Presidência da COP30 publica dois Mapas do Caminho, um para sair dos combustíveis fósseis e outro para frear o desmatamento até 2030

Presidência da COP30 publica dois Mapas do Caminho, um para sair dos combustíveis fósseis e outro para frear o desmatamento até 2030
Foto: Felipe Werneck/COP30"/

Documentos voluntários, que não passarão por negociação, buscam transformar decisões de COPs anteriores em políticas nacionais, investimentos e metas mensuráveis.

Dois documentos que tentam responder à pergunta “e agora, como se faz?” foram apresentados nesta terça-feira, 3 de novembro de 2026, em Brasília. O presidente da COP30, André Corrêa do Lago, e a diretora-executiva da conferência, Ana Toni, lançaram os Mapas do Caminho internacionais para a transição para o afastamento dos combustíveis fósseis e para parar e reverter o desmatamento e a degradação florestal até 2030. O evento ocorreu no escritório do PNUD no Brasil, parceiro da Presidência.

Dois setores, quase 86% das emissões em jogo

A escolha dos temas tem lógica numérica. Segundo a Presidência da COP30, a energia responde por 75% e a perda florestal por 11% das emissões globais de gases de efeito estufa. Os mapas se apoiam no primeiro Balanço Global do Acordo de Paris, adotado por consenso na COP28, em Dubai, em 2023.

Os documentos foram anunciados na plenária de encerramento da COP30, em Belém, após o chamado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Cúpula de Líderes. Na ocasião, Lula afirmou que “o mundo precisa de um mapa do caminho claro para acabar com a dependência dos combustíveis fósseis”.

Os textos são contribuições voluntárias e não prescritivas e não serão objeto de negociação. Foram elaborados a partir de consultas internacionais e refletem o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, e respectivas capacidades.

Energia: um índice para medir quem está pronto

O mapa dos combustíveis fósseis conclui que a transição é urgente, inevitável e possível, e que todo país pode começar a agir, qualquer que seja o ponto de partida. Uma chamada pública na plataforma da Convenção do Clima da ONU recebeu 267 contribuições. Dessas, 21 vieram de Partes ou grupos de Partes, que representam 115 Partes no total.

O centro do documento é o Belém Índice de Prontidão para a Transição. Ele avalia a exposição de cada país aos combustíveis fósseis e sua capacidade de conduzir a mudança em três pilares: demanda, oferta e economia.

  • Demanda: consumo de energia em transportes, indústria e edificações.
  • Oferta: como a produção fóssil pode se ajustar à queda da demanda e à expansão de fontes de baixa emissão.
  • Economia: dependência fiscal, de investimento, custo de capital e sinais de preço.

Com os indicadores, cada país identifica seu arquétipo em cada pilar e vê onde a exposição é maior e onde já há pontos fortes. As alavancas estruturantes valem para todos, enquanto as de implementação são ajustadas a cada perfil.

O equilíbrio entre oferta e demanda

O documento alerta que a produção fóssil precisa cair junto com a demanda, enquanto os sistemas de baixa emissão crescem o bastante para garantir fornecimento confiável e preços acessíveis. Reduzir a oferta mais rápido que a demanda pode gerar escassez e volatilidade de preços. Manter a produção além da demanda futura pode prolongar a dependência e deixar investimentos subutilizados.

Três propostas buscam acelerar a implementação: que países, governos subnacionais e setores comecem já, usando o índice; um Mutirão TAFF (transitioning away from fossil fuels), agenda coletiva de ações coordenadas até 2033; e a manutenção do diálogo internacional, inclusive pelas futuras Presidências da COP e pelo Balanço Global.

Florestas: do diagnóstico à avaliação

O segundo mapa tem alcance global e abrange florestas tropicais, subtropicais, temperadas e boreais, além de turfeiras e manguezais. Segundo a FAO, o desmatamento anual caiu de 17,6 milhões de hectares entre 1990 e 2000 para 10,9 milhões de hectares entre 2015 e 2025, mas segue expressivo. As florestas tropicais concentram cerca de 45% da área florestal global e 88% do desmatamento registrado entre 1990 e 2025.

O texto dá atenção à degradação, menos visível, em que a floresta fica em pé, mas perde capacidade de armazenar carbono, regular o ciclo da água e sustentar a biodiversidade e os meios de subsistência. Calor, seca e incêndios podem agravá-la e aumentar o risco de mudanças irreversíveis em grandes ecossistemas, incluindo a Amazônia.

Para a região, o recado é direto: a Amazônia aparece nominalmente entre os biomas sob risco, e o debate sobre monitoramento, combate ao crime ambiental e pagamento pela floresta em pé toca a rotina dos estados amazônicos.

O mapa indica cinco áreas de ação: conservação; manejo florestal sustentável, agrofloresta e bioeconomia; combate à degradação; combate ao desmatamento; e restauração, reflorestamento e florestamento. A implementação segue cinco etapas: diagnosticar, alinhar políticas e financiamento, focar em resultados, executar e monitorar, avaliar e ajustar.

Quatro propostas usam decisões já existentes das COPs: melhorar os sistemas de monitoramento florestal; reforçar assistência técnica e capacitação; combater o crime ambiental transnacional, com apoio ao protocolo da Convenção da ONU contra o Crime Organizado Transnacional, lançado em outubro; e criar incentivos comerciais para produção sustentável e livre de desmatamento.

A conta do financiamento

O financiamento é descrito como uma das maiores lacunas. Segundo o PNUMA, o financiamento florestal anual precisa passar de US$ 84,5 bilhões em 2023 para mais de US$ 300 bilhões até 2030. Em 2023, orçamentos públicos nacionais responderam por 88,3% do total registrado, e o financiamento público internacional, por apenas 3,4%.

Como a maior parte das florestas tropicais está em países em desenvolvimento, o peso da conservação recai sobre seus orçamentos. O mapa analisa 30 mecanismos internacionais, entre eles pagamentos por resultados, o REDD+ jurisdicional e o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), e conclui que muitos operam abaixo do potencial.

Os próximos passos dependem da adesão voluntária: países e setores poderão aplicar o índice de prontidão e o roteiro florestal em suas estratégias, e o Mutirão TAFF aponta 2033 como horizonte para as ações coordenadas.

Com informações da Presidência da COP30.

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