
Reunião em Fiji e visita ao arquipélago colocam comunidades ameaçadas pela elevação do oceano no centro das negociações climáticas.
O ponto mais alto de Funafuti, capital de Tuvalu, fica a apenas dois metros acima do nível do mar. É nesse território ameaçado pela elevação do oceano que negociadores climáticos farão uma visita durante os encontros de 5 a 8 de outubro, realizados em Fiji e no arquipélago tuvaluano como preparação para a COP31, prevista para novembro na província turca de Antalya.
A escolha do Pacífico muda o foco da negociação. Em vez de discutir somente metas e documentos em salas diplomáticas, ministros, negociadores e líderes poderão observar áreas onde a subida do mar já interfere no território, na segurança da população e no futuro de países inteiros.
Uma reunião com o oceano à porta
A agenda principal será conduzida na cidade fijiana de Nadi. O encontro deve reunir cerca de 4 mil participantes de 60 países, segundo o ministro australiano do Clima, Chris Bowen, que presidirá as negociações da COP31. A organização não divulgou uma divisão detalhada dos participantes.
Os delegados também participarão de um retiro de um dia em Tuvalu. No local, conhecerão obras de recuperação e ampliação de áreas de terra, uma tentativa de criar espaço habitável em um país formado por atóis de coral extremamente baixos.
Dois dos nove atóis de Tuvalu já estão em grande parte cobertos pela água, de acordo com o material da reunião. A capital Funafuti concentra a maior parte da população e tem pouca margem física para absorver novas perdas territoriais.
O que Tuvalu quer levar à COP31
Os países insulares do Pacífico defendem que as negociações mantenham o limite de 1,5°C para o aquecimento global. Eles também cobram mais acesso ao financiamento climático e uma abordagem que considere melhor os impactos sobre os oceanos.
Segundo um relatório da Organização das Nações Unidas divulgado em agosto, as nações insulares do Pacífico enfrentam uma elevação do nível do mar duas vezes maior que a média global. O mesmo documento estima que até 1,2 bilhão de pessoas possam ser deslocadas até 2050 em razão desse processo.
O problema não se limita à velocidade da subida do mar. Países em desenvolvimento precisam de entre US$ 310 bilhões e US$ 365 bilhões por ano para adaptação, mas receberam apenas US$ 26 bilhões em financiamento para essa finalidade em 2023, segundo o relatório da ONU.
Em declaração feita antes das conversas, o primeiro-ministro de Tuvalu, Feleti Teo, afirmou que a elevação do mar já é uma realidade e pediu ação imediata para proteger as próximas gerações. A posição do governo é que o arquipélago não pode esperar a conclusão das projeções climáticas para começar a se preparar.
O futuro planejado longe das ilhas
A possibilidade de deslocamento da população está no centro do planejamento de Tuvalu. O governo vem estudando formas de transferir moradores caso partes do território deixem de oferecer condições de habitação, uma medida que envolve identidade nacional, soberania, patrimônio cultural e acesso a serviços.
Esse cenário transforma a adaptação em uma questão prática. Ele envolve elevar terrenos, proteger áreas costeiras, manter água potável, preservar estruturas públicas e criar alternativas para pessoas que não possam permanecer nas ilhas. A visita dos negociadores deve mostrar como decisões financeiras tomadas em conferências internacionais chegam ao cotidiano de comunidades pequenas.
O alerta também ganhou força após uma onda de calor marinha registrada em 2024 provocar morte em larga escala de corais ao redor de Tuvalu, segundo uma equipe da qual participou o cientista marinho Rajneel Singh. Para pesquisadores locais, a pouca atenção internacional contrasta com a rapidez das mudanças observadas no oceano.
Austrália tenta equilibrar liderança e contradição
A realização da COP31 na Turquia foi definida depois que a Austrália desistiu da disputa para sediar a conferência. O acordo permitiu que o país australiano conduzisse as negociações e levasse a etapa preparatória para o Pacífico.
A posição cria uma contradição política. A Austrália é uma grande exportadora de carvão e tem sido pressionada sobre a escala de sua produção de combustíveis fósseis. Bowen afirma que o país amplia rapidamente as fontes renováveis, consideradas essenciais para a transição energética.
O ministro também rejeitou críticas sobre a baixa presença de chefes de governo nos encontros. Menos de uma dúzia de líderes havia confirmado publicamente participação, principalmente representantes de países do Pacífico. Fiji informou que esperava dirigentes de Antígua e Barbuda, Cabo Verde, Tailândia, Maldivas e Timor-Leste.
Segundo o governo australiano, a etapa preparatória não costuma ser uma reunião de chefes de Estado. O formato normalmente reúne ministros e negociadores seniores, responsáveis por tentar reduzir divergências antes da conferência oficial.
Por que a pauta interessa à Amazônia
O debate tem reflexos para a Amazônia brasileira porque financiamento de adaptação, proteção costeira e atenção aos oceanos também afetam comunidades expostas em estados como Pará e Amapá. A região amazônica combina grandes rios, zonas costeiras, áreas urbanas vulneráveis e populações que dependem diretamente dos ciclos de chuva e do equilíbrio dos ecossistemas.
Para o leitor da região, a disputa em Fiji e Tuvalu ajuda a entender uma diferença central das negociações climáticas: os países mais vulneráveis nem sempre são os que mais contribuíram para o aquecimento global, mas estão entre os primeiros a lidar com perdas territoriais, deslocamentos e danos ambientais.
O encontro ainda receberá o ministro das Relações Exteriores do Nepal, Shisir Khanal. Ele deve levar às conversas a experiência das enchentes de 26 de agosto, quando o colapso de gelo e rochas na fronteira entre Nepal e China provocou uma parede de água e detritos. Quase 1.500 pessoas morreram e 5.800 ficaram desaparecidas nos dois países, conforme o material da pauta.
A presença do Nepal amplia o alcance da reunião. O risco climático aparece tanto em ilhas cercadas pelo oceano quanto em regiões montanhosas ameaçadas pelo derretimento de geleiras, mostrando que a adaptação não é um problema restrito a um único tipo de território.
As negociações de Fiji e Tuvalu servirão para organizar os principais pontos de conflito antes da COP31, que será realizada em novembro, na província de Antalya, na Turquia.
Com informações de AFP.
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