
No século 19, a caça reduziu as tartarugas gigantes do atol de Aldabra, nas Seychelles, a menos de mil animais. Hoje, segundo uma nova estimativa, cerca de 183 mil adultos e quase adultos vivem soltos no atol, a maior população livre de tartarugas gigantes do planeta. A conta não inclui os filhotes, que se escondem na vegetação densa.
O número foi calculado por cientistas da Fundação Ilhas Seychelles (SIF), que administra o atol, e da Universidade de Exeter, no Reino Unido. É a estimativa mais alta já feita para a espécie (Aldabrachelys gigantea).
As tartarugas que ninguém via
Parece difícil não enxergar um animal de mais de 200 quilos. Mas as tartarugas passam boa parte do tempo na sombra e no mato fechado. As contagens anteriores não corrigiam esse problema: contavam o que viam, e só.
A mais conhecida, feita em 1997 e publicada em 1999, chegou a 100 mil animais. Outra, de 1978, estimou cerca de 150 mil. Os autores do novo estudo concluem que as duas provavelmente ficaram abaixo do real, embora a população também possa ter crescido no período.
Como se conta tartaruga
A equipe da SIF percorre linhas fixas no atol, divididas em trechos de 50 metros. Dois observadores andam cada linha uma vez por temporada, entre o nascer do sol e as 9 horas, antes que o calor empurre os animais para a sombra. Para cada tartaruga vista, anotam a distância até a linha.
O raciocínio é que um animal bem em cima da linha sempre é visto. Quanto mais longe e mais fechada a vegetação, mais tartarugas escapam aos olhos. Com essa queda na detecção, o modelo calcula quantas estavam lá sem serem vistas em cada tipo de habitat.
A estimativa é a média de quatro temporadas chuvosas, de 2018 a 2021, quando os animais ficam mais expostos. O número se manteve estável ao longo desses anos. A temporada de 2022 foi deixada de fora porque a equipe percorreu cerca de metade dos trechos.
A pesquisadora Nancy Bunbury, coautora que ajudou a desenhar o método, explica que o programa de monitoramento de Aldabra é um dos mais longos da região, mas a vegetação densa torna a contagem difícil. Ao modelar o que não foi visto, a equipe criou a base mais confiável até agora para acompanhar a espécie pelas próximas décadas.
Onde elas estão
A maior densidade foi registrada nos campos de capim baixo conhecidos como gramado de tartaruga, moldados pelo próprio pastejo dos animais. Depois vêm o solo exposto e o mato misto aberto. Como as contagens terminam às 9 horas, mostram onde as tartarugas passam a noite e o começo da manhã, e não necessariamente os lugares preferidos ao longo do dia.
Da quase extinção à proteção
Tartarugas gigantes selvagens hoje só existem em dois lugares: Aldabra e as Ilhas Galápagos. Em Aldabra, a recuperação veio com proteção. O monitoramento começou em 1979, o atol virou reserva natural integral dois anos depois e, no ano seguinte, Patrimônio Mundial da Unesco.
Cabras ferais, que devoravam a vegetação e reduziam a sombra e a comida das tartarugas, foram erradicadas em 2012. Gatos ferais e ratos ainda vivem em boa parte do atol e comem ovos e filhotes. A remoção está planejada.
Alguns pesquisadores defendiam que o atol já tinha atingido o limite de tartarugas que consegue sustentar. O novo estudo questiona essa ideia: com a vegetação se recuperando e as espécies invasoras sendo retiradas, a ilha talvez suporte ainda mais animais.
A próxima ameaça é o clima
As secas ficaram mais frequentes em Aldabra. Estiagens mais longas e a possível subida do nível do mar podem reduzir a sombra e o alimento de que as tartarugas dependem. A nova linha de base serve justamente para medir esse efeito nos próximos anos.
Para a diretora-executiva da SIF, Frauke Fleischer-Dogley, os dados coletados ano após ano pela equipe que vive no atol mostram o que um compromisso de longo prazo com a conservação consegue alcançar.
Perguntas frequentes
Quantas tartarugas gigantes existem em Aldabra?
Cerca de 183 mil adultos e quase adultos, sem contar os filhotes, segundo a nova estimativa.
Onde vivem tartarugas gigantes na natureza?
Apenas em Aldabra, nas Seychelles, e nas Ilhas Galápagos, no Equador.
Com informações da Fundação Ilhas Seychelles e da Universidade de Exeter.
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