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Um verme recolhido entre raízes de mangue na costa amazônica…

Como criaturas do fundo do mar suportam centenas de atmosferas e continuam vivendo sem pulmões

A resposta está na química das células, na ausência de espaços com ar e em adaptações que começam antes mesmo do nascimento.

Para um animal que vive no fundo do oceano, a pressão não é um impacto repentino: é o ambiente de todos os dias. Criaturas encontradas a milhares de metros de profundidade permanecem expostas a centenas de vezes a pressão da superfície porque seus corpos foram construídos para funcionar nesse cenário, sem pulmões cheios de ar e com moléculas capazes de manter a estabilidade celular.

A explicação para a sobrevivência desses animais não está em uma espécie de armadura natural. O ponto principal é que a água, ao contrário do ar, quase não pode ser comprimida. Como boa parte do corpo dos organismos marinhos é formada por água, a pressão externa se distribui pelos tecidos. O problema maior aparece em espaços vazios, gases presos e estruturas rígidas, que sofrem alterações muito mais intensas.

A pressão aumenta rapidamente com a profundidade

A cada cerca de 10 metros de descida no mar, a pressão aumenta aproximadamente uma atmosfera. Isso significa que, a 100 metros, um organismo está submetido a cerca de dez vezes a pressão atmosférica da superfície. Em regiões próximas de 4 mil metros, a pressão pode chegar a aproximadamente 400 atmosferas.

Segundo a discussão publicada no fórum r/askscience, no Reddit, a resistência dos animais de águas profundas depende principalmente da forma como seus tecidos e moléculas lidam com essa compressão, e não de uma proteção externa contra a força da água.

Essa diferença ajuda a explicar por que um peixe pode viver em uma região que destruiria um objeto oco. Um recipiente com ar tende a ser comprimido à medida que desce. Já um corpo com poucos espaços gasosos acompanha a pressão do ambiente de maneira mais uniforme.

O corpo sem bolsas de ar leva vantagem

Peixes de águas rasas costumam ter bexiga natatória, órgão que ajuda no controle da flutuabilidade. A estrutura contém gás e, por isso, é sensível à variação de pressão. Em uma descida rápida, o gás se comprime; em uma subida acelerada, ele se expande. Esse processo pode provocar lesões graves em animais retirados de grandes profundidades.

Muitos peixes abissais não possuem bexiga natatória ou apresentam adaptações que reduzem esse problema. Invertebrados como águas-vivas, vermes, crustáceos e estrelas-do-mar também têm corpos predominantemente aquosos, sem pulmões ou grandes cavidades de ar. Isso não significa que sejam imunes à pressão, mas elimina uma das principais fontes de dano mecânico.

Quando esses animais são trazidos rapidamente para a superfície, a mudança pode ser fatal. O corpo que funcionava em equilíbrio com a pressão profunda deixa de estar ajustado ao novo ambiente. Por essa razão, pesquisas e atividades de pesca em grandes profundidades precisam considerar a descompressão e o risco de ferir organismos que não sobreviverão fora de sua faixa natural.

Proteínas e membranas mudam de comportamento

A pressão não age apenas sobre o formato do animal. Ela também altera reações químicas. Proteínas podem perder a forma necessária para funcionar, enzimas podem ficar menos eficientes e as membranas das células podem se tornar rígidas demais.

Para enfrentar esse efeito, organismos de águas profundas acumulam substâncias conhecidas como osmólitos ou piezólitos. Essas moléculas ajudam a proteger proteínas e outras estruturas celulares contra a compressão. Um dos compostos mais estudados é o TMAO, encontrado em diferentes animais marinhos e associado à manutenção da estabilidade de proteínas sob pressão.

As membranas celulares também passam por ajustes. Em geral, animais de ambientes frios e profundos precisam manter certa flexibilidade, já que baixas temperaturas tendem a deixar as membranas mais rígidas. A composição de lipídios pode mudar para conservar a movimentação adequada de moléculas dentro da célula.

Viver no escuro exige economia de energia

A pressão é apenas uma parte do desafio. Nas zonas profundas, a luz desaparece, a temperatura costuma ser baixa e o alimento chega de forma irregular. Muitos animais respondem a esse conjunto de condições com metabolismo mais lento, crescimento gradual e gasto controlado de energia.

O organismo não precisa realizar movimentos constantes como um animal que vive em águas rasas. Há espécies que aguardam partículas orgânicas caírem da superfície, capturam pequenos organismos ou aproveitam restos transportados pelas correntes. Em algumas áreas, bactérias associadas a fontes hidrotermais formam a base de cadeias alimentares sem depender diretamente da luz solar.

Essa economia, porém, tem limites. Nem todo animal marinho consegue viver em qualquer profundidade. Cada espécie possui uma faixa de tolerância determinada por sua anatomia, pela química celular, pela disponibilidade de alimento e pela velocidade com que ocorre a mudança de pressão.

O que isso representa para a costa amazônica

A Amazônia é lembrada principalmente por seus rios e florestas, mas a região também se conecta ao oceano por meio da costa do Pará e do Amapá. O material carregado pelo rio Amazonas alcança o Atlântico e participa de processos que influenciam águas costeiras, sedimentos e comunidades marinhas.

Para quem vive na região, compreender a pressão do oceano ajuda a separar dois ambientes que muitas vezes aparecem juntos nas discussões sobre biodiversidade. Peixes de rios amazônicos não estão sujeitos às mesmas condições dos animais abissais, embora ambos dependam de adaptações fisiológicas ao ambiente onde vivem. Um peixe de água doce, por exemplo, precisa equilibrar sais e água de maneira diferente de um organismo marinho de grande profundidade.

A pesquisa sobre o oceano profundo também tem importância para o Brasil porque amplia o conhecimento sobre áreas marinhas ainda pouco observadas, inclusive no Atlântico que banha o país. Quanto mais difícil é acessar uma região, maior é a dependência de veículos submarinos, sensores e métodos que não alterem a pressão do ambiente.

Por que animais da superfície não suportam a descida

Um animal de águas rasas não fracassa por ser simplesmente mais fraco. Ele foi ajustado a outra combinação de pressão, temperatura, alimento e concentração de sais. Ao ser levado para baixo, pode sofrer compressão de gases, alteração no funcionamento das proteínas e desequilíbrio em suas células.

O mesmo princípio vale no sentido contrário. Um animal abissal levado à superfície enfrenta uma descompressão brusca, que pode expandir gases e desorganizar processos fisiológicos. Em condições naturais, a subida e a descida acontecem dentro de limites compatíveis com sua anatomia.

A vida nas profundezas, portanto, não vence a pressão: ela se organiza em torno dela. O próximo avanço depende de observar essas espécies sem retirar seus corpos do ambiente original, usando equipamentos capazes de preservar pressão, temperatura e composição da água durante a coleta.

Com informações de Reddit.

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