
Um funcionário da concessionária que administra a BR-050 teve de interromper o trânsito por alguns minutos para deixar passar uma visitante incomum: uma sucuri de cerca de seis metros de comprimento. O registro foi feito em fevereiro de 2025, no km 250 da rodovia, no sentido sul, perto de um posto de combustível no município de Catalão, no sudeste de Goiás. A cena, gravada durante uma inspeção de rotina, ainda circula nas redes e levanta uma pergunta frequente: por que cobras desse tamanho aparecem no asfalto?
Como foi o resgate
Depois de parar os carros para evitar um acidente, a concessionária acionou uma equipe preparada para lidar com animais silvestres. Com equipamentos de contenção, os técnicos recolheram a serpente e a levaram para uma área de vegetação próxima, longe da pista. O procedimento é o recomendado: a sucuri não deve ser morta nem levada para longe do lugar onde vive, mas apenas afastada do perigo.
Por que a BR-050 cruza o caminho das sucuris
A BR-050 liga Brasília a São Paulo e, em Goiás, atravessa áreas de Cerrado entremeadas por matas ciliares, córregos e represas. A sucuri é uma serpente aquática: passa a maior parte do tempo em rios, lagoas e brejos, onde caça peixes, aves, jacarés e mamíferos que se aproximam da água. Quando precisa trocar de lagoa, procurar parceiros ou fugir de áreas alagadas demais ou secas demais, ela se desloca por terra, e muitas vezes o caminho mais curto passa por uma estrada.
Na estação chuvosa, que no Brasil Central vai mais ou menos de outubro a março, rios transbordam, brejos se enchem e muitos animais mudam de lugar. É uma época em que concessionárias e órgãos ambientais costumam registrar mais encontros com serpentes nas rodovias.
Uma ameaça maior para a cobra do que para as pessoas
Apesar do tamanho, a sucuri não tem veneno. Ela mata por constrição: enrola o corpo na presa e aperta até interromper a circulação. Ataques a seres humanos são raríssimos, e a reação mais comum da serpente diante de pessoas é fugir ou ficar imóvel. Quem corre perigo, na estrada, é ela. O Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas, ligado à Universidade Federal de Lavras, estima que centenas de milhões de animais silvestres morram atropelados por ano no país, e as serpentes, lentas ao atravessar o asfalto, estão entre as vítimas frequentes.
Além dos atropelamentos, as sucuris enfrentam a perda de matas ciliares, a drenagem de áreas úmidas e a matança por medo. Matar animais silvestres é crime ambiental no Brasil, previsto na Lei 9.605, de 1998.
Uma das maiores serpentes do mundo
A sucuri-verde, Eunectes murinus, é considerada a serpente mais pesada do planeta. As fêmeas são bem maiores que os machos e podem passar de seis metros. Relatos de animais muito maiores circulam há séculos, mas raramente foram medidos com rigor. Em 2024, um estudo genético propôs que as sucuris-verdes do norte da América do Sul formam uma espécie à parte, batizada de Eunectes akayima. As que vivem no Brasil Central, como a da BR-050, continuam sendo classificadas como Eunectes murinus.
O que fazer ao ver uma sucuri na estrada
- Não pare em local perigoso nem desça do carro para fotografar de perto.
- Não tente pegar, empurrar ou matar o animal.
- Avise a concessionária pelo telefone de emergência da rodovia, a Polícia Rodoviária Federal ou o Corpo de Bombeiros, informando o quilômetro e o sentido.
- Se a cobra estiver atravessando, aguarde a distância. Ela costuma seguir caminho em poucos minutos.
Passagens de fauna
Para reduzir atropelamentos, especialistas defendem passagens de fauna, túneis e pontes sob ou sobre as rodovias, combinadas com cercas que guiem os animais até elas. Em vários trechos de estradas brasileiras essas estruturas já existem e são monitoradas com câmeras, que registram onças, antas, tamanduás e serpentes usando os corredores. Nas áreas onde a estrada corta rios e brejos, como ocorre em boa parte da BR-050, são justamente esses pontos de travessia que podem evitar que a próxima sucuri vire estatística.
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