Milhares de pinguins mortos numa ilha da Antártida pareciam vítimas da gripe aviária; exames apontaram outra doença que circula ali há pelo menos 20 anos

Milhares de pinguins mortos numa ilha da Antártida pareciam vítimas da gripe aviária; exames apontaram outra doença que circula ali há pelo menos 20 anos
Colônia de pinguins-de-adélia no Cabo Royds, Antártida. Foto: Peter West/National Science Foundation, via Wikimedia Commons, domínio público.

Em março de 2024, uma expedição científica internacional chegou às remotas Ilhas Danger, na ponta da Península Antártica, onde vivem mais de 1,2 milhão de casais de pinguins-de-adélia. Encontrou milhares de pinguins mortos em duas ilhas, além de carcaças de outras aves marinhas. Como a gripe aviária H5N1 tinha acabado de chegar à península, ela foi a primeira suspeita.

Os exames contaram outra história. Testes de laboratório e análises das carcaças mostraram que a maioria das mortes foi causada pela cólera aviária, uma doença provocada pela bactéria Pasteurella multocida. O resultado foi publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society B.

46 de 49

A bactéria foi detectada em 46 dos 49 animais amostrados. O vírus H5N1 apareceu em apenas alguns. Para o veterinário de vida selvagem Ralph Vanstreels, do programa para a América Latina do One Health Institute da Universidade da Califórnia em Davis, um dos autores sêniores, a preocupação com a gripe aviária na Antártida é legítima, mas o caso mostra que outros patógenos continuam circulando e matando.

Uma bactéria antiga na região

A análise genética revelou que a cepa responsável pelo surto era muito parecida com uma identificada em aves marinhas antárticas mais de duas décadas antes. Isso sugere que a cólera aviária circula na região há pelo menos 20 anos. Os pesquisadores também encontraram ligações genéticas com cepas detectadas a mais de 8 mil quilômetros de distância, em outras partes do oceano Austral.

Segundo o autor principal, Matteo Iervolino, da Universidade Erasmus, na Holanda, a cólera aviária pode ser uma causa de mortes de aves marinhas na Antártida mais comum e mais subestimada do que se imaginava.

Como a doença se espalha

A cólera aviária é altamente contagiosa entre aves e pode matar em poucas horas. Em colônias densas, onde milhares de animais dividem o mesmo espaço, a bactéria passa com facilidade pelo contato direto, pela água e pelas carcaças. Aves que se alimentam de animais mortos, como as gaivotas e os mandriões, também podem ajudar a levá-la de um lugar a outro.

Vigiar é o desafio

O estudo reforça a importância de manter vigilância permanente da saúde da fauna em ecossistemas remotos, onde surtos podem passar sem ser detectados ou investigados. Na Antártida, cada expedição é cara e depende de janelas curtas de tempo bom. Muitos eventos de mortandade nunca chegam a ser examinados.

Sem a análise de laboratório, a mortandade das Ilhas Danger teria sido atribuída à gripe aviária, e uma ameaça antiga continuaria invisível.

A gripe aviária na América do Sul

O H5N1 causou grandes mortandades de aves marinhas e mamíferos como leões-marinhos e elefantes-marinhos na costa do Pacífico e na Patagônia a partir de 2022 e 2023, e foi detectado em aves silvestres no litoral brasileiro em 2023. A preocupação com a chegada do vírus às colônias antárticas continua, e o novo estudo mostra que é preciso olhar para todas as causas possíveis.

Perguntas frequentes

O que matou os pinguins nas Ilhas Danger?

Principalmente a cólera aviária, causada pela bactéria Pasteurella multocida, segundo os exames.

Cólera aviária é a mesma coisa que gripe aviária?

Não. A cólera aviária é causada por uma bactéria. A gripe aviária é causada por um vírus, como o H5N1.

Com informações da Universidade da Califórnia em Davis, da Universidade Erasmus e do estudo publicado na Proceedings of the Royal Society B.

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