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O jardim indígena não é uma coleção de plantas: ele…

Círculo de pedras com 30 metros atravessa séculos no Amapá e sugere que povos indígenas observavam o Sol antes da chegada dos europeus

No interior de Calçoene, a cerca de 400 quilômetros de Macapá, grandes blocos de granito formam um círculo que parece deslocado no tempo. Algumas pedras chegam a quatro metros de comprimento. O conjunto ocupa aproximadamente 30 metros de diâmetro e ficou conhecido como Parque Arqueológico do Solstício.

A comparação mais repetida é com Stonehenge, na Inglaterra. O apelido “Stonehenge do Amapá” ajuda a imaginar a escala, mas também pode esconder o que o lugar tem de mais importante: trata-se de uma construção vinculada a povos indígenas da Amazônia, com história e contexto próprios.

Uma pedra acompanha o nascer do Sol

O detalhe que despertou maior curiosidade foi o alinhamento de uma das pedras durante o solstício de dezembro. Nessa época do ano, o movimento aparente do Sol produz um efeito específico de luz e sombra no monumento. Essa relação levou pesquisadores a considerar a hipótese de que o conjunto tivesse, entre outras funções, a observação do calendário solar.

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A palavra decisiva é hipótese. O alinhamento existe, mas não autoriza concluir que o lugar fosse apenas um observatório. Sítios arqueológicos desse tipo podem reunir funções cerimoniais, funerárias, territoriais e astronômicas ao mesmo tempo. A interpretação depende do conjunto de vestígios, não apenas de uma pedra iluminada em determinada data.

Escavações realizadas na região identificaram urnas funerárias e outros materiais arqueológicos. Isso mostra que o espaço estava ligado a práticas sociais complexas. As pedras não eram objetos isolados em uma paisagem vazia: faziam parte de um território ocupado e compreendido por comunidades que desenvolveram maneiras próprias de organizar a vida, a morte e a passagem do tempo.

O monumento muda a imagem antiga da Amazônia

Durante muito tempo, parte do imaginário popular descreveu a Amazônia anterior à colonização como uma região quase sem intervenções humanas duradouras. A arqueologia vem desmontando essa ideia ao revelar solos manejados, grandes aldeias, geoglifos, redes de circulação e monumentos.

O círculo de Calçoene se encaixa nessa transformação. Erguer e posicionar blocos de granito exige planejamento, trabalho coletivo e conhecimento preciso do terreno. Mesmo sem uma resposta definitiva para todas as funções do sítio, a construção demonstra que seus autores não viviam de maneira aleatória no espaço.

Calçoene também está em uma das áreas mais chuvosas do Brasil. O monumento atravessou séculos em um ambiente de umidade intensa, vegetação vigorosa e mudanças naturais constantes. Sua permanência torna a cena ainda mais surpreendente: pedras alinhadas por mãos indígenas continuam marcando a paisagem amazônica e permitindo que o presente observe um fragmento do conhecimento construído antes da chegada dos europeus.

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