
Às vésperas da COP30, que será realizada em Belém (PA), cresce o debate sobre quem realmente tem voz nas decisões que moldam o futuro climático do planeta. Especialistas e representantes de comunidades tradicionais alertam que as populações mais impactadas pela crise ambiental continuam à margem das negociações, mesmo quando os temas em pauta afetam diretamente seus territórios e modos de vida.
Foi o tom que marcou o evento “COP30 e os Conflitos do Clima: REDD+, Mineração e as Lutas por Justiça Racial e de Gênero”, promovido pelo Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). O encontro reuniu lideranças de base e organizações civis para discutir os dilemas da transição energética e os riscos de que o discurso verde reproduza velhas formas de exclusão.
Entre os relatos mais marcantes esteve o de Natália Nascimento, da Associação dos Moradores do Baixo Riozinho (Asmobri), no Médio Juruá, Amazonas. Ela narrou como famílias ribeirinhas foram pressionadas a firmar contratos de mercado de carbono — acordos que prometem preservar áreas florestais em troca da venda de créditos de emissão. Segundo Natália, muitos moradores assinaram documentos sem compreender o alcance legal dos compromissos, perdendo o controle sobre o uso da própria terra.
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Como a jiboia constritora utiliza sensores térmicos e camuflagem para manter o equilíbrio ecológico na Floresta Amazônica brasileira“É como assinar um contrato que você não entende e depois descobrir que pode perder tudo”, disse. O caso levou o Ministério Público Federal (MPF) a abrir investigação, e a comunidade aguarda decisão judicial. O episódio expõe um dos paradoxos da economia verde: enquanto o mundo corre para reduzir emissões, os mecanismos financeiros criados para compensá-las frequentemente geram novas formas de vulnerabilidade social.

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A diretora de programas da Anistia Internacional Brasil, Alexandra Montgomery, lembrou que são justamente as populações mais afetadas pelos eventos climáticos — indígenas, ribeirinhos, quilombolas e moradores de favelas — as que menos participam dos espaços de decisão. “Estamos na mesma tempestade, mas em barcos diferentes”, afirmou.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 16,3 milhões de brasileiros vivem em favelas e comunidades urbanas, o equivalente a 8,1% da população. Em Belém, cidade-sede da COP30, a desigualdade é ainda mais gritante: 57,1% dos habitantes moram em áreas de ocupação precária. “Essas pessoas são as primeiras a sofrer com enchentes e alagamentos, mas continuam fora das mesas onde se discutem soluções para a cidade”, destacou Alexandra.
Outro participante, Guilherme Carvalho, educador popular da ONG FASE – Solidariedade e Educação, alertou que Belém corre o risco de se transformar em uma “cidade espetáculo” — expressão usada para descrever metrópoles que se remodelam para grandes eventos sem considerar os custos sociais. Segundo ele, o processo de preparação para a COP30 tem acentuado a gentrificação e o racismo ambiental, com despejo de resíduos nas periferias e aumento descontrolado de preços.
“Os aluguéis e serviços dispararam, e o saber tradicional virou produto gourmet”, disse. “Enquanto restaurantes de luxo se apropriam da culinária amazônica, as comunidades que criaram esses saberes seguem marginalizadas.”
O debate também trouxe reflexões sobre o legado da conferência. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que defende a escolha de Belém como palco da COP, afirmou em recente visita ao Pará que a intenção é mostrar ao mundo a verdadeira Amazônia — com seus desafios e potencialidades. Ele prometeu que os investimentos realizados, estimados em R$ 6 bilhões, deixarão benefícios permanentes para a população.
Para os especialistas, no entanto, o sucesso da COP30 dependerá menos da infraestrutura e mais da capacidade de incluir as vozes que historicamente foram silenciadas. A Amazônia, afirmam, não pode ser apenas cenário — precisa ser sujeito ativo das decisões sobre seu futuro.
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