
Estudo na Serra do Cipó revela que polinizadores são essenciais para a reprodução de canelas-de-ema ameaçadas.
O que aconteceria com as plantas mais características das montanhas do Cerrado se beija-flores e abelhas desaparecessem? Um estudo publicado em 2026 na revista Annals of Botany mostra que 13 espécies de canela-de-ema (Vellozia), observadas na Serra do Cipó, em Minas Gerais, dependem desses polinizadores para produzir sementes saudáveis e manter a diversidade genética. A descoberta reforça que proteger os animais é também proteger a flora, as nascentes e os campos rupestres do bioma.
As canelas-de-ema são arbustos de aparência marcante, com flores grandes e cores que variam do branco ao roxo intenso. O gênero Vellozia reúne cerca de 265 espécies, distribuídas principalmente por áreas montanhosas brasileiras. Muitas vivem em pequenas manchas de vegetação e enfrentam riscos associados ao aquecimento global, à mineração, à alteração do uso da terra e ao turismo desordenado.
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Embora algumas espécies consigam realizar autofecundação, usando o próprio pólen para formar frutos, os pesquisadores identificaram que esse mecanismo funciona mais como uma alternativa de emergência. A reprodução com a participação de animais promove a polinização cruzada, processo em que o pólen é levado de uma planta para outra da mesma espécie.
Esse deslocamento mistura o material genético das populações e aumenta a variabilidade. Na prática, uma população geneticamente diversa tende a ter mais possibilidades de responder a doenças, mudanças no clima e outras alterações ambientais. Quando os polinizadores diminuem, essa troca pode ser interrompida ao longo do tempo.
Segundo o estudo publicado na revista Annals of Botany, a ausência de visitantes florais impediu a formação de frutos ou sementes em sete das 11 espécies avaliadas nos testes controlados realizados na Serra do Cipó, em Minas Gerais.
Entenda o caso
Os cientistas acompanharam populações de Vellozia durante dois anos. Eles observaram a floração, o formato das flores e os diferentes sistemas de reprodução das plantas.
Também compararam flores polinizadas manualmente, flores deixadas livres para receber visitantes e flores protegidas por saquinhos, que bloqueavam a chegada de pássaros e insetos. Depois, verificaram a quantidade de frutos e sementes e testaram a capacidade de germinação em laboratório.
Beija-flores foram os principais visitantes
Câmeras acionadas por sensores de movimento ajudaram a identificar os animais que visitavam as flores. Entre os principais polinizadores estavam o beija-flor-de-orelha-violeta (Colibri serrirostris) e o besourinho-de-bico-vermelho (Chlorostilbon lucidus).
Abelhas sem ferrão do grupo Meliponini, incluindo espécies do gênero Trigona, também tiveram participação relevante. A abelha-africanizada (Apis mellifera) foi registrada em busca de alimento nas flores, mostrando que diferentes grupos de animais podem atuar na manutenção da reprodução das plantas.
Os pesquisadores ainda identificaram dois padrões de floração. Algumas espécies concentram as flores em períodos curtos, principalmente durante a estação chuvosa, entre outubro e fevereiro. Outras florescem de maneira mais lenta e prolongada, avançando pelos meses secos.
Fogo pode estimular a floração
Em algumas canelas-de-ema, o fogo também apareceu como parte da história evolutiva da planta. Espécies como Vellozia alata e Vellozia caruncularis produziram flores poucas semanas depois de queimadas.
Esse comportamento não significa que incêndios frequentes sejam benéficos para o Cerrado. A resposta indica uma adaptação a um ambiente aberto, sujeito a queimadas naturais, mas não elimina os impactos provocados por incêndios intensos, recorrentes ou associados à ação humana.
O resultado mais importante dos testes foi a diferença entre produzir frutos e gerar sementes viáveis. Em alguns casos, as plantas formaram frutos mesmo sem a presença de polinizadores, mas as sementes apresentaram baixa qualidade ou não germinaram. Por isso, contar apenas os frutos pode criar uma falsa impressão de sucesso reprodutivo.
Espécies ameaçadas exigem atenção
De acordo com a pesquisadora Irene Gélvez-Zúñiga, o gênero Vellozia é vulnerável às mudanças climáticas por reunir plantas típicas dos campos rupestres. O estudo analisou quatro espécies consideradas ameaçadas ou quase ameaçadas: V. alata, V. albiflora, V. glabra e V. patens.
“Várias espécies são endêmicas ou apresentam distribuição restrita, em pequenas manchas”, alertou Irene Gélvez-Zúñiga.
A pesquisadora destacou ainda a situação de Vellozia taxifolia, que não tem capacidade de reprodução autônoma, e de V. patens, cuja produção de frutos e sementes é muito reduzida em condições naturais.
Os campos rupestres funcionam como áreas importantes para a recarga e o nascimento de rios, além de oferecerem serviços ecossistêmicos, como a purificação da água, a regulação do microclima e o suporte ao turismo de natureza. Embora o estudo tenha sido realizado em Minas Gerais, o alerta interessa a toda a Amazônia e às demais regiões brasileiras onde a conservação de polinizadores sustenta a regeneração da vegetação.
A pesquisa oferece dados para políticas de proteção da flora, criação e gestão de áreas protegidas e conservação de abelhas e beija-flores. O próximo passo é ampliar o monitoramento das espécies e avaliar como as mudanças no clima e no uso da terra podem alterar a relação entre plantas e polinizadores.
Perguntas frequentes
Por que beija-flores e abelhas são importantes para as canelas-de-ema?
Eles transportam pólen entre flores de plantas diferentes, favorecendo a polinização cruzada, a produção de sementes viáveis e a diversidade genética das populações.
As canelas-de-ema conseguem se reproduzir sozinhas?
A maioria das espécies estudadas consegue realizar autofecundação, mas os resultados indicam que esse mecanismo nem sempre produz sementes capazes de germinar.
Onde vivem as espécies analisadas?
As 13 espécies foram estudadas nos campos rupestres da Serra do Cipó, em Minas Gerais, uma das áreas de maior diversidade vegetal do Brasil.
Com informações da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
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