Agricultor italiano achou um saco de sementes esquecidas no sótão, plantou sem esperança e trouxe de volta um trigo antigo de sete espigas

Agricultor italiano achou um saco de sementes esquecidas no sótão, plantou sem esperança e trouxe de volta um trigo antigo de sete espigas
Espigas de trigo da espécie Triticum turgidum, a mesma do grão redescoberto na Itália. Foto: Behailu Mulugeta (SLU), via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

No começo dos anos 1990, Claudio Grossi, então com 40 anos, arrumava o sótão da casa da família, numa fazenda perto de Parma, no norte da Itália, quando encontrou um saco velho cheio de sementes. Ele não sabia o que eram. A propriedade tinha sido fundada pelo bisavô por volta de 1915, e Grossi deduziu que o saco era dele. As sementes estavam secas e rachadas, e o agricultor duvidou que algo pudesse brotar dali. Desceu a escada, jogou tudo num monte de esterco e esqueceu.

O trigo que não cabia nos livros

Pouco tempo depois, várias plantas de trigo surgiram do esterco. Uma delas chamava a atenção: chegava a cerca de 1,8 metro, o dobro da altura do trigo comercial. A surpresa maior veio quando as espigas se formaram. Em vez de uma única espiga por haste, como nas variedades que Grossi conhecia, essa produzia sete, sempre no mesmo padrão: uma longa no centro e seis menores ao redor, como dedos. Os grãos eram maiores que os do trigo comum e apareciam em várias cores, amarelo, preto, vermelho, branco e até verde, às vezes na mesma planta.

Grossi não encontrou nada parecido nos livros de agronomia. Católico praticante, achou uma pista em outro lugar: no livro do Gênesis, na Bíblia, o faraó sonha com sete espigas cheias brotando de uma só haste. Ele concluiu que o grão devia ser muito antigo e passou a chamá-lo de grano del miracolo, o trigo milagre.

Um pão difícil de crescer

O agricultor colheu, moeu o grão e assou um pão. A massa cresceu pouco, mas o aroma era de nozes e o sabor, levemente adocicado. A planta mostrou outras vantagens: aguentava melhor a seca, crescia tanto que fazia sombra sobre as ervas daninhas e dispensava adubo e herbicida.

Faltava resolver o problema do pão. No começo dos anos 2000, Grossi passou a fazer testes com um padeiro idoso da região que ainda sovava a massa à mão. Os dois descobriram que lotes menores, cestos de vime mais altos para segurar o formato e menos sova faziam a massa crescer e se manter.

A ciência confirma a origem

Um estudante de ciência dos alimentos da Universidade de Parma provou o pão numa feira e dedicou o trabalho de conclusão de curso ao grão. Com apoio de um laboratório da universidade, ele identificou a planta como Triticum turgidum, conhecido em inglês como poulard wheat, um trigo que surgiu na região do Mediterrâneo oriental, em áreas que hoje pertencem à Turquia e ao Egito, e que já foi cultivado na Itália antes de ser substituído por variedades mais produtivas.

As análises mostraram que o grano del miracolo tinha mais fósforo e ferro que os trigos modernos, menos glúten e boa quantidade de lisina e triptofano, aminoácidos essenciais. O mistério do saco no sótão também foi resolvido: a família tinha guardado sementes da variedade tradicional quando os agricultores trocaram de trigo.

Por que os trigos antigos sumiram

O trigo começou a ser cultivado há cerca de 10 mil anos no Crescente Fértil, no Oriente Médio. As variedades antigas eram altas e rústicas. No século 20, governos e cientistas passaram a buscar plantas mais baixas e produtivas. Na Itália dos anos 1920, o regime fascista lançou a chamada Batalha do Trigo para reduzir as importações, distribuindo sementes de variedades de alto rendimento. Depois da Segunda Guerra, a Revolução Verde espalhou pelo mundo trigos baixos e muito produtivos, que alimentaram bilhões de pessoas, mas dependem mais de adubos, fungicidas e herbicidas.

Sementes guardadas, futuro garantido

Com secas, ondas de calor e pragas cada vez mais frequentes, variedades antigas e resistentes voltaram a interessar agricultores e pesquisadores. A história de Grossi mostra o valor de guardar sementes. No Brasil, a mesma lógica sustenta as casas e bancos comunitários de sementes crioulas, como as Sementes da Paixão, na Paraíba, onde famílias agricultoras conservam variedades locais de milho, feijão e fava adaptadas ao Semiárido. Cada saco guardado pode ser, um dia, a resposta para um problema que ainda não existe.

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