
Conferência entra na fase decisiva sob pressão por compromissos concretos contra a degradação da terra.
Entre frio intenso, calor, sol e chuva, a primeira semana da COP17 foi marcada tanto pela instabilidade climática de Ulaanbaatar quanto por impasses diplomáticos que ameaçam comprometer decisões sobre o combate à desertificação. A conferência reúne aproximadamente 23 mil participantes na capital da Mongólia e entra, a partir desta segunda semana, na etapa decisiva das negociações entre 197 países. Para o Brasil, o momento é de cobrança: o governo deve anunciar nesta terça-feira, 25 de agosto, sua meta para a Neutralidade da Degradação da Terra.
Uma conferência dividida entre o território e a diplomacia
A COP17 é promovida pela Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação, conhecida pela sigla UNCCD. O encontro discute estratégias para recuperar solos degradados, preservar a vegetação nativa e fortalecer comunidades que dependem diretamente dos recursos naturais.
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Dourado sobe cachoeiras aos saltos para desovar, reduz a alimentação e usa musculatura adaptada à correntezaAlexandre Bezerra Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, explica que a primeira semana costuma ser dedicada à preparação dos debates. A segunda concentra as negociações políticas e a tentativa de transformar propostas em decisões aprovadas por consenso.
Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, a COP17 ocorre em Ulaanbaatar, na Mongólia, em agosto de 2026, com a participação de 197 países para discutir a recuperação de terras degradadas e o enfrentamento da desertificação.
Os bloqueios que adiaram decisões centrais
O principal obstáculo da primeira semana veio logo na sessão de abertura. A delegação dos Estados Unidos apresentou objeções formais a três temas considerados fundamentais por organizações da sociedade civil: a agenda de gênero, a articulação entre as convenções de Clima, Biodiversidade e Combate à Desertificação, além da participação social nas decisões.
“No plenário geral, na sessão de abertura da COP17, os Estados Unidos colocaram em objeção três pontos que para nós são fundamentais: a agenda de gênero, a interseção entre as convenções de Clima, Biodiversidade e Combate à desertificação; e a participação da sociedade civil”, afirmou Ivi Aliana Dantas, da Articulação Semiárido Brasileiro.
O adiamento desses pontos pelo Secretariado da Convenção evitou um colapso imediato da conferência, mas transferiu para a segunda semana uma disputa que envolve mais do que redação diplomática. As objeções atingem justamente os mecanismos de participação e integração entre agendas ambientais que haviam avançado na COP16, realizada em Riad, na Arábia Saudita, em 2024.
O paralelo entre a Mongólia e o Semiárido
Apesar da distância geográfica, os debates sobre o pastoreio nômade e o manejo de pastagens na Mongólia encontram correspondência em práticas tradicionais do Semiárido brasileiro. O exemplo citado pelos participantes envolve criadores de cabras e comunidades de fundo de pasto, que utilizam áreas coletivas e dependem da vegetação nativa para manter seus rebanhos.
A lógica é direta: sem a Caatinga em pé, diminuem as condições de fertilidade do solo e a capacidade de retenção de água. A retirada indiscriminada da vegetação pode ampliar a erosão, enfraquecer a produção rural e pressionar fontes utilizadas pelas comunidades. O combate à desertificação, portanto, não se resume ao plantio de árvores, mas envolve formas de uso da terra, segurança hídrica e permanência das populações em seus territórios.
Essa conexão também aproxima a agenda da COP17 de outras regiões brasileiras. No Cerrado, na transição com a Amazônia e em áreas sujeitas à expansão agropecuária, a recuperação do solo e a proteção da vegetação nativa influenciam o equilíbrio dos recursos hídricos. A experiência do Semiárido ajuda a mostrar que políticas contra a degradação precisam considerar os conhecimentos locais e as diferenças entre os biomas.

A conta do atraso brasileiro
A expectativa em torno do anúncio brasileiro está ligada à chamada Neutralidade da Degradação da Terra, conhecida internacionalmente como LDN. A meta funciona de maneira semelhante às Contribuições Nacionalmente Determinadas, as NDCs, usadas nas negociações climáticas. O objetivo é evitar que a degradação avance e compensar perdas com recuperação de áreas.
Rafael Giovanelli, gerente de pesquisa do Instituto Escolhas, avalia que o anúncio chega acompanhado de uma cobrança acumulada. A demanda por metas de neutralidade existe desde 2015, mas o Brasil teria passado quase uma década sem apresentar relatórios de implementação à Convenção. O último documento citado pelo pesquisador foi enviado em 2018.
“A gente torce para que a meta seja consistente, mas estamos 11 anos atrasados”, disse Giovanelli.
A crítica aponta uma lacuna entre compromissos internacionais e capacidade de execução dentro do país. Mesmo com avanços recentes, como a sanção da Lei da Caatinga, ainda seria necessário consolidar uma estrutura permanente de governança, definir responsabilidades entre órgãos públicos e ampliar recursos orçamentários.
O que a meta precisa responder
O anúncio esperado para 25 de agosto será relevante não apenas pelo número apresentado, mas pelo modo como a meta será transformada em política pública. Um compromisso nacional precisa indicar como áreas degradadas serão identificadas, quais territórios terão prioridade e de que forma os resultados serão acompanhados.
Também será necessário esclarecer como comunidades rurais, povos tradicionais e governos locais participarão da implementação. Sem essa conexão, a neutralidade pode permanecer como uma promessa internacional sem efeito proporcional sobre a erosão, a perda de produtividade e a escassez de água observadas em áreas vulneráveis.
A sociedade civil reivindica justamente maior presença nesse processo. Para Ivi Aliana Dantas, os documentos das conferências são resultado de acúmulos construídos ao longo do tempo por organizações e comunidades. A participação, nesse sentido, não aparece apenas como etapa formal, mas como forma de incorporar experiências desenvolvidas nos territórios.
Uma possível COP18 no Nordeste
Entre os desdobramentos discutidos em Ulaanbaatar está a possibilidade de o Brasil se candidatar a sediar a COP18 no Nordeste. A proposta é defendida por Giovanelli como uma oportunidade de colocar a desertificação no centro da agenda nacional e acelerar políticas de reflorestamento, recuperação da Caatinga e restauração de terras.
A própria preparação da Mongólia para receber a COP17 é apresentada como referência. Segundo o pesquisador, o país priorizou políticas nacionais de combate à desertificação e contou com a colaboração da China, sua vizinha. A experiência sugere que sediar uma conferência pode produzir efeitos antes mesmo da abertura oficial, ao obrigar o país anfitrião a organizar metas, investimentos e ações de longo prazo.
O resultado da COP17 dependerá agora da capacidade diplomática de superar os bloqueios e aprovar decisões por consenso. Para o Brasil, a próxima etapa será medida pelo conteúdo da meta de Neutralidade da Degradação da Terra e pela existência de recursos e mecanismos capazes de levá-la da conferência para a Caatinga, o Cerrado e os demais territórios pressionados pela perda de qualidade do solo.
Com informações do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Articulação Semiárido Brasileiro e Instituto Escolhas.
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