
Produtores familiares do Vale do Juruá adotam práticas sustentáveis, elevando produtividade sem abrir novas áreas de floresta.
A busca por uma produção agrícola mais sustentável, que gere renda sem pressionar a floresta, ganha força no Vale do Juruá, no Acre. Um projeto do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), com financiamento da União Europeia, está transformando a realidade de agricultores familiares, que descobriram na recuperação do solo uma alternativa eficaz ao desmatamento. A iniciativa não só melhora a terra para o plantio, mas também diversifica a produção e fortalece a economia local.
Aliedson Sampaio, coordenador de desenvolvimento territorial do IPAM e responsável pelo projeto de Recuperação Produtiva de Paisagens Resilientes no Estado do Acre, destaca que a proposta é “produzir mais sem desmatar” a partir da degradação já existente. O trabalho foca em valorizar o conhecimento local e garantir que as famílias rurais tenham maior segurança alimentar e financeira.
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O Vale do Juruá, apesar de sua distância dos grandes centros e desafios logísticos, apresenta o paradoxo de ter solos férteis e uma agricultura familiar organizada, mas com altos índices de desmatamento e queimadas, impulsionados pela carência de assistência técnica. Sampaio explica que essa combinação de fatores levou à criação do projeto, buscando unir a recuperação ambiental ao aumento da produtividade e à geração de renda, oferecendo uma solução integrada para a região.
O projeto demonstra que o produtor não precisa expandir suas áreas, desmatando novas porções de floresta, para aumentar a produção. Em vez disso, a estratégia é recuperar o que já está degradado, implantando Sistemas Agroflorestais (SAFs) e introduzindo culturas que geram renda em diferentes épocas do ano. Essa diversificação é crucial, especialmente para famílias que dependiam quase exclusivamente da mandioca, cuja renda era sazonal.
Transformação e exemplos práticos
A introdução de culturas como frutas, café, cacau ou melancia oferece múltiplas fontes de receita, reduzindo os riscos da atividade agrícola e aumentando a segurança econômica familiar. A mudança mais significativa, no entanto, foi a de mentalidade. “Hoje, muitos produtores entendem que recuperar uma área pode ser mais vantajoso do que abrir uma nova”, afirma Sampaio.
Eles perceberam que podem produzir perto de casa, com menos esforço e sem recorrer ao desmatamento e às queimadas. Essa nova percepção, segundo o IPAM, gera efeitos positivos como a redução da pressão sobre a floresta, diminuição das queimadas e melhoria da qualidade do solo, o que também minimiza os problemas de fumaça na época seca.
Entre os casos de sucesso, Sampaio cita o produtor Edberto, que, após análises de solo e orientações técnicas, aumentou sua produtividade de mandioca de 80 para cerca de 110 sacas de farinha por hectare. Outro agricultor conseguiu gerar aproximadamente R$4 mil em três meses apenas com o plantio de melancia em uma pequena área, ilustrando o potencial da diversificação.
Construindo confiança e escalonando o impacto
A confiança dos produtores foi um marco para o projeto. “A assistência técnica só funciona quando existe uma relação de confiança”, pondera Sampaio. À medida que os agricultores viram os resultados concretos, como maior produtividade e novas fontes de renda, passaram a acreditar na abordagem. Essa conexão transformou não só as propriedades, mas também a visão dos produtores sobre seu próprio futuro.
Aliedson Sampaio destaca que o projeto visa demonstrar que produzir sem desmatar não é apenas uma possibilidade teórica, mas uma realidade tangível. Ele enfatiza a importância de políticas públicas que considerem as particularidades locais e valorizem o conhecimento tradicional para o avanço da agricultura familiar na Amazônia.
Segundo o IPAM, o grande desafio é escalonar esse modelo de sucesso. Isso exige o fortalecimento de políticas públicas, melhoria da infraestrutura, ampliação da assistência técnica, facilitação do acesso ao crédito e criação de condições para agregar valor aos produtos da agricultura familiar. A articulação entre ciência e experiência dos produtores tem sido um diferencial, mostrando que os resultados são mais efetivos quando caminham juntos.
Qual o objetivo principal do projeto do IPAM no Acre?
O projeto visa recuperar áreas degradadas, aumentar a produtividade agrícola e gerar renda para agricultores familiares, combatendo o desmatamento no Vale do Juruá sem a necessidade de abrir novas áreas de floresta.
Como a diversificação de culturas contribui para os agricultores?
A diversificação de culturas oferece múltiplas fontes de receita ao longo do ano, diminui a dependência de um único produto (como a mandioca) e aumenta a segurança econômica das famílias, reduzindo os riscos associados à atividade agrícola.
Quais são os próximos passos para o projeto?
O principal desafio é escalar o modelo para mais agricultores, o que demanda fortalecimento de políticas públicas, melhoria da infraestrutura, ampliação da assistência técnica, acesso facilitado ao crédito e aprimoramento das cadeias produtivas locais.
Com informações de IPAM.
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