas que limitavam a permanência das equipes em campo.

“A gente já fazia esse trabalho, mas não tinha barco adequado, motor, comunicação nem lugar para pernoitar. Era muito difícil. Hoje as invasões diminuíram bastante. As pessoas sabem que existe vigilância e que a comunidade está organizada para proteger o território”, afirma Paulo Nukini, cacique da Aldeia Wakavi Sul.

A experiência mostra como a proteção territorial depende tanto do conhecimento tradicional quanto de condições materiais para realizar expedições. Em áreas extensas e com acesso predominantemente fluvial, embarcações, motores e comunicação podem definir a capacidade de resposta das comunidades.

Mapas transformam registros em denúncias qualificadas

Na Terra Indígena Trincheira Bacajá, no Pará, o trabalho apoiado pelo Fundo LIRA acrescentou uma dimensão técnica às ações de proteção. Além de monitorar o território, comunidades ligadas ao Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade Indígena Kayapó Mekrãgnoti, o IBKRIN, passaram a produzir mapas, pontos de GPS, fotografias e documentos para fundamentar denúncias.

A formação envolveu agentes ambientais, pesquisadores indígenas, profissionais de sistemas de informação geográfica, jovens e mulheres. O objetivo foi ampliar a autonomia da organização para reunir evidências, dialogar com órgãos públicos e acompanhar os encaminhamentos relacionados às ocorrências.

“Nossos anciãos sempre defenderam o território. Hoje, quando fazemos uma denúncia, também apresentamos mapas, pontos de GPS, fotografias e documentos. A gente aprendeu a qualificar as nossas denúncias”, afirma Potkro Ngren Kokote, presidenta do IBKRIN.

Entenda o caso

O Fundo LIRA é uma iniciativa do IPÊ que apoia projetos socioambientais em áreas protegidas. Atualmente, financia 53 projetos em 57 áreas protegidas distribuídas por sete estados da Amazônia Legal.

As ações combinam financiamento, formação institucional, gestão do conhecimento, inovação e articulação com políticas públicas. A proposta é fortalecer organizações de povos e comunidades tradicionais para que a proteção continue depois do encerramento de cada projeto.

Rede reúne associações do sul do Amazonas

Também no sul do Amazonas, a Organização dos Povos Indígenas do Alto Madeira, OPIAM, iniciou o trabalho com visitas às aldeias e escuta das associações indígenas. O processo resultou na criação da Rede Cuandu, que reúne cinco associações e promove formação continuada, intercâmbio entre comunidades e apoio à implementação de Protocolos de Consulta e Planos de Gestão Territorial e Ambiental.

A estratégia busca fazer com que comunidades com experiências diferentes compartilhem métodos, equipamentos e conhecimentos. Algumas associações já possuíam agentes ambientais, enquanto outras ainda precisavam criar suas primeiras equipes de monitoramento.

“A gente foi para o chão da aldeia, ouviu as associações e construiu o projeto junto com elas. Algumas já tinham agentes ambientais, outras não tinham nenhum. A ideia foi formar uma rede para que uma comunidade aprendesse com a outra”, afirma Cleiton Gajarui, da OPIAM.

Para a organização, a formação precisa acompanhar as mudanças nas leis e nos desafios enfrentados pelos territórios. A próxima etapa prevê um diagnóstico integrado, novas atividades de capacitação e o fortalecimento da gestão territorial realizada pelas próprias comunidades.

Legado está nas novas lideranças

As experiências apoiadas pelo Fundo LIRA apresentam resultados diferentes, mas têm um ponto comum: ampliam a capacidade das organizações indígenas de planejar, executar e registrar ações de proteção territorial. A formação de jovens e mulheres também cria condições para que o conhecimento permaneça nas comunidades.

“Cada projeto responde a uma realidade diferente, mas todos deixam organizações mais preparadas para conduzir a gestão de seus territórios. Quando novas lideranças passam a participar desse trabalho, esse conhecimento permanece nas comunidades e fortalece a proteção territorial no longo prazo”, afirma Neluce Soares, coordenadora do Fundo LIRA.

Segundo o IPÊ, os projetos apoiados pelo Fundo LIRA fortalecem a conservação da biodiversidade, a justiça climática e a consolidação de organizações locais em territórios amazônicos. As próximas ações incluem diagnósticos, formação continuada e novas articulações entre comunidades e órgãos públicos.

Perguntas frequentes

O que é o Fundo LIRA?

É uma iniciativa do IPÊ que apoia projetos de impacto socioambiental em áreas protegidas e fortalece organizações de povos e comunidades tradicionais.

Quais estados aparecem nas iniciativas?

Os projetos citados estão no Amazonas, no Acre e no Pará, estados que integram a Amazônia Legal.

Como a vigilância indígena ajuda na proteção territorial?

As equipes monitoram áreas, registram ocorrências e produzem evidências, como fotografias, mapas e coordenadas de GPS, que podem apoiar denúncias e ações dos órgãos competentes.

Com informações do IPÊ, Instituto de Pesquisas Ecológicas.

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