×
Próxima ▸
Fungos de solos da Caatinga resistem a 40 °C e…

Seis novas moscas da Amazônia estavam guardadas havia até 36 anos antes de serem reconhecidas

Seis novas moscas da Amazônia estavam guardadas havia até 36 anos antes de serem reconhecidas
Foto: acervo

Estudo do Museu Goeldi também ampliou a distribuição conhecida de outras seis espécies na região.

Uma mosca coletada em Manaus esperou 36 anos dentro de uma coleção científica até receber um nome e ser reconhecida como espécie nova. Ela é uma das seis espécies do gênero Dexosarcophaga descritas por pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi, da Universidade Federal do Pará e da Universidade Federal Rural da Amazônia em estudo publicado em julho no Journal of Medical Entomology.

O trabalho transforma exemplares antigos, guardados em gavetas e frascos de instituições brasileiras, em novos registros para a biodiversidade. Também mostra que uma parte relevante do conhecimento sobre a fauna amazônica ainda está escondida em acervos já formados, à espera de especialistas capazes de examiná-la.

Seis nomes para exemplares esquecidos nas coleções

As espécies foram batizadas com referências a pesquisadores, localidades amazônicas e à história pessoal de uma das cientistas. Dexosarcophaga akamai homenageia Alberto Akama, do Museu Goeldi, que liderou em 2016 uma expedição ao Cantão, na divisa entre Pará, Tocantins e Mato Grosso. O exemplar permaneceu dez anos na coleção entomológica do museu.

Dexosarcophaga gorayebi recebeu o nome de Inocêncio Gorayeb, pesquisador que participou da expedição à fazenda Ema, em Viseu, no Pará, em 2000. O espécime coletado naquele trabalho aguardou 26 anos até a descrição formal.

Outras duas espécies fazem referência a áreas protegidas. Dexosarcophaga ducke foi encontrada na Reserva Florestal Adolpho Ducke, em Manaus, e ficou 36 anos na coleção do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o Inpa. Já Dexosarcophaga mamiraua homenageia a Reserva Mamirauá, onde o exemplar foi coletado em 1993.

A lista inclui ainda Dexosarcophaga ribeirinha, capturada em 2010 sobre a lâmina d’água, às margens do rio Padauari, em Mamirauá. O sexto nome é Dexosarcophaga harin, uma homenagem a Paulo “Harin” Galvão, pai da pesquisadora Caroline Costa de Souza, falecido em 2023. O exemplar dessa espécie também foi coletado em Mamirauá, em 1993, e passou 33 anos na coleção do Museu Goeldi.

Seis novas moscas da Amazônia estavam guardadas havia até 36 anos antes de serem reconhecidas
Foto: Divulgação

Como uma mosca se torna uma espécie reconhecida

A identificação dependeu principalmente da morfologia, com atenção especial à genitália masculina. Em muitas espécies de moscas, o formato e a combinação de estruturas do edeago, órgão reprodutor localizado na extremidade do abdome, permitem separar grupos visualmente muito parecidos.

Para analisar essa região, os pesquisadores removeram a parte final do abdome e a aqueceram em ácido lático a 80%, procedimento usado para dissolver os tecidos moles. Depois, as estruturas foram dissecadas e montadas temporariamente em lâminas com glicerina. Ao final, foram preservadas em microfrascos com glicerol, junto dos exemplares originais montados em alfinetes.

“Se for fêmea, a gente não consegue identificar em um nível específico para a maioria dos grupos. Mas se for macho, a gente estica a genitália e olha o formato e outros detalhes da estrutura para poder chegar a uma identificação”, explicou Caroline de Souza.

As imagens das genitálias masculinas publicadas no estudo servem como referência para outros especialistas diferenciarem as seis espécies recém-descritas das demais do gênero Dexosarcophaga. O artigo científico completo está disponível na publicação do Journal of Medical Entomology.

O mapa amazônico ficou maior

Além das espécies novas, a pesquisa apresentou os primeiros registros amazônicos de outras seis espécies do mesmo gênero. A Dexosarcophaga angrensis, antes conhecida apenas na Mata Atlântica do Rio de Janeiro, foi localizada em Bragança, no Pará. A Dexosarcophaga petra, já registrada na Argentina, em Mato Grosso e no Rio de Janeiro, apareceu pela primeira vez na Serra dos Carajás.

No Amazonas, um exemplar de Dexosarcophaga rudicompages foi encontrado em Novo Aripuanã. Até então, a espécie tinha registros no Rio de Janeiro e no Panamá. Também em território amazonense, Manaus recebeu os primeiros registros brasileiros de Dexosarcophaga pallida e Dexosarcophaga wyatti, anteriormente descritas na Colômbia e na Guiana, respectivamente.

Seis novas moscas da Amazônia estavam guardadas havia até 36 anos antes de serem reconhecidas
Foto: Divulgação

O estudo ainda ampliou a distribuição de Dexosarcophaga globulosa na Amazônia brasileira. A espécie, já registrada no Pará, Amazonas e Roraima, foi encontrada pela primeira vez em Rio Branco, no Acre. Os dados conectam diferentes paisagens da região, de áreas de terra firme e reservas florestais a ambientes associados aos rios.

Por que essas moscas importam para a floresta

Embora sejam frequentemente associadas a ambientes urbanos e à decomposição, as moscas cumprem funções essenciais nos ecossistemas. Elas participam da decomposição de matéria orgânica, atuam como polinizadoras, servem de alimento para aranhas e anfíbios e, em alguns casos, predam outros insetos.

As espécies de Dexosarcophaga também têm relevância para a entomologia forense, área que utiliza o desenvolvimento e a presença de insetos em matéria orgânica animal para auxiliar investigações. Conhecer a distribuição e as características de cada espécie é necessário para que essas análises não confundam organismos semelhantes.

Segundo o Museu Paraense Emílio Goeldi, seis novas espécies de Dexosarcophaga foram descritas em 2026 a partir de exemplares preservados nas coleções do MPEG, do Inpa e da Universidade Federal do Paraná. O intervalo entre a coleta e a descrição variou de dez a 36 anos.

O acervo como retrato incompleto da Amazônia

Os exemplares analisados estavam em três coleções: a do Museu Goeldi, em Belém; a do Inpa, em Manaus; e a coleção entomológica da Universidade Federal do Paraná, em Curitiba. O tempo de espera revela uma dificuldade estrutural da taxonomia: a quantidade de pesquisadores dedicados a descrever espécies é pequena diante da dimensão da biodiversidade amazônica.

Para a região, o resultado tem um significado que vai além dos nomes atribuídos às moscas. Pará, Amazonas, Acre e Roraima aparecem diretamente nos novos registros, enquanto expedições em áreas como Mamirauá, Carajás, Bragança e Novo Aripuanã mostram como diferentes pontos da Amazônia ainda podem produzir descobertas mesmo quando as amostras já foram coletadas.

“A gente ainda tem muito para conhecer e poucas pessoas, um esforço ainda reduzido para o número do que ainda tem para descobrir. Então, a descoberta de novas espécies adicionam conhecimento sobre biodiversidade”, afirmou Caroline de Souza.

O próximo passo para esse tipo de pesquisa é ampliar a análise de acervos e de novas coletas, permitindo que outros exemplares amazônicos sejam comparados, identificados e incorporados ao conhecimento científico.

Com informações de Museu Paraense Emílio Goeldi.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA