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Ciência e fé se unem para prevenir desastres climáticos no Acre

Ciência e fé se unem para prevenir desastres climáticos no Acre
Ilustração: IA

Mais de 900 lideranças religiosas já foram capacitadas em monitoramento ambiental para levar alertas às comunidades amazônicas.

Quando um pastor de Rio Branco começou a interpretar dados de satélite sobre o Rio Acre, a resposta da comunidade foi imediata: mais de uma tonelada de lixo retirada das margens de igarapés, filtros distribuídos durante enchentes e até a primeira brigada voluntária inter-religiosa do Brasil. Essa história real mostra como ciência e fé estão construindo juntas uma rede de proteção contra desastres climáticos na Amazônia.

A aproximação entre pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) com lideranças religiosas de todo o país vem fortalecendo a capacidade de resposta das comunidades diante de eventos extremos. Desde 2022, mais de 900 representantes de 18 estados participaram de mais de 30 imersões técnicas promovidas pela Iniciativa Inter-Religiosa pelas Florestas Tropicais (IRI Brasil).

No Acre, onde enchentes históricas, secas severas, ondas de calor e fumaça das queimadas se tornaram parte do cotidiano nos últimos anos, essa ponte entre conhecimento técnico e comunidades ganha relevância especial. O estado está entre os mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos da região amazônica.

Da sala de satélites para as margens do igarapé

O pastor Marquinhos Maciel, da Comunidade Batista Vida (CBVida) em Rio Branco, participou de uma das primeiras imersões em 2022. De volta à igreja, ampliou toda a atuação socioambiental da comunidade. Nasceu o programa CBVida Ambiental, responsável por iniciativas como o Green Day, que já retirou mais de uma tonelada de resíduos das margens do igarapé São Francisco.

A mobilização não parou por aí. A comunidade instalou energia solar, implantou coleta seletiva, criou pontos de recarga para veículos elétricos e desenvolveu o projeto Uma Vida, Uma Árvore, que já plantou mais de 580 mudas na Cidade da Vida. Durante as enchentes do Rio Acre, o projeto Água é Vida distribuiu filtros para famílias afetadas, enquanto o Sabão Orgânico Vida transformou óleo usado em produtos de limpeza para pessoas em vulnerabilidade.

“Quando os dados produzidos por satélites chegam às comunidades por meio de lideranças que já possuem credibilidade local, a prevenção deixa de ser apenas uma política pública e passa a integrar o cotidiano das pessoas”, explica material da iniciativa.

Como funciona a capacitação

As imersões vão além da simples divulgação científica. No Cemaden, os participantes acompanham o funcionamento dos sistemas de monitoramento de secas, enchentes e deslizamentos em tempo real. Já no Inpe, conhecem o Laboratório de Integração e Testes, o Centro de Controle de Satélites e ferramentas como o Prodes, o Deter, o Programa Queimadas e a plataforma AdaptaBrasil.

Essas ferramentas são fundamentais para monitorar o desmatamento e os impactos das mudanças climáticas na Amazônia. Após a capacitação, os líderes religiosos levam o conhecimento para suas comunidades em formato acessível: campanhas de educação ambiental, prevenção de enchentes, combate às queimadas e mobilização social.

Diversidade religiosa a serviço da floresta

A iniciativa reúne representantes de diversas expressões religiosas: igrejas cristãs, religiões de matriz africana, povos indígenas, comunidades ayahuasqueiras, judaísmo, islamismo e fé Bahá’í. O objetivo é transformar essas lideranças em multiplicadoras de informações confiáveis sobre riscos ambientais em seus territórios.

Em um estado como o Acre, onde grande parte da população vive próxima a rios e áreas florestais, essa aproximação entre conhecimento científico e organizações comunitárias pode ampliar significativamente a capacidade de resposta diante de desastres naturais.

Entenda o contexto acreano

O Acre registrou nos últimos anos alguns dos eventos climáticos mais severos de sua história. O Rio Acre atingiu níveis recordes de enchente em 2015 e 2023, enquanto secas extremas isolaram comunidades ribeirinhas em 2022 e 2024. As queimadas levaram a capital Rio Branco a liderar rankings de poluição do ar em escala mundial, afetando a saúde da população e a economia local. Esse cenário torna essencial a construção de redes locais de prevenção.

Brigada voluntária nasce da parceria

Um dos desdobramentos mais concretos da iniciativa no Acre foi a criação da primeira Brigada Voluntária Inter-Religiosa do Brasil para atuação em emergências climáticas. Segundo a IRI Brasil, o grupo atua de forma coordenada durante eventos extremos, combinando conhecimento técnico sobre riscos com a capilaridade das redes religiosas no território.

A experiência acreana demonstra que ciência e fé não ocupam campos opostos na proteção ambiental. Ao contrário, podem atuar de forma complementar na construção de uma cultura de prevenção, preservação e cuidado com a vida, especialmente em regiões amazônicas onde os efeitos das mudanças climáticas são cada vez mais perceptíveis no dia a dia.

Perguntas frequentes

Quais religiões participam da iniciativa no Acre?

Participam igrejas cristãs (evangélicas, católicas, batistas), religiões de matriz africana, comunidades ayahuasqueiras, povos indígenas e outras tradições presentes no estado.

Como os líderes religiosos usam os dados de satélite?

Eles aprendem a interpretar alertas de enchentes, secas e queimadas e repassam essas informações para suas comunidades em linguagem acessível, organizando ações preventivas locais.

Onde acontecem as capacitações?

As imersões ocorrem nas sedes do Cemaden e do Inpe, em São José dos Campos (SP), onde os participantes conhecem os sistemas de monitoramento e controle de satélites.

A iniciativa promete continuar expandindo sua atuação na Amazônia ao longo de 2026, com novas turmas previstas para o segundo semestre. No Acre, as lideranças já capacitadas seguem multiplicando o conhecimento em áreas urbanas e rurais, preparando comunidades para os próximos períodos de cheia e seca do Rio Acre.

Com informações da Iniciativa Inter-Religiosa pelas Florestas Tropicais.

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