
Previsões indicam um episódio excepcional, mas os efeitos sobre a vida marinha ainda são mais incertos que os impactos em terra.
Quem vive em Wellington, na Nova Zelândia, já está acostumado a sair de casa com óculos de sol, capa de chuva e uma camada extra de roupa. Nos próximos meses, porém, essa cautela pode ganhar uma dimensão climática: um El Niño em formação no Pacífico tem potencial para se tornar o episódio mais forte já registrado, com a superfície do oceano central até 3,6°C acima do normal durante o verão.
A projeção foi apresentada em uma análise publicada pelo phys.org em 8 de outubro de 2026. O cenário ainda é uma previsão, não um resultado já observado. Mesmo assim, os sinais indicam que a atmosfera e o oceano podem produzir uma combinação de ventos mais persistentes, chuvas concentradas no oeste da Nova Zelândia e condições mais secas no lado leste do país.
O que está acontecendo no Pacífico
El Niño e La Niña são fases opostas de uma oscilação natural que envolve a pressão atmosférica e a circulação dos ventos sobre o Pacífico. Em condições habituais, os ventos alísios sopram de leste para oeste na região central do oceano. Esse movimento ajuda a trazer para a superfície, junto à costa oeste da América do Sul, águas profundas frias e ricas em nutrientes.
Durante o El Niño, a configuração da pressão atmosférica muda. Os ventos alísios enfraquecem ou podem até inverter sua direção. Sem a mesma força empurrando a água superficial, o afloramento de águas profundas diminui. A água quente, típica das áreas tropicais, então se acumula no Pacífico oriental e libera mais calor para a atmosfera.
Segundo o phys.org, o El Niño previsto para o próximo verão pode elevar em até 3,6°C a temperatura do Pacífico central em relação à média, em um episódio que tende a superar marcas de eventos anteriores. A intensidade projetada, no entanto, depende da evolução conjunta do oceano e da atmosfera, por isso os prognósticos podem mudar.
Por que o efeito será diferente em terra e no mar
Para estimar o que pode ocorrer, os pesquisadores e analistas climáticos recorrem a episódios passados. Os principais pontos de comparação são os El Niños de 1982 e 1983, de 1998 e 1999 e de 2015 e 2016. Esses eventos ajudam a identificar padrões de circulação atmosférica, embora nenhum seja uma cópia perfeita do outro.
Na Nova Zelândia, a expectativa é de ventos de oeste mais fortes e regulares ao longo do verão. Esse fluxo tende a transportar mais umidade para a costa oeste, favorecendo períodos de chuva mais intensa. No leste, o mesmo padrão pode reduzir a chegada de umidade, ampliando a possibilidade de estiagens e incêndios florestais.
O contraste entre as duas costas mostra por que a intensidade de um fenômeno global não produz um efeito igual em todos os lugares. Uma mesma mudança nos ventos pode significar chuva persistente em uma região e solo mais seco em outra.
O oceano ainda guarda as principais dúvidas
A resposta do ambiente marinho é menos previsível. Ao contrário do que ocorre no Pacífico oriental, onde o El Niño costuma estar associado ao aquecimento da superfície, os episódios que influenciam a Nova Zelândia normalmente trazem temperaturas do mar ligeiramente abaixo da média ao redor do país.
Essa aparente contradição resulta da circulação regional. O aquecimento intenso em uma parte do Pacífico reorganiza ventos, correntes e trocas de calor em áreas distantes. O resultado local pode ser uma água mais fria, mesmo quando o fenômeno como um todo é marcado por calor excepcional no oceano tropical.
As consequências ecológicas também não apontam todas na mesma direção. Mudanças na temperatura e na disponibilidade de nutrientes podem favorecer algumas espécies e prejudicar outras. A composição das comunidades marinhas pode mudar, mas o material não apresenta uma previsão fechada sobre quais organismos serão beneficiados ou afetados.
O agravante que não existia nos episódios anteriores
Os eventos de 1982, 1998 e 2015 oferecem referências importantes, mas o cenário atual tem uma diferença: o planeta já registra temperaturas do ar e do oceano acima do padrão histórico em razão do aquecimento global.
Isso significa que o próximo El Niño não começa sobre uma linha de base neutra. Mesmo que o fenômeno siga mecanismos naturais conhecidos, seus efeitos podem se somar a um ambiente mais quente. A combinação pode aumentar o estresse sobre ecossistemas, agricultura, reservas de água e áreas expostas a incêndios.
O estudo do fenômeno não permite concluir, por si só, que qualquer evento extremo será causado pelo El Niño. O que os dados sustentam é uma possibilidade de amplificação de padrões já associados à fase quente do Pacífico, principalmente em relação aos ventos, à distribuição das chuvas e ao risco de seca.
O que isso representa para a Amazônia
O Pacífico também é acompanhado de perto por climatologistas que avaliam o regime de chuvas na Amazônia. A circulação atmosférica ligada ao El Niño pode influenciar a distribuição de umidade na América do Sul, mas uma previsão feita para a Nova Zelândia não deve ser transformada automaticamente em uma previsão para o Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima ou Tocantins.
Para os estados amazônicos, a informação mais importante é a necessidade de observar as projeções regionais emitidas pelos órgãos meteorológicos brasileiros. Os efeitos dependem da intensidade do episódio, da época do ano e da interação com outros padrões oceânicos e atmosféricos. Um El Niño forte pode alterar o risco climático, mas não determina sozinho o que ocorrerá em cada bacia ou município.
Essa cautela é especialmente relevante para comunidades rurais, gestores de recursos hídricos, brigadas de incêndio e populações que dependem dos rios. A relação entre temperatura do Pacífico, chuva e nível dos rios passa por várias etapas, e a previsão precisa ser atualizada conforme novas medições chegam.
As previsões ainda podem mudar
O cenário descrito é de preparação, não de certeza absoluta. A previsão de até 3,6°C acima do normal indica a escala possível do aquecimento no Pacífico central, enquanto os impactos sobre a costa da Nova Zelândia e sua fauna marinha continuam sujeitos a variações.
Os próximos boletins deverão esclarecer se a atmosfera acompanhará o aquecimento do oceano com a mesma intensidade e se os padrões observados em 1982, 1998 e 2015 voltarão a aparecer. A evolução dessas medições definirá os alertas para chuva, seca, calor, incêndios e condições do mar ao longo do verão.
Com informações de phys.org.
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