
Estudo na Austrália indica que fêmeas usam assobios individuais para evitar parceiros associados a comportamentos coercitivos.
Como uma golfinha decide de quem fugir? Um novo estudo indica que fêmeas de golfinho-nariz-de-garrafa do Indo-Pacífico, acompanhadas em Shark Bay, na Austrália, podem reconhecer machos associados a táticas agressivas de acasalamento por meio de seus assobios individuais. Publicada em 15 de junho de 2026 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, a pesquisa mostrou que as fêmeas nadaram para longe com mais frequência ao ouvir vocalizações de machos que, no histórico da população, participavam mais de alianças para manter fêmeas sob controle.
Uma memória social que ajuda a escolher
Os golfinhos-nariz-de-garrafa são conhecidos pelos chamados “assobios-assinatura”. Cada animal produz uma vocalização própria, que funciona de maneira parecida com um nome. Outros golfinhos conseguem reconhecer esse som e associá-lo a um indivíduo específico.
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O calor está mudando a chance de sobrevivência das aves amazônicas mesmo onde a mata continua de péPara investigar se essa identificação também influencia decisões relacionadas ao acasalamento, a equipe liderada por Alice Bouchard, pesquisadora da Universidade de Bristol, reuniu 34 gravações de assobios de machos registrados entre 2013 e 2017. Depois, os sons foram reproduzidos debaixo d’água para grupos de fêmeas em deslocamento ou descanso.
Os pesquisadores usaram hidrofones instalados a partir de um barco para tocar as vocalizações e drones para observar as reações dos animais. As fêmeas não responderam necessariamente com outros sons, mas apresentaram uma reação comportamental clara: algumas aceleraram o deslocamento e se afastaram do local.
“Quando reproduzíamos esses assobios de machos, às vezes as fêmeas entravam em pânico e realmente iam embora”, afirmou Alice Bouchard, autora principal do estudo.
O que são as alianças entre machos
Em Shark Bay, machos adultos podem formar alianças para perseguir uma fêmea e mantê-la próxima por dias ou até semanas. Essa estratégia, chamada de consórcio, aumenta as oportunidades de acasalamento entre os parceiros da aliança.
O problema é que o comportamento nem sempre é cooperativo apenas entre os machos. Durante esses episódios, os pesquisadores já observaram mordidas, golpes, perseguições e investidas contra as fêmeas. Vocalizações de ameaça também podem ser usadas para intimidar e limitar os movimentos delas.
Entenda o caso
O estudo não afirma que as fêmeas tenham uma linguagem humana ou que compreendam os assobios como frases. A evidência indica que elas associam uma vocalização individual a um macho conhecido e, possivelmente, ao histórico de comportamento desse animal.
Como a população de Shark Bay é monitorada há cerca de 40 anos, os cientistas conseguem comparar a reação atual das fêmeas com registros anteriores de alianças e consórcios. Essa base de dados permitiu avaliar se determinados machos tinham maior histórico de envolvimento nesses episódios.
Segundo a Universidade de Bristol, em Shark Bay, Austrália, fêmeas reagiram com maior afastamento aos assobios de machos que apresentavam taxas mais altas de participação em consórcios registrados na população estudada.
Fêmeas em período fértil se afastaram mais
A intensidade da reação também variou conforme a possibilidade de reprodução. Fêmeas que, pela idade e pelo momento do ciclo reprodutivo, poderiam engravidar nadaram mais para longe do barco do que aquelas que não estavam em condição semelhante.
Para Stephanie King, bióloga comportamental da Universidade de Bristol e autora sênior do artigo, esse resultado sugere que as fêmeas podem usar informações sobre machos específicos para reduzir riscos durante o acasalamento. A estratégia seria especialmente importante quando elas estão mais vulneráveis a comportamentos de controle ou agressão.
“Sabemos que os consórcios são mantidos de forma agressiva, com base em muitos anos de estudo dessa população”, disse King, segundo o artigo. Os pesquisadores observam sinais claros de coerção em aproximadamente metade dos consórcios documentados, mas estimam que a proporção real possa ser maior, já que parte das interações ocorre fora do campo de visão, debaixo d’água.
Evitar um macho também pode proteger o filhote
Os cientistas consideram mais de uma explicação para o comportamento. Uma possibilidade é que as fêmeas reconheçam machos que já tiveram experiências negativas com outras parceiras e tentem evitá-los. Outra hipótese é que elas se afastem de parceiros com os quais já cruzaram.
Nesse segundo cenário, a fêmea poderia acasalar com vários machos para dificultar que um deles saiba com certeza quem é o pai do filhote. A estratégia talvez reduza o risco de agressões contra a cria, já que o infanticídio por machos é um comportamento documentado entre golfinhos.
Laela Sayigh, especialista em comunicação de golfinhos do Woods Hole Oceanographic Institution, que não participou da pesquisa, considerou importante o fato de as fêmeas responderem a assobios individuais, e não apenas à presença geral de machos adultos.
“O que é único é mostrar que as fêmeas estão respondendo aos assobios-assinatura de machos específicos”, avaliou Janet Mann, bióloga de golfinhos da Universidade Georgetown, também não envolvida no estudo.
O que isso revela sobre os golfinhos
A descoberta amplia a compreensão sobre a vida social dos golfinhos. Machos e fêmeas não formam grupos simples e previsíveis. Eles mantêm alianças, relações duradouras, disputas, aproximações e momentos de contato amigável, como esfregar o corpo ou nadar juntos.
Os resultados também reforçam que as fêmeas não são apenas personagens passivas nas relações reprodutivas. Elas observam, reconhecem indivíduos e parecem tomar decisões com base em informações acumuladas sobre a comunidade.
Esse tipo de comportamento merece atenção também para quem acompanha a fauna aquática da Amazônia. Os golfinhos marinhos estudados na Austrália são diferentes dos botos amazônicos, como o boto-cor-de-rosa e o tucuxi, mas a pesquisa ajuda a lembrar que mamíferos aquáticos possuem relações sociais complexas e estratégias próprias de comunicação e sobrevivência.
A equipe pretende investigar agora quais características fazem uma fêmea se aproximar de determinado macho, em vez de evitá-lo, e se essas preferências influenciam quais animais se tornam pais de futuros filhotes.
Perguntas frequentes
Como os golfinhos reconhecem uns aos outros?
Eles produzem assobios-assinatura, vocalizações individuais que funcionam de modo semelhante a nomes. Outros golfinhos podem reconhecer esses sons e associá-los a animais específicos.
As fêmeas evitam todos os machos adultos?
Não. O estudo indica que elas respondem de maneira diferente a machos específicos, principalmente àqueles com histórico maior de participação em consórcios associados a comportamentos coercitivos.
A pesquisa prova que os golfinhos têm uma linguagem?
Não. Os resultados mostram reconhecimento individual e memória social, mas não comprovam a existência de uma linguagem equivalente à humana.
Com informações de National Geographic.
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