
Com a COP 30 em Belém, o estado entra no centro do debate sobre como extrair os minerais da energia limpa sem alimentar a mineração ilegal.
Cada carro elétrico que sai de uma fábrica carrega no motor e na bateria uma quantidade de metais muito maior do que a de um carro a gasolina. Parte desses metais, como cobre e níquel, é extraída em solo paraense. Segundo dados do Boletim da Mineração Paraense divulgados em novembro de 2025, o Pará foi o segundo estado que mais produziu minérios no Brasil em 2024, atrás apenas de Minas Gerais.
A posição ganha peso com a COP 30, a Conferência do Clima da ONU realizada em Belém, que tem entre seus temas a redução das emissões de gases de efeito estufa e uma transição energética justa.
O que são minerais críticos, em linguagem simples
Minerais críticos são elementos químicos considerados indispensáveis para tecnologias de baixo carbono, como baterias, semicondutores, turbinas eólicas e painéis solares. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia, a definição está ligada à transição global para fontes de energia renováveis. Para o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), lítio, cobalto, níquel, cobre e terras raras estão nessa lista.
O professor Rômulo Simões Angélica, do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Pará (UFPA), lembra que esses elementos não aparecem “soltos” na natureza. O cobre, por exemplo, precisa ser extraído e processado para ser separado da estrutura cristalina de um mineral chamado calcopirita. É como tirar o açúcar de dentro da cana: o que existe na terra é a matéria-prima, e o insumo útil só surge depois de várias etapas.
Por que um carro elétrico pede tanto metal
Segundo o professor, veículos elétricos podem demandar até seis vezes mais minerais do que um carro convencional movido a combustíveis fósseis. Isso explica por que a corrida global por baterias e painéis solares se transforma, na prática, em uma corrida por jazidas.
Para Angélica, não há dúvida sobre a importância e a necessidade desses minerais para a indústria. Ele avalia que o Pará tem condições de fazer uma mineração sustentável, que devolva à sociedade retorno em empregos, impostos e serviços.
O Pará no centro do debate da COP 30
O Serviço Geológico do Brasil (SGB) afirma que a diversidade geológica do país, com ambientes favoráveis a novas descobertas, colocará o Brasil no centro da discussão sobre transição energética durante a COP 30. O Ministério de Minas e Energia (MME) vê na conferência uma oportunidade única de apresentar o país como potencial líder em mineração sustentável.
O Sindicato das Indústrias Minerais do Estado (Simineral) lembra que a mineração é o principal setor exportador paraense e diz que o estado se prepara de forma estruturada para a demanda global crescente. Para a entidade, a sustentabilidade da atividade, com menor impacto ambiental, maior justiça social e benefícios econômicos duradouros, exige compromissos dos países participantes da conferência.
Rastreabilidade: como separar o minério legal do clandestino
Segundo o Ibram, a proposta brasileira para a COP 30 pode incluir um pacto de rastreabilidade de minerais críticos e estratégicos na Amazônia. A ideia é registrar a origem do mineral em cada etapa, como um código de barras que acompanha o produto da mina até o comprador.
O diretor executivo da Centaurus Metals, Bruno Scarpelli, defende o mecanismo como arma contra a mineração clandestina. A empresa atua em São Félix do Xingu, no sudeste do Pará, com o Projeto Jaguar, que explora níquel sulfetado, usado em baterias elétricas.
“Se você consegue rastrear a origem daquele mineral, ele nunca vai vir de uma atividade clandestina. Ele vai vir de uma atividade, de um empreendimento que foi devidamente licenciado, cujos impactos foram avaliados, mitigados ou compensados.” (Bruno Scarpelli, diretor executivo da Centaurus Metals)
O que fica na região depois que a mina acaba
Eduardo Martins, ex-presidente do Ibama e diretor do Grupo Associado de Agricultura Sustentável (Gaas), diz que “não há crise de soluções” e que é preciso buscar respostas junto com os amazônidas. Para ele, grandes empreendimentos devem aproveitar o recurso da forma menos impactante possível e deixar uma herança de possibilidades para que o desenvolvimento local continue.
Martins também aponta o desafio central: como o Brasil pode “traduzir” a transição energética em mineração, considerando governança e impacto no contexto amazônico.
A cadeia que ainda tem elos faltando
A base da cadeia é forte, mas o restante ainda falha. É o que afirma Vinicius Alvarenga, diretor de Infraestrutura da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) e CEO da Companhia Brasileira de Lítio. Segundo ele, o Brasil é um produtor mineral maduro, com indústrias de classe mundial que produzem cobre e níquel de forma sustentável no Pará. O problema está depois: “faltam políticas públicas que criem demanda forte no mercado interno”.
Alvarenga defende que a COP resulte em compromissos que levem o governo a incentivar a compra de veículos eletrificados e a adotar metas de redução de pegada de carbono.
Para o leitor da Amazônia, o resultado é concreto: as decisões sobre rastreabilidade e licenciamento tomadas a partir da COP 30 podem definir quem extrai, quem fiscaliza e quanto da riqueza permanece nos municípios mineradores. O tema segue em debate, e o Pará busca elaborar um plano de sustentabilidade para a mineração.
Com informações de g1 Pará.
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