Cágado-de-barbicha: 3 fatos sobre o quelônio que vive até em rios poluídos

Veja 3 razões para proteger o cágado-de-barbicha agora mesmo
Imagem criada com IA

O cágado-de-barbicha (Phrynops geoffroanus) é um quelônio de água doce comum em rios, lagoas e até em canais de cidades brasileiras. Ao contrário do que se costuma dizer, ele não é um termômetro da pureza dos rios: a espécie tolera água poluída e pode ser abundante justamente onde há esgoto. Isso torna a história dele mais interessante do que a de um simples sinal de qualidade ambiental. Veja três fatos documentados pela ciência.

Quem é o cágado-de-barbicha

A espécie pertence à família Chelidae, e foi descrita pelo naturalista alemão August Friedrich Schweigger em 1812. É endêmica da América do Sul, com registros que vão do sudoeste da Venezuela e do leste da Colômbia, do Equador e do Peru ao Brasil, à Bolívia, ao Paraguai e ao nordeste da Argentina. Segundo o guia Reptiles of Ecuador, a carapaça pode chegar a 39,5 centímetros nos machos e 46,3 centímetros nas fêmeas, que são maiores. A espécie é classificada como pouco preocupante pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).

1. Um generalista que come de larvas a restos

O cágado-de-barbicha não é um predador especializado. Segundo o guia Reptiles of Ecuador, é carnívoro e come peixes, insetos, outros artrópodes, moluscos e carniça, e na estação chuvosa também come frutos. Em um rio urbano poluído de Ribeirão Preto, em São Paulo, o estudo de Souza e Abe, publicado em 2000 no Journal of Zoology, mostrou que os adultos se alimentavam principalmente de larvas e pupas de quironomídeos (Chironomus cf. plumosus, presentes em 100% das amostras) e de lixo doméstico. Também comiam baratas, caramujos e carniça.

Um trabalho publicado em 2010 na revista Chelonian Conservation and Biology, que examinou 39 estômagos em Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, chegou a resultado parecido: o item principal em todos os meses do ano foi a larva de Chironomus. Essa flexibilidade ajuda a explicar por que o animal sobrevive em ambientes alterados. Chamá-lo de faxineiro do rio é um exagero, porque não há medição de quanto ele realmente reduz de matéria orgânica, mas ele de fato aproveita restos e carniça que estão disponíveis.

2. Abundante em rios sujos: um sinal que engana

No mesmo estudo de Ribeirão Preto, Souza e Abe estimaram entre 170 e 230 cágados por hectare de rio, com biomassa entre 255 e 345 quilos por hectare. Os autores atribuíram essa densidade elevada à abundância de esgoto e resíduos orgânicos, à ausência de predadores e a mais áreas disponíveis para a desova. O guia Reptiles of Ecuador também afirma que a espécie pode viver em rios poluídos na periferia das cidades e se adapta rapidamente a águas degradadas.

Isso derruba a ideia de que a ausência ou a presença do cágado indique a saúde do rio. Encontrar muitos cágados-de-barbicha em um trecho urbano pode significar o contrário do que parece, ou seja, que a água recebe muita matéria orgânica. O cágado é um bom exemplo de como a abundância de uma espécie nem sempre reflete qualidade ambiental, e por isso o monitoramento de rios precisa usar mais de um indicador.

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3. Pressões reais: ovos, barragens e perda de habitat

Apesar de comum, a espécie não está livre de pressões. Segundo o guia Reptiles of Ecuador, os machos começam a se reproduzir com cerca de 20 centímetros de carapaça e as fêmeas, com 24,1 centímetros. A fêmea põe de 7 a 20 ovos em ninhos rasos de areia ou argila perto da água, e a incubação leva de cinco a onze meses. Lagartos do gênero Tupinambis são os principais predadores dos ovos.

O mesmo guia aponta como ameaças os projetos hidrelétricos, a fragmentação e a perda de habitat. A espécie é menos caçada que outros quelônios amazônicos, em parte porque é considerada tabu e, em alguns grupos indígenas da Colômbia, sagrada. Como a maturidade sexual é tardia e a incubação é longa, populações que sofrem perda de ninhos ou de áreas de desova levam tempo para se recuperar.

Como cada pessoa pode ajudar

Proteger o cágado-de-barbicha não exige ações complexas, e a maior parte das medidas beneficia o rio como um todo:

  • Não jogue lixo nem óleo no ralo ou nas ruas, pois esse material chega aos rios e altera o ambiente em que o animal vive.
  • Observe sem capturar. Retirar cágados do rio para criar em casa ou levá-los para outro local prejudica a população e é uma prática que a legislação ambiental restringe.
  • Preserve margens e áreas de desova. Os ninhos ficam em areia ou argila perto da água, e a vegetação das margens protege essas áreas.
  • Apoie projetos de conservação e de pesquisa sobre quelônios e rios urbanos.
  • Se encontrar um cágado machucado ou longe da água, entre em contato com o órgão ambiental local.

O que o cágado ensina sobre os rios

O cágado-de-barbicha mostra que um animal comum pode ter uma biologia mais complexa do que a imagem de símbolo de rio limpo sugere. Ele aguenta água degradada, aproveita o que há para comer e ainda assim depende de ninhos protegidos e de rios que não sejam barrados ou fragmentados. Conhecer essas características ajuda a decidir o que de fato precisa ser feito para proteger a espécie e o ambiente onde ela vive.

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